sábado, 2 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Inflação e juros enrolam Lula

Por Folha de S. Paulo

Petista chega ao fim do mandato com guerra pressionando preços e Selic elevada pela gastança do governo

Desenrola 2 pode gerar algum efeito prático e imediato para devedores de baixa renda; seu alcance, porém, tende a ser limitado e pontual

Como esperado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho para anunciar o Desenrola 2, segunda versão de seu programa para refinanciar dívidas de famílias. Um dia antes, também como esperado, o Banco Central deu notícias incômodas sobre a inflação e a taxa de juros.

Por mais bem-vinda que seja a redução da Selic de 14,75% para 14,5% ao ano, evidencia-se o patamar ainda extraordinariamente elevado da taxa, em grande medida causado pela gestão perdulária das contas públicas. As perspectivas de alívio monetário, ademais, tornaram-se mais incertas.

Uma vez golpista... por Flávia Oliveira

O Globo

O bolsonarismo, em conluio com o Centrão, viabilizou um próximo golpe

Sem surpresa. Com duas palavras, o historiador Carlos Fico resumiu a mobilização robusta do bolsonarismo e aliados para demolir, mais que o veto integral de Lula à Lei da Dosimetria, o arcabouço legal de proteção ao Estado Democrático de Direito, aprovado pelo mesmo Congresso Nacional e sancionado em 2021 por Jair Bolsonaro, o ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe e outros crimes. Quem venceu anteontem — de novo — foi a tradição brasileira de tratorar a democracia.

— De acordo com a tradição republicana, o Congresso Nacional se posiciona beneficiando responsáveis por tentativa de golpe de Estado. Sempre foi assim, desde 1905 — escreveu Fico numa rede social.

Ele é professor titular da UFRJ, especialista em História do Brasil República, autor de “História do Brasil contemporâneo” (2015) e “Utopia autoritária brasileira” (2025), entre outras obras.

Numa tabela que tornou pública, enumerou 15 golpes (tentados ou consumados) e pronunciamentos militares. Na meia dúzia que fracassou (1902, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961), houve anistia. A sétima, o Legislativo pavimentou ontem, ao restabelecer a vigência do PL 2162/2023, que reduz tempo de prisão e facilita a progressão de regime dos condenados pela trama golpista de 2022-2023, incluindo Bolsonaro, três generais e um almirante. O Legislativo ressuscitou um projeto que fere os princípios constitucionais da impessoalidade, da proporcionalidade e da isonomia. E que foi sancionado mesmo sem passar pela Câmara após alterações do Senado.

A política minúscula de Brasília, por Thaís Oyama

O Globo

Derrota de um candidato ao cargo na mais alta Corte do país teve origem na suscetibilidade de um único indivíduo

Foram muitas e graves as consequências da memorável rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF — a maior e mais eloquente, o risco de o presidente Lula se tornar um pato manco. A derrota, inédita na ocorrência e na magnitude, escancarou a fragilidade do governo diante do Congresso, feriu em grau hemorrágico a autoridade do presidente e, a cinco meses da eleição, dificultou a aprovação de projetos cruciais para a recuperação de sua popularidade, como o da escala 6x1. Na mesma proporção do revés do governo, deu-se o ganho da oposição: Flávio Bolsonaro — que, com seu coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), foi responsável por arregimentar ao menos 28 dos 42 votos contrários a Messias — transformou o episódio em vitória da sua candidatura à Presidência e numa “resposta” do Senado aos “excessos do Supremo”, bandeira de que o concorrente Romeu Zema, do Novo, ameaçava se apropriar.

Jesus é de esquerda? Por Eduardo Affonso

O Globo

Entre os 12 apóstolos, nenhuma mulher, trans ou afrodescendente, logo ele não era assim tão inclusivo

Uma polêmica recente mostrou que há dois tipos de homem: os tóxicos (violentos, abusadores, misóginos) e os mais tóxicos ainda (que se reúnem para discutir masculinidade, paternidade, família, virtudes cristãs). Um dos argumentos contra esse segundo tipo é que ele não pode usar o cristianismo em sua cruzada conservadora, já que Jesus era de esquerda.

