E acontece que, de lá para cá, a nossa crise só vem se aprofundando. Endividamento crescente das pessoas, aumento no número de dependentes inscritos no bolsa família, avanços escabrosos no crime organizado, casos chocantes de corrupção, feminicídio e estupros com frequência quase avassaladora; enfim, problemas de todo o tipo não saem mais das páginas dos jornais e do noticiário em geral. Tudo isso deixa a impressão de fim de um ciclo, senão de fundo do poço, tamanho os impasses que vivemos. Creio que estamos de volta aos tempos da República Velha, do Estado Novo e da ditadura militar. Um fechamento de época, pedindo urgentemente uma mudança de rumos. Caso contrário, a Democracia correrá sérios riscos, a descrença popular nas instituições da República se aprofundando cada vez mais. E esta descrença engloba igualmente os partidos políticos e boa parte de suas lideranças.
De outra parte, o povo parece assistir a tudo
isso com tremenda perplexidade. De fato, é um cenário deprimente esse que
temos diante dos nossos olhos, estendendo-se por vários planos da vida
brasileira, ou seja, das entranhas do Estado ao cotidiano de cada cidadão
brasileiro.
Face a este desmoronamento, uma opção
política se impõe. E ela passa por um projeto de nação, pela refundação do
país. Ainda temos quadros políticos e técnicos de grande valor, capazes de se
debruçar sobre as necessárias saídas para nós. Que o Plano de Metas, as
Reformas de Base e o Plano Real nos sirvam de inspiração nesta hora. Volta e
meia escrevo algo a respeito disso. Questão ambiental, inserção na
globalização, a realidade do novo mundo do trabalho, aprofundamento da
Democracia, retomada da identidade cultural: estes são, a meu juízo, os nossos
principais gargalos ou pontos de estrangulamento. É preciso desatar os nós. O
Brasil pede passagem, precisa avançar, com novas propostas e renovação
política.
"Os corruptos e tiranos infectam
com veneno mortal não uma taça onde só uma pessoa há de beber, mas sim a fonte
pública que será utilizada por todo o povo", conforme está muito bem
definido na obra do italiano Baldassare Castiglione, intitulada O
Cortesão, um clássico.
Nesse sentido, estamos quase chegando ao
ponto que fez com que os antigos apelassem para os seus deuses, instados por
eles a enviarem Mercúrio à Terra, trazendo a cada um a ideia de justiça ou mais
simplesmente de vergonha. E talvez nem precisamos ir tão longe na História: no
início do século XX, o respeitado historiador cearense Capistrano de Abreu
propunha para o país uma Constituição Federal com o seguinte e brevíssimo
teor:
Artigo 2 - Revogam-se as disposições em
contrário".
*Ivan Alves Filho, historiador

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