sexta-feira, 13 de março de 2026

Um ciclo esgotado, por Ivan Alves Filho

Há alguns meses, antes mesmo de eclodir o escândalo do banco Master, eu publiquei um texto intitulado Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil. 

E acontece que, de lá para cá, a nossa crise só vem se aprofundando. Endividamento crescente das pessoas, aumento no número de dependentes inscritos no bolsa família, avanços escabrosos no crime organizado, casos chocantes de corrupção, feminicídio e estupros com frequência quase avassaladora; enfim, problemas de todo o tipo não saem mais das páginas dos jornais e do noticiário em geral. Tudo isso deixa a impressão de fim de um ciclo, senão de fundo do poço, tamanho os impasses que vivemos. Creio que estamos de volta aos tempos da República Velha, do Estado Novo e da ditadura militar. Um fechamento de época, pedindo urgentemente uma mudança de rumos. Caso contrário, a Democracia correrá sérios riscos, a descrença popular nas instituições da República se aprofundando cada vez mais. E esta descrença engloba igualmente os partidos políticos e boa parte de suas lideranças. 

De outra parte, o povo parece assistir a tudo isso com tremenda perplexidade. De fato, é um cenário deprimente esse que temos diante dos nossos olhos, estendendo-se por vários planos da vida brasileira, ou seja, das entranhas do Estado ao cotidiano de cada cidadão brasileiro.

Face a este desmoronamento, uma opção política se impõe. E ela passa por um projeto de nação, pela refundação do país. Ainda temos quadros políticos e técnicos de grande valor, capazes de se debruçar sobre as necessárias saídas para nós. Que o Plano de Metas, as Reformas de Base e o Plano Real nos sirvam de inspiração nesta hora. Volta e meia escrevo algo a respeito disso. Questão ambiental, inserção na globalização, a realidade do novo mundo do trabalho, aprofundamento da Democracia, retomada da identidade cultural: estes são, a meu juízo, os nossos principais gargalos ou pontos de estrangulamento. É preciso desatar os nós. O Brasil pede passagem, precisa avançar, com novas propostas e renovação política. 

"Os corruptos e tiranos infectam com veneno mortal não uma taça onde só uma pessoa há de beber, mas sim a fonte pública que será utilizada por todo o povo", conforme está muito bem definido na obra do italiano Baldassare Castiglione, intitulada O Cortesão, um clássico. 

Nesse sentido, estamos quase chegando ao ponto que fez com que os antigos apelassem para os seus deuses, instados por eles a enviarem Mercúrio à Terra, trazendo a cada um a ideia de justiça ou mais simplesmente de vergonha. E talvez nem precisamos ir tão longe na História: no início do século XX, o respeitado historiador cearense Capistrano de Abreu propunha para o país uma Constituição Federal com o seguinte e brevíssimo teor:

 "Artigo 1 - Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.

Artigo 2 - Revogam-se as disposições em contrário".

*Ivan Alves Filho, historiador

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