Muito adiante do seu tempo, o filho de Deus não teria mesmo dificuldade para se encaixar em conceitos ideológicos nascidos quase 1.800 anos depois de sua morte. Mas há controvérsias. Jesus multiplicou pães e peixes, transformou água em vinho — logo, era um empreendedor. Entre os 12 apóstolos, nenhuma mulher, trans ou afrodescendente — logo, não era assim tão inclusivo. Curou leprosos, cegos e paralíticos, sem perceber que o correto seria chamá-los de portadores de hanseníase, de deficiência visual ou locomotora — afinal, palavras matam. Jesus pode até ter feito o L na Santa Ceia e estar à esquerda do Pai — mas Deus é, com certeza, de direita.

Política, voto e negritude no Brasil: vamos falar de necropolítica? Por Irapoan Nogueira Filho

Correio Braziliense

A política tradicional, com seus cargos, orçamentos bilionários e o poder de legislar, é exatamente o palco onde a engrenagem da necropolítica pode ser desmontada ou, ao contrário, reforçada e atualizada

O ano de 2026 já se anuncia no horizonte político brasileiro trazendo a intensa movimentação das eleições nacionais e estaduais. Mais uma vez, seremos convocados às urnas para escolher quem nos representará nos próximos anos. Para além dos discursos, promessas e embates partidários que costumam dominar o noticiário, a população afro-brasileira — que representa 55,5% dos brasileiros, segundo o IBGE — se depara com uma questão fundamental que transcende a política partidária: a luta cotidiana contra uma necropolítica que, historicamente, estrutura as relações de poder no país.

O novo mundo novo, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Lula e seus auxiliares ainda não entenderam o novo mundo novo. O distanciamento da realidade resulta nas derrotas no Congresso e na alta rejeição, em especial, entre os jovens

Os teóricos do Partido dos Trabalhadores têm dificuldades em enxergar as causas de o presidente Lula enfrentar alto nível de rejeição no eleitorado brasileiro. É o que indicam pesquisas de opinião que bombardeiam o eleitor a cada semana. Elas demonstram que o candidato do PT, veterano de sete eleições (venceu três e numa delas emplacou o poste chamado Dilma Rousseff), tem sofrido o natural desgaste dos materiais. O discurso é o mesmo, o populismo radical não se renova, nem percebe a velocidade de mudança para o mundo cibernético e informatizado. Importante alerta veio da derrota no Senado na histórica rejeição de Jorge Messias para integrar o Supremo Tribunal Federal (STF).

Bancada do impeachment, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A maioria das reações de perplexidade – ante a rejeição a Jorge Messias – derivou da quebra de expectativa sobre o que deveria ser processo de aprovação automático, como se o poder de indicar fosse absoluto, como se o exercício da democracia estivesse contido exclusivamente na plenitude daquele teatro de beija-mãos a que a história de nossa República nos rebaixou-habituou. Trata-se de disfunção – sobre a essência do processo republicano – considerar perigoso que o Senado exerça uma prerrogativa; deturpação que turva a capacidade de análise sobre o que terá se passado.

Preço do petróleo vira aposta geopolítica, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O preço agora depende de variáveis que mudam em velocidades e direções diferentes

Muito se tem comentado sobre as incertezas geradas pelas guerras, com a consequente crise energética – sem falar da pretensa irracionalidade de Trump com suas posições geopolíticas. Em diversos momentos chegamos a pensar que o grau de instabilidade já havia atingido o seu ápice. Nada disso. A turbulência só tem aumentado.

Presa gorda, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Hoje todos querem ter acesso privilegiado a um ministro do Supremo

A rejeição de Jorge Messias pelo Senado tem mais relação com a disputa política do que com a biografia do candidato

Numa democracia competitiva e funcional, os adversários políticos têm incentivos para defender um Judiciário independente, capaz de aplicar as regras do jogo de forma íntegra e imparcial. Afinal, ninguém sabe o amanhã.

Não se deve ser ingênuo, no entanto, sobre a natureza das nomeações para tribunais de cúpula nas democracias contemporâneas. Essas sempre terão um componente político. Mas, quando o compromisso com as regras do jogo declina ou os tribunais se mostram mais vulneráveis a influências externas, a captura do Judiciário passa a ser uma estratégia essencial aos atores políticos.

