sábado, 28 de maio de 2022

Marco Aurélio Nogueira*: Tragédia e limites do iliberalismo

O Estado de S. Paulo

Cidadãos que valorizam a democracia precisam não só combater as estripulias autoritárias dos iliberais, mas atuar para defender o sistema democrático.

De uns anos para cá, o “iliberalismo” tem ocupado um lugar de destaque nas explicações do mundo em que vivemos.

Boa parte dessa atenção decorre da multiplicação de governos que giram em torno de autocratas populistas – mais violentos e autoritários ou menos –, que menosprezam regras, hábitos e procedimentos dos sistemas democráticos. São governantes que chegaram ao poder valendo-se das instituições democráticas (eleições, liberdade de expressão e associação, separação dos poderes) e que governam minando aquilo de que se beneficiaram. Organizam sistemas antidemocráticos paralelos a partir dos quais atacam os sistemas instituídos, abalam o que está estabelecido, reprimem adversários e mobilizam seguidores, sempre que possível fanatizando-os.

Tais governos governam muito pouco, ou até mesmo não governam, deixando as coisas do Estado em modo inercial. O objetivo é converter o governo numa instância de mando e poder pessoal. Atos de governo não seguem planos técnicos e são quase sempre apresentados como derivados da generosidade e da largueza de visão do chefe, cuja vontade – em muitos casos marcada pela impulsividade e pelo improviso – é tratada como se contivesse um mapa seguro para a “verdade”. A sustentação é obtida por métodos conhecidos: negociações espúrias, produção incessante de desinformação, criação de inimigos imaginários (o comunismo, o globalismo, o marxismo cultural), manipulação das redes sociais, fomento aos discursos de ódio e intimidação, ameaças. Fatos, dados e evidências são ignorados ou mencionados com sinal invertido. A intenção é turvar a compreensão da realidade, gerar medo e confusão.

Pablo Ortellado: Militares querem bolsonarismo até 2035

O Globo

Três institutos com forte presença militar lançaram na última semana o documento “Projeto de nação, o Brasil em 2035”, um plano de militares alinhados ao governo Bolsonaro para governar o Brasil por mais três mandatos presidenciais. O projeto foi coordenado pelo general Rocha Paiva, ex-presidente do grupo Terrorismo Nunca Mais, e contou com a revisão do general Mendes Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo FH, do general Santa Rosa, ex-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos de Jair Bolsonaro, do embaixador aposentado Marcos Henrique Camillo Cortes e do professor Timothy Mulholland, ex-reitor da UnB. A cerimônia de lançamento oficial contou ainda com a presença do vice-presidente, o general Hamilton Mourão.

O projeto é uma espécie de plano de ação para os próximos mandatos presidenciais —esperando um governo Bolsonaro 2, seguido de outros dois de um sucessor, como fez Lula. O documento é um vislumbre da visão de mundo dos militares bolsonaristas.

Carlos Alberto Sardenberg: Caindo no ridículo

O Globo

Inflação alta é culpa do governo. Vale aqui e no mundo todo. Mesmo quando preços sobem independentemente da ação (ou inação) do governo, a culpa continua sendo dele. Alguns governantes reclamam. Tentam justificar: a gasolina subiu por causa da Rússia; trigo em alta, também consequência da guerra. A resposta da população ao governante seria mais ou menos assim: E daí? Vire-se.

Nesta semana, foi anunciado um reajuste de 15,5% nos planos de saúde individuais, afetando o orçamento de 8 milhões de pessoas. Na planilha, o reajuste até faz sentido. O valor da mensalidade havia caído mais de 8% em 2021, de modo que, considerando os dois anos, o último reajuste fica em torno de 3%, abaixo da inflação. Além disso, a inflação médica continua acelerada e acima da média dos demais preços. Ok, mas o segurado receberá o boleto com alta de 15,5% em relação ao mês anterior — isso em cima de altas fortes dos combustíveis e dos alimentos, para ficar em itens essenciais. E o governo não vai fazer nada?

Eduardo Affonso: Brasil é a capital das falácias para enganar os trouxas

O Globo

Diz-se que saudade é a palavra mais bonita da língua portuguesa. Minha preferida, pela sonoridade e pela serventia, é falácia.

Luis Fernando Verissimo também se encantou por ela, imaginando-a como “um animal multiforme que nunca está onde parece estar”. Num texto clássico do autor, um criador de falácias chora ao vê-las em quantidade:

— Se elas parecem estar no meu campo, é porque estão em outro lugar.

Esse outro lugar é o Brasil. Aqui, falácias abarrotam redes sociais, entrevistas, análises, debates. Uma amostra:

— É um crime contra a criança ensinar em casa (homeschooling). Mas matar a criança dentro do útero é bacana (Fernando Ulrich, economista).

Dois espantalhos: ensino doméstico não é crime; não se tem notícia de quem ache bacana matar criança, dentro ou fora do útero. E as afirmações não têm nenhuma relação entre si.

