segunda-feira, 16 de março de 2026

Do sertão para o mundo, por Preto Zezé

O Globo

Tauá, no interior do Ceará, decidiu enfrentar limitações climáticas e econômicas com planejamento e inovação

Neste ano eleitoral, escolhi olhar menos para candidatos e mais para experiências de políticas públicas que possam ajudar a qualificar o debate. A ideia é trazer boas práticas de interesse público capazes de inspirar uma agenda de desenvolvimento baseada em resultados reais. Em vez de discutir só promessas, vale observar o que já está funcionando em algumas cidades.

Um desses exemplos vem do sertão cearense. Tauá, conhecida como Capital do Carneiro, decidiu transformar sua identidade econômica tradicional em ponto de partida para um projeto mais amplo de desenvolvimento.

A fama da cidade vem da criação de ovinos e caprinos e da tradicional manta de carneiro, apreciada em todo o Ceará. Parte da singularidade desse sabor está ligada à vegetação nativa, como a faveleira, que compõe a dieta dos animais e confere características únicas à carne.

Localizada no sertão dos Inhamuns, uma das regiões mais secas do Ceará, Tauá decidiu enfrentar limitações climáticas e econômicas com planejamento estratégico e inovação. Hoje, pode ser descrita como um oásis de aprendizado em meio ao Semiárido desafiador.

Essa transformação resulta de continuidade administrativa e de uma visão de gestão que combina educação, tecnologia e infraestrutura como pilares do desenvolvimento. Sob a liderança da prefeita Patrícia Aguiar, eleita para o quinto mandato, o município acumulou prêmios nacionais e reconhecimento por iniciativas que desafiam a lógica tradicional atribuída ao sertão.

Um dos marcos foi a implantação do programa Cidade Digital, que ampliou o acesso à conectividade e abriu espaço à formação tecnológica de jovens. Laboratórios de cultura maker e lousas digitais passaram a integrar as escolas municipais, aproximando estudantes da ciência, da programação e da inovação.

A aposta na tecnologia se refletiu na economia. Tauá passou a registrar uma das maiores concentrações de startups por habitante no Ceará e implantou iniciativas de fabricação digital voltadas ao desenvolvimento de soluções tecnológicas.

Mas talvez o aspecto mais interessante do caso tauaense seja a capacidade de articular inovação com políticas públicas essenciais. O município universalizou a assistência social básica, estruturou políticas de compra pública que fortalecem a agricultura familiar e passou a adquirir todos os alimentos da merenda escolar diretamente de produtores locais. O resultado é duplo: renda no campo e alimentação de qualidade para os estudantes.

Na saúde, Tauá ganhou destaque ao ser escolhida como experiência-piloto para programas de organização da atenção primária apoiados por organismos internacionais.

A inovação não aparece apenas como discurso tecnológico. Ela se materializa em políticas concretas que reorganizam a relação entre Estado, economia e qualidade de vida.

A experiência de Tauá sugere uma reflexão importante para o Brasil. Por décadas, o sertão foi tratado só como território de carência. Mas iniciativas como essa mostram que, com planejamento, continuidade administrativa e visão estratégica, municípios do interior podem ser polos de inovação. Num país marcado por profundas desigualdades regionais, talvez seja hora de olhar com mais atenção para o que acontece longe dos grandes centros.

Porque, muitas vezes, é justamente no interior que o futuro começa a ser desenhado.

Nenhum comentário: