sexta-feira, 13 de março de 2026

Brasília convida à ópera: ‘Nessun dorma’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

“Ninguém dorme, ninguém dorme”, é o estado de nervos na capital federal

Um político experiente, que circula entre Brasília e São Paulo, com trânsito nos três Poderes e no setor produtivo, depois de ouvir muito, resumiu assim o estado de nervos na capital federal: “Ninguém dorme, ninguém dorme”.

Nada mais apropriado para descrever Brasília em tempos de crise do Banco Master do que uma frase que remete à ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini. No ato final, o príncipe Calaf canta a ária “Nessun dorma” - “Que ninguém durma”, em livre tradução. A princesa Turandot proíbe que os súditos durmam naquela noite enquanto não descobrirem o nome do príncipe. Do contrário, todos morrerão e ela teria de se casar com ele.

A ária foi imortalizada pelos tenores italianos, como Luciano Pavarotti e Andrea Bocelli - este último, teria sido contratado para a festa privada de Daniel Vorcaro em Taormina, na Sicília, que teve custo estimado de R$ 222 milhões, segundo o g1. Tradicionalmente, duplas sertanejas e grupos de pagode embalam as festas e jantares de políticos em Brasília. Nunca, entretanto, as trágicas árias italianas combinaram tanto com o Planalto Central.

Em meio a noites insones, as atenções se voltam nesta sexta-feira (13) para o início do julgamento na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que poderá confirmar, ou revogar, a decisão do ministro André Mendonça que levou à segunda prisão de Vorcaro, desta vez em 4 de março. A análise que pode ser concluída em um dia, ou até em uma semana, aguarda os votos dos ministros Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques. Há intensa torcida nos bastidores pela soltura do banqueiro, diante do temor que paralisa a capital de que ele negocie uma delação.

A percepção quase unânime é de que sem dúvida, a crise do Banco Master é o maior escândalo político e financeiro do país em 136 anos de República. Na noite de terça-feira (10), nos corredores vazios do Senado, a coluna esbarrou em um dos quadros políticos mais experientes do Legislativo, e ouviu dele a seguinte reflexão sobre a atual conjuntura: o clima é de “barata voa”, ninguém sabe o que fazer, com quem conversar, em quem confiar.

A coluna indagou se esse ambiente lembrava os tempos da Operação Lava-Jato, com operações rotineiras da Polícia Federal contra políticos do alto escalão e empresários influentes, mas ele reagiu: “A Lava-Jato é um departamento perto da crise do Master porque tem braços para todos os lados, pega todos os Poderes, pega governadores, pega o Banco Central, ninguém escapa”, alegou.

Impera na Praça dos Três Poderes o sentimento generalizado de apreensão e desconfiança, e não há clima para se votar nada. Circulam rumores de novas operações da Polícia Federal quase diariamente, e ninguém sabe o que sairá dos sucessivos vazamentos de movimentações financeiras do Master e da Reag Investimentos, ou qual nome de político ou autoridade surgirá nas novas transcrições de mensagens de aplicativos.

O governo esperava avanços no Senado das indicações do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo, de nomes para diretorias do Banco Central, da PEC da segurança pública, mas a comunicação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), está interditada. O chefe do Legislativo reclamou a interlocutores das constantes operações da PF em sua base eleitoral.

Nesta semana, agentes da PF flagraram o segundo suplente de Alcolumbre, o empresário Breno Chaves Pinto, fazendo saques vultosos em dinheiro. Ele é investigado em suposto esquema de fraudes em licitações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). No mês passado, o alvo da PF foi o então presidente da Amapá Previdência, Jocildo Silva Lemos, pela aplicação de R$ 400 milhões do fundo de previdência dos servidores estaduais no Master. A nomeação dele foi atribuída a Alcolumbre, que desmentiu.

Pesquisas confirmaram a crise institucional. Entre escândalos do Master e pagamentos imorais de penduricalhos, em especial, o Supremo e o Poder Judiciário como um todo enfrentam crise de imagem e confiança. Segundo o Datafolha, o índice de brasileiros que não confiam no Supremo chegou a 43%, maior taxa registrada desde o início da série, em 2012. Má notícia para a democracia brasileira, que foi preservada pelo STF no histórico julgamento da tentativa de golpe de Estado. A crise fragiliza as instituições, contribui para a imagem de vítima que Jair Bolsonaro cultiva e ajuda a impulsionar seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na corrida presidencial.

Flávio

As novas rodadas de pesquisas divulgadas nesta semana surpreenderam até mesmo generais da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Uma liderança do PL admitiu à coluna que esperava esse desempenho do filho do ex-presidente por volta de maio - ou seja, faltando ainda dois meses. Primeiro, o Datafolha trouxe o empate técnico do senador com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. Quatro dias depois, na quarta-feira (11), a Quaest agravou o quadro para o PT, trazendo um empate numérico, com os dois adversários pontuando 41% em eventual segundo turno. Nesse cenário, aumenta a curiosidade quanto ao “posto Ipiranga” de Flávio. Esta fonte do PL disse que ele está ouvindo muita gente, mas ainda faltou dar o “match”, como se deu com Paulo Guedes em 2018. O time de consultores inclui Mansueto Almeida, Campos Neto e Daniella Marques

 

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