João Gabriel de Lima: O recado da arte para a política

O Estado de S. Paulo

A imprensa europeia observa que os escritores brasileiros tratam cada vez mais de questões raciais

O romance Marrom e Amarelo, do escritor brasileiro Paulo Scott, teve excelente repercussão na Europa. Lançado neste ano em inglês com o título Phenotypes, foi indicado a prêmios internacionais e coberto de elogios. “Trata-se de um enredo tecido com arte sobre raça, privilégio e culpa”, escreveu a crítica Lucy Popescu, do jornal britânico The Guardian.

A imprensa europeia observou que os escritores brasileiros tratam cada vez mais de questões raciais – e, com isso, se destacam. Foi possível constatar a tendência na Fliaraxá, uma das feiras literárias mais tradicionais do País. O evento, cujo tema deste ano foi “Abolição, Independência e Literatura”, contou com mais de 60% de escritores negros.

Entre eles estava a filósofa Djamila Ribeiro, que acaba de ocupar uma cadeira na Academia Paulista de Letras. O homenageado da Fliaraxá foi Itamar Vieira Júnior, autor de outro livro que, a exemplo de Marrom e Amarelo, vem fazendo carreira internacional brilhante. Torto Arado narra a saga de uma família de descendentes de escravos. Os dois romances, o de Scott e o de Vieira Júnior, tocam na ferida aberta do racismo brasileiro.

Vera Rosa: Campanha de Bolsonaro terá mais Michelle, pão de queijo e denúncias de ‘conspiração’

O Estado de S. Paulo

Divergências com Centrão se acentuam e aliados do núcleo ideológico avaliam que é preciso focar mais em pauta de costumes

Em público, está tudo sob controle: aliados do presidente Jair Bolsonaro ainda minimizam a pesquisa do Datafolha, que causou rebuliço no mundo político ao mostrar nesta quinta-feira, 26, que, se a eleição fosse hoje, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria no primeiro turno. Nos bastidores, porém, o comitê bolsonarista planeja mudanças na estratégia da campanha. E não é de hoje. Levantamentos em poder do Palácio do Planalto também indicam que Bolsonaro tem perdido votos nas classes mais pobres e entre as mulheres, além de enfrentar dificuldades no Nordeste e em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do País.

O problema é que há divergências na equipe e no Centrão sobre os rumos a seguir. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), coordenador da campanha, e o núcleo militar do governo avaliam que o presidente deve não apenas insistir como reforçar o discurso sobre a existência de uma “conspiração” em curso para eleger Lula, incentivada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na outra ponta, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e o presidente da Câmara, Arthur Lira – ambos do Progressistas – são contra os ataques ao TSE e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Não sem motivo: temem as consequências da crise entre os Poderes e represálias do Judiciário.

Hélio Schwartsman: O voto útil

Folha de S. Paulo

Eleitor precisa ter a sensação de que tem agência nos processos decisórios

Humanos somos bons em identificar nossos interesses particulares e revesti-los de um discurso universalista. O voto útil evidencia isso muito bem. O PT e seus aliados agora defendem que, em nome da democracia, eleitores antibolsonaristas que flertam com candidatos da terceira via antecipem o voto em Lula. Nem sempre foi assim.

Quem consultar a coleção do jornal encontrará petistas esbravejando contra o voto útil nos anos 80 e 90, nas vezes em que o instituto foi evocado contra candidaturas do partido. Há um eloquente artigo de José Dirceu de 1998 cujo subtítulo diz: "Nada mais sem sentido do que a tese de que os partidos de esquerda devem apoiar Covas para derrotar Maluf".

Incongruências da natureza humana à parte, faz sentido recorrer ao voto útil agora? Não acredito na viabilidade da chamada terceira via (Ciro ou Tebet) e adoraria ver Bolsonaro receber uma votação humilhante, mas não creio que meu júbilo pessoal seja um critério de universalidade. Em termos abstratos, eu diria que considerações estratégicas na hora do voto eram uma obrigação moral do eleitor até a introdução do segundo turno, na Constituição de 1988.

Demétrio Magnoli: Poluição verde

Folha de S. Paulo

Veto alemão à mais limpa das fontes tradicionais prende a UE numa camisa de força

"A mais recente estratégia da Comissão Europeia entrega com uma mão o que tira com a outra", reclamou Eilidh Robb, da organização ambientalista Friends of the Earth, criticando os planos de construção ou expansão de mais de meia centena de usinas baseadas em combustíveis fósseis. O erro clamoroso da nova estratégia de transição energética da União Europeia (UE) encontra-se na ausência de qualquer referência à fonte nuclear. A responsabilidade é dos ambientalistas.

Antes da invasão russa da Ucrânia, o chamado Green Deal europeu previa uma longa evolução para energias renováveis amparada no uso transitório de gás natural russo. Todo o conceito repousava sobre políticas definidas pela Alemanha.

De 713 Mt (milhões de toneladas) de CO2 em 2011, a Alemanha passou a emitir 625 Mt em 2019, às custas de multibilionários investimentos em fontes renováveis. Já a França reduziu suas emissões de 321 Mt para 287 Mt. A diminuição foi praticamente a mesma, em termos relativos, nos dois países –mas a França emite 4,25 Mt por milhão de habitantes, contra 7,50 Mt da Alemanha. A diferença abismal deve-se ao papel da energia nuclear: na França, a fonte supre 42% do consumo energético, enquanto na Alemanha supre apenas 6%.

Cristina Serra: O Brasil na câmara de gás

Folha de S. Paulo

Os agentes da PRF não fizeram uma abordagem policial; cometeram um crime

Na cidadezinha do Nordeste, Genivaldo de Jesus Santos é assassinado no porta-malas da viatura transformada em câmara de gás. Um dos assassinos lança o veneno sobre Genivaldo como quem aplica inseticida para eliminar uma barata.

Genivaldo grita e se debate em desespero. Suas pernas pedem socorro. Genivaldo pede socorro. Mas não será ouvido. Vai desmaiar e morrer nos próximos minutos o cidadão de Umbaúba, Sergipe. Brasil. Os agentes da Polícia Rodoviária Federal não fizeram uma "abordagem policial". Cometeram um crime, sem dar chance de defesa à vítima. Homicídio qualificado, segundo o Código Penal.

Também está errado referir-se à chacina na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, como "operação de inteligência". Não podemos repetir essa ignomínia e, muito menos, aceitá-la, sob pena de nos tornarmos cúmplices. Nossa indignação tem que dar às coisas os nomes que elas têm: carnificina, mortandade, matança, morticínio, assassinato em massa. Quais os crimes atribuídos aos mortos? Sua culpa, sua máxima culpa, foi terem nascido pretos e pobres.

Alvaro Costa e Silva: Campanha eleitoral com pena de morte

Folha de Paulo

No Rio, governador transforma chacina em palanque; em Sergipe, retrato do país asfixiado

Oficialmente a campanha eleitoral começa em agosto. Mas ela está em todo lugar, com variadas e inusitadas ações. Há estampas de Lula e Bolsonaro nas bancas de comércio popular que se espalham nas avenidas Paulista e Nossa Senhora de Copacabana. Em algumas regiões do país, sobretudo aquelas beneficiadas com verbas do orçamento secreto, o clima é de véspera de votação: carreatas e showmícios.

eleição —garantem de marqueteiros a cientistas políticos— será a mais movimentada desde a redemocratização nos anos 80. Como era de conhecimento geral —até do TSE—, informações falsas grassam nas redes. Estagnado no segundo lugar das pesquisas, Bolsonaro domina a audiência do TikTok. São vídeos curtos, um minuto no máximo, com memes e paródias. O presidente interpreta o tiozão do pavê. Já circula na plataforma a notícia de que ele mandou congelar, na marra, o preço da gasolina e dos alimentos.

Marcus Pestana*: Imposto inflacionário: desorganização e injustiça

O IBGE publicou o Índice Nacional ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) de maio, que antecipa a inflação do mês completo, e apontou uma elevação de preços anual de 12,20%, em curva ascendente.

A pesquisa de opinião Genial/Quaest apontou que que 50% dos brasileiros entendem que o maior problema do Brasil é a economia, onde predomina a preocupação com a inflação e o desemprego. A saúde foi apontada por 13%, seguida das questões sociais (11%) e corrupção (9%).

O mundo político, pressionado pelas angústias e temores da população, procura se movimentar. Foi feita a quarta mudança na presidência da PETROBRAS neste governo, o que demonstra extrema dificuldade de estabelecer uma política consistente e estável para a política de preços dos combustíveis. As ações da empresa caíram e as expectativas se deterioraram um pouco mais.

Já a Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei que coloca um teto de 17% nas alíquotas do ICMS, principal fonte de financiamento dos estados, para energia e combustíveis.

É evidente que o Brasil tributa alto bens essenciais com repercussões em todas as cadeias produtivas e na vida da população, como energia, telecomunicações e combustíveis. Mas retirar repentinamente 100 bilhões de reais por ano de receitas de estados e municípios, que vivem uma situação superavitária provisória, graças à própria inflação e às transferências federais feitas durante a pandemia, é no mínimo temerário e fere o Pacto Federativo. A solução teria que se dar através da imprescindível reforma tributária que alterasse o modelo de tributação e a repartição das receitas.

Marco Antonio Villa: O Brasil precisa voltar a crescer

Revista IstoÉ

Antes, o pai sabia que seu filho teria uma vida melhor que a sua. O progresso não era só uma fala ideológica, era uma realidade concreta

A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 foi o ápice de um processo histórico que pode ser explicado por diversas razões que nasceram no século XX. As últimas quatro décadas foram marcadas pela perda do dinamismo econômico que caracterizou os anos 1930-1980, quando o Brasil foi o País que mais cresceu no mundo ocidental. Não custa recordar que em 1980 o Brasil tinha, no hemisfério sul, o maior parque industrial.

O processo de industrialização intensificado a partir da Revolução de 1930 construiu um Brasil moderno, em revolução permanente, com deslocamentos populacionais que não só mudaram a distribuição demográfica, mas – e principalmente – moldou uma dinâmica sociedade com o crescimento das cidades – algumas rapidamente chegando ao status de metrópoles – e enfrentando os grandes problemas nacionais. No otimismo dos anos 1930-1980 o pai sabia que seu filho teria uma vida melhor que a sua, assim como ele vivia em melhores condições que seu pai. O progresso não era só uma fala ideológica, era uma realidade concreta.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

É cedo para dizer que não haverá segundo turno

O Globo

A pesquisa Datafolha divulgada nesta semana confirmou a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do PT à Presidência, com 48% das intenções de voto, seguido pelo presidente Jair Bolsonaro, do PL (27%). O resultado deu a Lula 54% dos votos válidos e levou os mais apressados a especular se a eleição estaria definida já no primeiro turno, no dia 2 de outubro.

É, claro, um cenário possível. Mas longe de ser provável, muito menos certo. Faltando mais de quatro meses para o pleito, ainda antes do início oficial da campanha, é impossível fazer qualquer aposta com base numa única pesquisa. Pesquisa não é previsão. Representa apenas um retrato do momento em que ela é feita. Os dados e fatos disponíveis até aqui sugerem justamente o contrário: o cenário mais provável é haver segundo turno em 30 de outubro para definir o vencedor. E é melhor que seja assim.

Quando a disputa se afunila nos dois finalistas, os candidatos são forçados a expor mais suas ideias, e os eleitores têm chance de avaliá-las melhor. É na reta final da campanha que costumam ser seladas alianças que darão base à formação dos futuros governos. Elas tornam as plataformas dos candidatos mais representativas da maioria da população. Ainda que o voto no segundo turno possa ser sustentado pelo sentimento de barrar a vitória deste ou daquele candidato, ele traz inerentemente mais legitimidade aos planos que o vencedor apresenta ao país.

Poesia | Thiago de Mello: A Fruta Aberta (Narração de Mundo dos Poemas)

 

Música | Jorge Aragão: Papel de pão

 

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Vera Magalhães: Duelo de rejeições definirá se haverá segundo turno

O Globo

A diferença de 21 pontos percentuais de vantagem de Luiz Inácio Lula sobre Jair Bolsonaro, mostrada pelo Datafolha, incendiou os partidários do petista, apavorou os governistas e intrigou alguns analistas de pesquisas, mas fez com que todos esses atores passassem a analisar como mais provável a decisão da eleição presidencial no primeiro turno pela primeira vez desde 1998, com o ex-presidente como favorito.

Ainda que a diferença não seja tão dilatada quanto o dado obtido pela metodologia do instituto -- de entrevistas de campo, diferente da maioria dos levantamentos feitos com frequência maior e por telefone --, o dado para o qual todas as pesquisas convergem é aquele segundo a qual a preferência por Lula ou Bolsonaro, bem como a rejeição a um ou a outro, tende a alimentar, de agora em diante, um processo de “alckmização" dos adversários, que pode levar a que a decisão da disputa se antecipe.

Trata-se de uma referência ao que houve com Geraldo Alckmin, hoje vice na chapa de Lula, em 2018. Ele tinha boa estrutura de campanha, tempo de TV, dinheiro e, ainda assim, viu suas intenções de voto não decolarem, e depois desidratarem, diante de um eleitor que passou a enxergar Bolsonaro como a única opção para derrotar o PT -- naquele ano, a força motriz principal do eleitorado.

Bernardo Mello Franco: O 2º turno já começou

O Globo

O Datafolha informa: se a eleição fosse hoje, Lula venceria no primeiro turno com 54% dos votos válidos. A nova pesquisa reforça o favoritismo do petista, cujo nome não aparece na urna há 16 anos. E evidencia as dificuldades de Jair Bolsonaro, que pode se tornar o primeiro presidente a fracassar numa campanha à reeleição.

Em votos totais, que incluem brancos e nulos, Lula tem 48% e Bolsonaro aparece com 27%. O terceiro colocado é Ciro Gomes, que empacou nos 7%. Os outros pré-candidatos têm desempenhos pífios, entre os 2% e o traço.

Com as desistências de Sergio Moro e João Doria, que tentavam roubar votos de Bolsonaro, a disputa se afunilou entre o atual presidente e o ex. Ainda há tempo para surpresas, mas elas se tornam cada vez mais improváveis. A quatro meses das urnas, o eleitor parece disposto a antecipar o segundo turno para o primeiro.

A ruína econômica impulsionou o crescimento de Lula, que aposta na memória dos tempos de prosperidade em seu governo. Ele abriu 36 pontos de vantagem para Bolsonaro entre os eleitores mais pobres. São os brasileiros que mais sofrem com a carestia e o desemprego.