Bolsonarismo ao lado de Moraes, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Enquanto os eleitores brigam nas ruas, o bolsonarismo se uniu ao maior algoz do ex-presidente Jair Bolsonaro

O enredo da novela, que já estava confuso, se transformou numa salada geral

Enquanto os eleitores brigam nas ruas, o bolsonarismo se uniu ao maior algoz do ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro do STF Alexandre de Moraes, para derrubar a indicação de Messias sob a bênção do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

No dia seguinte da votação, a derrota embalou a derrubada do veto ao projeto da Dosimetria, que reduz as penas dos condenados por golpe de Estado, incluindo Bolsonaro. A CPI do Master, defendida pela oposição, foi enterrada.

Bobeadas de Lula, rasteira do Congresso, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Petista não percebe o caminhão de gente contra ele; e não são só bolsonaristas

Com Executivo e Judiciário nas cordas, há desequilíbrio entre os Poderes

Marco temporal das terras indígenas, saidinhas de presos, flexibilização do licenciamento ambiental, IOF, redução de penas a condenados no 8 de Janeiro invalidando a Lei Antifacção. A lista de derrotas do governo impressiona pela falta de articulação e reação. Até a reforma tributária, considerada a maior conquista de Lula 3, teve alguns pontos desconsiderados. Se o presidente não contava com o veto a Jorge Messias na indicação ao STF, podia ao menos se precaver da rasteira. Do jeito que foi desferido, o golpe o deixou estatelado faltando cinco meses para as eleições.

Veto a Messias expõe crise institucional, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Quem mais perdeu com o episódio não foi o governo, foi o STF. A demonstração de força do Senado Federal demonstra para os ministros que os parlamentares estão à vontade para confrontar a corte, esbravejando, para quem quiser ouvir: e agora, quem será o próximo? Ouso dizer que o próximo a que se referem não espera a sabatina, mas a perda da toga em exercício

O Senado Federal rejeitou o nome de Jorge Messias para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal. Embora a desaprovação seja juridicamente possível, sua ocorrência é rara em razão de seu significado político. Ela representa mais do que um desacordo entre poderes, algo corriqueiro em uma democracia: é uma interdição agressiva, que revela disposição de enfrentamento e agravamento de crise. Vamos entender melhor essas nuances.

A indicação para a cúpula do Poder Judiciário é sobretudo política. Os pressupostos normativos previstos na Constituição Federal são bastante minimalistas e vagos, dando para o chefe do Executivo, a quem cabe a indicação, uma margem importante de discricionariedade. Por sua politicidade, as indicações costumam seguir uma ritualística não escrita, baseada em costumes historicamente repetidos, que se desenrolam nos bastidores.

“Verdades” efêmeras, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O País tem câmbio flutuante, conta de capital aberta, metas de inflação, mas os modelitos não ligam câmbio e juros

A economia é uma (vá lá) ciência difícil. Keynes dizia que os requerimentos exigidos do bom economista eram muitos: ele deveria combinar os talentos de “matemático, historiador, estadista e filósofo na medida certa. Deve entender os aspectos simbólicos e falar com palavras correntes. Deve ser capaz de integrar o particular quando se refere ao geral e tocar o abstrato e o concreto com o mesmo voo do pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado e tendo em vista o futuro. Nenhuma parte da natureza do homem deve ficar fora da sua análise. Deve ser simultaneamente desinteressado e pragmático: estar fora da realidade e ser incorruptível como um artista, estando, embora noutras ocasiões, tão perto da terra como um político”.

Maus perdedores, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA insistem na força bruta e acumulam derrotas

Donald Trump sempre exalta o poderio dos EUA e classifica seus inimigos como perdedores. Já chamou os iranianos de loucos, bastardos e animais. Se tivesse senso crítico, perceberia que seu próprio país carrega um vexatório histórico de derrotas militares. Desde a Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos não venceram nenhuma guerra, mesmo com as tropas mais bem equipadas do planeta.

Na guerra das Coreias, os EUA não perderam nem venceram. Há um consenso, entre os especialistas, de que saíram derrotados do Vietnã. Não sabiam como travar um conflito não convencional. Os vietnamitas adotaram uma estratégia de desgaste, usando táticas de guerrilha, com emboscadas e armadilhas, contrabalançando o poderio dos norte-americanos.

Manual reacionário, por Jamil Chade

CartaCapital

O Projeto 2025 extrapola as fronteiras dos EUA e rege a extrema-direita global

Em 27 de fevereiro do ano passado, funcionários da Usaid, a agência internacional de cooperação dos Estados Unidos, tiveram 15 minutos para recolher os pertences pessoais dos escritórios onde alguns haviam trabalhado por décadas. Cada um teria de levar as próprias caixas de papelão. A agência não as forneceria. Foram escoltados, como criminosos. Aos prantos, os funcionários esvaziaram as mesas e o prédio. No fundo, sem saber, apagavam as luzes de um mundo que se desfazia.

Apesar dos problemas e das suspeitas de encobrir operações de espionagem da CIA, a Usaid, por meio de seus programas, evitou mais de 90 milhões de mortes nos últimos 20 anos ao combater doenças graves. O fechamento da agência interrompeu os programas globais de saúde e a assistência humanitária financiados pelos EUA em todo o mundo.

Programa de governo e eleições, por Marcus Pestana

Em tese, nossas escolhas deveriam corresponder à nossa identidade com as ideias do candidato. O programa de governo seria a bússola a guiar a construção de nossas preferências. Afinal, eleição é momento de avaliar o passado, dar balanço no presente e projetar o futuro.

No parlamentarismo europeu, as ideias valem mais do que o carisma dos candidatos. O presidencialismo cria espaço para a predominância de lideranças com forte apelo popular em detrimento das diretrizes programáticas. Não é à toa que, na América presidencialista, emergem políticos que são muito maiores que seus respectivos partidos como Lula, Bolsonaro, Trump e Milei.

Acordo, atrito ou ruptura, por Murillo de Aragão

Veja

As três alternativas para resolver a crise institucional

Na trajetória recente do Brasil, jamais uma indicação presidencial ao STF havia sido recusada pelo Senado. Tampouco havia precedente de ministros agindo abertamente contra uma indicação do chefe do Executivo para a Corte máxima. Tudo isso em meio a escândalos que abalam a República. O contexto aponta para uma nação mergulhada em uma profunda crise institucional — algo que, acredito, ninguém desconhece. Mas até onde isso vai chegar? Há saída para esse impasse? Ou o que se vê no fim do caminho é um obstáculo ainda maior? As crises costumam se resolver com grandes negociações e com a queda de quem estava no comando. Foi assim em 1930, com a revolução; em 1945, com a redemocratização; em 1964, com o golpe cívico-militar; em 1985, com a reabertura democrática; e nos dois processos de impeachment presidencial. Entre grandes acordos e viradas bruscas, o país navega de crise em crise.

Para não dizer que eu também não falei de flores, por Ivan Alves Filho*

Se existe algo imprescindível em nossas vidas, é a beleza. Oscar Niemeyer dizia sempre que criar o belo era a grande função da Arquitetura. Não havia outra, a rigor. 

No rio São Francisco, na virada do século XX para o século XXI, eu conheci uma índia xacriabá que morava com os filhos em uma área isolada, bem isolada mesmo, a alguns quilômetros da sede de São João das Missões, na divisa, quase, de Minas Gerais com a Bahia. Tratava-se de uma reserva indígena, em uma região de caatinga. Eu estava ali preparando um livro de andanças sobre a parte mineira do Velho Chico.  A casa da índia Libertina - este o seu nome - era das mais pobres que alguém possa imaginar. Pequena, quase caindo aos pedaços ou desabando, sem nenhum utensílio praticamente em exposição, nem mesmo na minúscula cozinha. Mas...como era bonita aquela casa, toda pintada, por dentro e por fora, com motivos que lembravam os desenhos estampados nas cavernas da região. 

Poesia | O sertanejo falando, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Ataulfo Alves & Carmen Costa - miscelânea de músicas