Luiz Carlos Azedo: Quando a fortuna governa a política, e a virtude, não

Correio Braziliense

Bolsonaro corre o risco de perder a eleição no primeiro turno, para o ex-presidente Lula, o que contraria o instituto da reeleição, que favorece quem está poder para dar continuidade aos projetos

O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, discorre longamente sobre a sorte na política. “De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se lhe deva servir” (Quantum fortuna in rebus humanis possit, et quomodo illis it occurrem dum), o 15º capítulo de seu livro, foi escrito com a intenção subjacente de separar o Estado da Igreja, que exercia enorme influência sobre os principados italianos. À época, dizia-se que as coisas eram governadas pela fortuna e por Deus e que os homens não poderiam modificar o seu destino, que já estava predeterminado. Muitos deixavam-se governar pela sorte e perdiam o poder.

Com a cautela que seu pescoço exigia, Maquiavel resolveu dividir as responsabilidades: “Pensando nisso algumas vezes, em parte inclinei-me em favor dessa opinião. Contudo, para que o nosso livre arbítrio não seja extinto, julgo poder ser verdade que a sorte seja o árbitro da metade das nossas ações, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase”.

Para explicar sua tese, comparou a fortuna aos rios torrenciais: “Quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores e os edifícios, carregam terra de um lugar para outro; todos fogem diante dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder opor-se em qualquer parte. E, se bem assim ocorra, isso não impedia que os homens, quando a época era de calma, tomassem providências com anteparos e diques, de modo que, crescendo depois, ou as águas corressem por um canal, ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem tão danoso”.

Vinicius Torres Freire: Qual vai ser o golpe de Bolsonaro para evitar derrota no primeiro turno?

Folha de S. Paulo

Ano eleitoral e eleitoreiro ainda está longe de acabar, mas o arsenal de mágicas ficou menor

Jair Bolsonaro (PL) não perdeu os votos que juntou no início deste ano, mostra o Datafolha. Lula da Silva (PT) ganhou, bastantes até para vencer a eleição no primeiro turno. O problema do candidato que ora ocupa o Planalto volta a ser como não perder na primeira rodada. O que vai ou pode inventar, por exemplo, em termos de favores econômicos? O ano eleitoral e eleitoreiro ainda está longe de acabar, mas o arsenal de mágicas ficou menor.

Até as pesquisas de março ou abril, Bolsonaro deve ter se beneficiado de Sergio Moro (União Brasil) ter sido tirado da disputa, da discreta e inesperada despiora da economia no início desde 2022 e de alguns favores econômicos.

A julgar pelo Datafolha, a colheita magra de intenções de votos acabou, por ora. Vai ser mais difícil colher safra melhor na segunda metade do ano.

Segundo as melhores estimativas disponíveis, que ainda assim muita vez estão erradas, a economia teria crescido bem no primeiro trimestre, menos no segundo e começaria a encolher a partir de julho, fechando a segunda metade do ano no vermelho.

Reinaldo Azevedo: O Datafolha e a câmara de gás

Folha de S. Paulo

Se Bolsonaro vencer, golpe deixa de ser um risco e passa a ser uma certeza

Não temam tanto um autogolpe de Jair Bolsonaro caso ele perca a eleição no primeiro turno ou no segundo. A democracia será golpeada se ele vencer, o que é possível, embora pareça improvável, como revelam números do Datafolha.

Se a eleição fosse hoje, Lula teria 54% dos votos válidos no cenário mais provável, não precisando ir para o embate final. O petista tem 48% das intenções de voto e é rejeitado por 33% apenas. Votariam no atual presidente 27%, e 54% o rejeitam. Nota: a eleição não é hoje.

Por mais que Bolsonaro vocifere, não é a derrota que o torna especialmente perigoso. A exemplo de todo autoritário, a vitória lhe assanharia ainda mais a sede de mando. Um golpe da derrocada já nasceria sob o símbolo da farsa.

Já a vertigem da vitória teria mais chance de arrastar aventureiros. Essa é não mais do que uma constatação, não um convite para uma causa. Não tenho argumentos para a neutralidade diante de um massacre ou da câmara de gás.

Bruno Boghossian: Do salão para a cozinha

Folha de S. Paulo

Presidente pediu apoio em dois encontros para reduzir vantagem de Lula com eleitor mais pobre

Durante uma feijoada num apartamento do Morumbi, há duas semanas, um convidado perguntou a Jair Bolsonaro como os empresários poderiam ajudar sua campanha à reeleição. O presidente chamou os funcionários da cozinha, falou sobre os perigos de uma vitória da esquerda em outubro e pediu aos endinheirados que fizessem o mesmo com outros trabalhadores.

Quem contou a história foi o próprio Bolsonaro. Dias depois daquele almoço, ele foi a um evento com donos de supermercados e sugeriu que eles falassem com "os mais humildes" em suas lojas. "É reunir pelo menos uma vez por semana com o pessoal no canto e dar a palavra: 'Onde está apertando o calo de cada um de vocês?'. Para ganhar a confiança."

Bolsonaro sabe onde seu calo aperta nesta eleição. Quando pediu apoio dos mais ricos na feijoada do Morumbi, o presidente se referiu aos trabalhadores da cozinha como um "pessoal que ganha, em média, R$ 2.000 por mês", segmento em que ele enfrenta uma desvantagem arrasadora.

Dora Kramer: Agora é cinza

Revista Veja

João Doria não é causa, é antes um dos sintomas da lenta e autofágica derrocada do PSDB

Partidos, assim como as democracias numa definição contemporânea, não padecem de morte súbita, definham por ações de sabotagens lentas e graduais. Internas ou externas. No caso do PSDB a lenta derrocada vem sendo produzida no interior do organismo partidário há pelo menos vinte anos.

Portanto atribuir a atual estação fundo do poço a João Doria é um misto de erro, injustiça e autoengano. Para não falarmos em má-fé. O ex-governador chegou à vitrine do tucanato em 2016, quando se elegeu prefeito de São Paulo. É, antes, um dos sintomas, e não a causa das asneiras autofágicas que o PSDB já vinha cometendo mesmo antes de deixar o poder, em 2002.

No momento o partido está numa enrascada. Não consegue construir um mínimo de uniformidade sobre como se posicionar na eleição presidencial: com candidatura própria, na carona incerta do MDB ou ao deus-dará na base do cada um por si.

Um processo, segundo Marcus Pestana, dirigente do partido e pré-candidato ao governo de Minas Gerais, malconduzido, sem conversas produtivas nem transparência a respeito das intenções de cada ala. Produto, na avaliação dele, da junção de razões políticas justas com interesses bem menos nobres ligados à distribuição do Fundo Eleitoral, “instrumento de cooptação de caciques, o pior vírus que já se instalou na política brasileira”.

Rogério F. Werneck: Lula, Alckmin e a conquista do centro

O Globo

É difícil que Lula atraia o eleitor de centro sem se mover para o centro. Ele ainda não se deu conta que o ‘timing’ pode ser crucial

A menos que ainda possamos vir a contar com superpoderes de Simone Tebet, o que nos aguarda em outubro é o que mais se temia: um mano a mano entre Lula e Bolsonaro. Sairá vitorioso quem conseguir conquistar, em encarniçado segundo turno, apoio decisivo dos eleitores de centro que ainda resistem à escolha entre os dois candidatos.

É dessa perspectiva que se afigura a cada dia mais intrigante resistência de Lula a dar demonstrações claras e inequívocas de que está disposto a se mover para o centro do espectro político. E, nunca é demais insistir, tal movimento teria que se dar ao longo do eixo que verdadeiramente importa, que é o da condução da política econômica.

Sobre isso, Lula continua fechado em copas. E o pouco que deixa entrever, em esparsas declarações à mídia, só contribui para reforçar a percepção de que ele continua resistindo a se mover para o centro e, pior, propenso a se mover para a esquerda.

Cristian Klein: Produção em alta da Fascisbras

Valor Econômico

Empresa tem sócios no aparato estatal e na iniciativa privada

A empresa de intolerância e atrocidade nacional - a Fábrica de Ataques Sistemáticos Contra Inimigos Sociais (Fascisbras) - está batendo recorde de produtividade nesta semana. A companhia, uma sociedade de economia mista, cujos sócios estão no Estado e na iniciativa privada, na polícia e nas milícias digitais, nos gabinetes e certos círculos empresariais, registrou desempenho digno de comemoração pelo presidente da República.

Até o fim do ano, no período pré e pós-eleitoral, a expectativa é que o grupo lance uma linha de produtos numa estratégia agressiva de dominar o mercado (golpe), o que se junta à ‘expertise’ na destruição de reputações e de vidas, setor bastante explorado durante a pandemia.

Bolsonaro, cujo comportamento é como se CEO do conglomerado fosse, parabenizou as tropas que mataram 26 pessoas, entre as quais inocentes, na segunda maior chacina na história do Rio. Não sem razão. A equipe quase bateu a meta da última e recordista operação, em maio do ano passado, no Jacarezinho, onde foram recolhidos 28 cadáveres - na maioria peças de reposição do tráfico.

Maria Cristina Fernandes: O tiro que pode perturbar as eleições

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Turbulência que se teme em outubro não vem da ação das Forças Armadas

A turbulência que se teme nas eleições não vem da ação das Forças Armadas, mas de sua omissão. No roteiro traçado por um ex-ministro da Defesa, ainda hoje um dos principais interlocutores civis no meio militar, uma eventual derrota do presidente Jair Bolsonaro levaria seus apoiadores mais exaltados a uma tentativa de invasão de prédios públicos, notadamente o Tribunal Superior Eleitoral, que divulga o resultado oficial da disputa.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, face ao risco, pediria ao presidente da República uma Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). O comandante em chefe a recusaria, por óbvio, principal beneficiário que é de uma baderna que reside, por enquanto, no campo da imaginação.

Como qualquer um dos Três Poderes pode conceder a GLO, o governador apelaria, então, à presidente do Supremo Tribunal Federal, cujo prédio também é alvo. Não falta quem, além das estátuas da liberdade em frente às lojas da Havan, queira dar ao Brasil uma réplica do 06/01/2021.

A ministra Rosa Weber não hesitaria em concedê-la, mas o comandante em chefe pode resistir para evitar que, a exemplo do que aconteceu na invasão do Capitólio, em Washington, a tropa atue na contenção dos baderneiros.

José de Souza Martins*: Incertezas do ensino doméstico

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Os pais podem inventar a educação que querem dar a seus filhos, mas não podem reinventar a sociedade na qual seus filhos terão que viver

Diferentes sociedades reinventam a educação de conformidade com os desafios da circunstância e com o surgimento da consciência de que os conteúdos e modos de educar vigentes têm insuficiências que pedem inovações. Os que querem a educação escolar dos filhos em casa, a querem porque estranham que a educação na escola não faça deles cópias do que acham que eles próprios são.

O problema é que, se a inovação não der certo, porque mais resultado de palpite do que de conhecimento especializado, multidões de crianças e adolescentes serão prejudicadas e ficarão despreparadas para viver na sociedade tal qual ela é.

Os pais podem inventar a educação que querem dar a seus filhos, mas não podem reinventar a sociedade na qual seus filhos terão que viver. É a escola convencional que, além de educar, pode socializar, na convivência cotidiana com os diferentes, para os desafios cotidianos das mudanças da realidade social.

É possível que os militantes da causa do ensino doméstico estejam infelizes com a educação brasileira porque não tem sido ela fábrica da sociedade por eles concebida. Querem mastigar para os filhos as verdades que a vida não confirma.

Claudia Safatle: Será longa a guerra contra a inflação

Valor Econômico

Só estabilizar a relação dívida/PIB é uma péssima gestão de risco, diz Arminio

A guerra contra a inflação será mais longa e mais custosa do que se imagina. A convergência das expectativas de inflação para a meta de 3,5% poderá ocorrer só lá por 2024, elevando-se, aí, o tempo de juros altos necessário para domar os preços. A taxa de juros para este ano está em 8,5%. A curva cai um pouco e fica em torno de 6% ao ano a perder de vista.

“Isso cria um problema potencialmente muito sério. Corre-se o risco de adquirir uma inércia que há tempos não víamos”, alerta o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, sócio-fundador da Gávea Investimentos.

À pergunta sobre quando ele acredita que a taxa de inflação vai poder estar ancorada na meta de 3,5%, Armínio não arrisca uma resposta. “Qualquer coisa que eu fale tem uma dose de subjetividade, não tem um modelo que resolva isso com tanta incerteza no horizonte: ano de eleição, incerteza sobre o que a futura administração vai fazer. E a economia teve uma reação no primeiro trimestre, mas a expectativa é que a política monetária faça o efeito que ela foi desenhada para fazer, que é dar uma segurada na economia, o que cria um ambiente político e social tenso.”

Eliane Cantanhêde: Uma loucura!

O Estado de S. Paulo

Pró-Pinochet, Stroessner, Ustra e Daniel Silveira, contra Nise da Silveira e Paulo Freire

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro enaltece sanguinários como Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner e Carlos Brilhante Ustra e faz homenagem de duas horas no Planalto para um sujeito como Daniel Silveira, seu governo ataca a psiquiatra Nise da Silveira, o educador Paulo Freire, o cientista Ricardo Galvão, o compositor Chico Buarque e a nossa diva do teatro Fernanda Montenegro.

O Congresso aprovou a inclusão da Dra. Nise no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, mas Bolsonaro vetou, alegando que não é possível avaliar “a envergadura” do trabalho dela, e bolsonaristas da Câmara já articulam trocar a Dra. Nise por Olavo de Carvalho, o canastrão rejeitado pela própria filha que xingava até nossos generais aos palavrões. Isso, sim, é uma loucura!

Fernando Gabeira: Nacionalismo como álibi na Amazônia

O Estado de S. Paulo.

Os que defendem a devastação abandonam o discurso nacionalista e caem nos braços dos grupos internacionais que utilizavam como bicho-papão

Apesar de seu caráter propagandístico, a visita do bilionário Elon Musk ao Brasil merece atenção.

Em primeiro lugar, o objetivo declarado de conectar à internet 19 mil escolas da região amazônica é inatacável. Isso será excelente para o precário ensino na Amazônia e poderá, ainda, fortalecer uma série de atividades como medicina à distância e negócios sustentáveis com o mundo. Portanto, o único problema aí, se houver, é uma questão de avaliar preços e concorrentes para ver se essa é mesmo a melhor proposta. O Brasil não está começando neste campo.

Avançando um pouco no discurso de Bolsonaro e de Musk, falou-se também do monitoramento ambiental da Amazônia, que seria fortalecido com a infraestrutura montada pelo bilionário. O problema é que já temos um monitoramento na Amazônia, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e disponível para todos os que se interessem em combater queimadas e desmatamento.

Entrevista| Silvio Pons*: Moscou está isolada, mas da África à Índia muitos não seguem o Ocidente

Il Riformista & Gramsci e o Brasil.

A guerra e a narrativa de Putin. As ideias dos socialistas europeus e o risco de um novo, devastador conflito no Oriente. Il Riformista discute a questão com um dos mais respeitados estudiosos do “planeta” russo, Silvio Pons, docente de História Contemporânea na Escola Normal Superior de Pisa, presidente da Fondazione Gramsci. Entrevista a Umberto De Giovannangeli.

Em Bruxelas o senhor participou de um encontro da FEPS (Foundation for European Progressive Studies), que reúne as Fundações e os centros de investigação dos partidos socialistas, social-democratas e progressistas da Europa. Os socialistas e a guerra. Professor Pons, há um ponto de vista comum?

Sobre algumas questões seguramente existe. Defender a Ucrânia como país democrático e independente é um objetivo que unifica todos os socialistas europeus. E o mesmo se pode dizer sobre a afirmação de uma perspectiva de trégua e, depois, de paz, embora seja ainda muito difícil dizer como e quando se verificará. De resto, na tradição do socialismo europeu há uma particular sensibilidade ao tema da agressão de uma grande potência imperialista e à resposta que é necessário dar a esta agressão na perspectiva de uma política da União Europeia, que está num sistema de alianças ocidentais mas deve também definir os próprios interesses como Europa.

Fernando Carvalho*: Calote na Comissão de Anistia

Todos sabemos que o Brasil vive uma situação democrática resultado da superação de uma ditadura militar que durou 21 anos. A ditadura aconteceu em 1964, tempo em que ainda existia a guerra fria. Todos conhecemos o papel do embaixador americano Lincoln Gordon de apoio aos militares golpistas. Segundo Chomsky "Nós instalamos o primeiro verdadeiro grande estado de segurança nacional, estado semi-nazista da América Latina, com tortura de alta tecnologia, e assim por diante". Todos conhecemos também o papel de Bolsonaro ao longo dos seus vários mandatos de deputado federal. Espécie de restolho da ditadura militar, nunca fez segredo disso, ao contrário sempre verbalizou seus conhecidos elogios à ditadura militar que, segundo ele, "deveria ter matado trinta mil pessoas, inclusive FHC". Sempre foi favorável à tortura e dizia que por meio do voto não se muda nada. E outros absurdos mais. 

Mas, por ironia da História, Bolsonaro chegou à presidência da República. Ele procura o tempo todo vender aos militares a ideia de que com ele o regime militar está de volta ao poder ou a caminho. Colocou milhares de militares em cargos civis no governo. Participa de eventos de formatura de militares, coisa que nunca acontecia com presidentes civis. Procura dar aumento de salário para militares e policiais. E concedeu soldo de marechal em pensões vitalícias para centenas de militares de alta patente e até para um coronel torturador. Como se tivesse querendo seduzir nossa elite militar para a Operação Capitólio Brazuca.

Hélio Schwartsman: Polícia do Rio desafia o Supremo com operações

Folha de S. Paulo

Desobediência parece ensaio para eventual confronto entre STF e Bolsonaro

Um dos mais terríveis monstros da mitologia grega, a Hidra de Lerna tinha corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Vivia nos pântanos da Argólida e seu hálito era venenoso. Pior, ela era praticamente imortal, já que, quando uma de suas cabeças era destruída, surgiam duas em seu lugar. O monstro foi derrotado por Hércules, que, depois de esmagar inutilmente muitas cabeças, decidiu mudar de tática. Pediu a seu sobrinho Iolau que queimasse o pescoço do bicho logo após o corte de uma cabeça. Com a ferida cauterizada, elas não se regeneravam. Deixo para os fãs da psicanálise especular sobre o significado simbólico do monstro.

Flávia Oliveira: O extermínio é projeto

O Globo

É assentada no extermínio dos jovens negros moradores de favela — ligados ou não ao varejo de drogas ilícitas — a política de segurança do governo fluminense. Não bastassem as estatísticas sobre a predominância de pessoas pretas e pardas entre os moradores das comunidades populares, sequências de fotos das vítimas de homicídios sepultam dúvidas. Cláudio Castro foi içado ao Palácio Guanabara em substituição a Wilson Witzel, o governador que mandava “atirar na cabecinha”, sinal verde à execução sumária. No poder, dobrou a aposta. Manteve a decisão do companheiro de chapa de suprimir a Secretaria de Segurança, substituída por duas pastas, de Polícia Civil e Polícia Militar. Acumula recordes nefastos por matanças sucessivas protagonizadas pelas Forças que comanda.

Desde outubro de 2020, quando assumiu interinamente o governo, após a Alerj aprovar a abertura do processo de impeachment de Witzel, o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni-UFF) contou 74 operações policiais com três ou mais homicídios; ao todo, foram 327 mortes. A partir de maio de 2021, com Castro efetivado no cargo, houve 83 mortes em 16 chacinas, incluídas aí as duas mais letais da História do estado: Jacarezinho 2021, com 28 mortos, dentre os quais um policial; Vila Cruzeiro, na última terça, 23 óbitos (a polícia reduziu em três o total de vítimas informado anteriormente). Uma mesma gestão acumular o primeiro e segundo lugares em letalidade de intervenção policial numa série histórica iniciada em 1989 não é acaso, coincidência, fatalidade, efeito colateral. É projeto.