O Globo
Percepção da população capta a situação real
de cada um — e é isso que influencia a decisão de voto
Falta mão de obra em vários setores da
economia brasileira, incluindo construção civil e agronegócio. Empresas
informam ter criado benefícios especiais para conseguir contratar. A taxa de
desemprego, medida pelo IBGE, está em nível historicamente baixo. Portanto o
momento só pode ser favorável ao trabalhador. Mas parece que não é. Pelo menos,
não para todos.
Pesquisa Quaest divulgada na semana passada mostrou que 50% dos entrevistados declararam estar mais difícil conseguir emprego. E 40%, que está mais fácil. O indicador macroeconômico mostra uma situação que não bate com a percepção efetiva da maioria dos trabalhadores.
Tem mais. A inflação claramente desacelerou
no Brasil nos últimos meses. Todos os indicadores mostram isso, tanto que o
Banco Central já se prepara para reduzir a taxa básica de juros. A Quaest
também perguntou sobre isso, e — bingo! — a população não percebe. Nada menos que
58% dos entrevistados disseram que os preços de alimentos subiram em março,
ante 16% que notaram queda.
O PIB brasileiro cresceu três anos seguidos
acima dos 3%, até 2024. No ano passado, a expansão foi menor, mas alcançou
honrosos 2,3%, com ganhos reais da renda do trabalho. Mas 64% dos entrevistados
disseram que compram hoje menos do que conseguiam comprar um ano atrás.
Para resumir: mesmo com PIB e renda em alta,
inflação e desemprego em baixa, 48% dos entrevistados sentem que a economia
brasileira piorou nos últimos 12 meses. Apenas 24% acham que melhorou. Não se
trata de fato novo ou exclusivo dos brasileiros. Faz tempo que a economia
política estuda esse, às vezes, abismo entre os indicadores macroeconômicos e a
percepção da população.
Um olhar mais detido sobre a realidade
explica alguma coisa. É o caso do emprego. O IBGE considera ocupado alguém que
ganha remuneração de qualquer tipo de trabalho. São considerados empregados os
38,5 milhões de trabalhadores na informalidade — aqueles sem carteira assinada,
os que fazem alguma coisa por conta própria sem CNPJ (vendem cerveja na saída
dos estádios) e os que ajudam em casa. Para esses, é duro ganhar alguma coisa.
Bem diferente da situação dos 39 milhões que trabalham com carteira assinada.
Mesmos esses, porém, têm dificuldades para encontrar posições mais bem
remuneradas, pela falta de capacidade educacional e técnica.
Finalmente, a inflação e os preços. Aqui é
fácil perceber de onde vem a oposição entre o índice e o sentimento da
população. Quando o indicador mostra que a inflação caiu, isso quer dizer que
os preços subiram menos, não que diminuíram.
Houve inflação mundial na saída da pandemia.
Com a retomada da economia, a demanda voltou, mas os sistemas de produção e
logística estavam desorganizados. Faltaram insumos, os alimentos não chegavam.
Os preços subiram, e isso contribuiu para a queda de muitos governos. Para
citar um exemplo de fora: nos Estados Unidos, Joe Biden pegou uma inflação que
se aproximava de 10% e derrubou para a casa dos 3%, com índices em forte
desaceleração. Mas Trump fez campanha atacando a inflação. Acertou. Os preços
subiam menos, mas as coisas, especialmente gasolina e comida, continuavam muito
caras.
Aconteceu por aqui também. Lula fez campanha
prometendo devolver picanha e cerveja aos churrascos dos brasileiros. Mas já
topou duas vezes com momentos de alta no preço das carnes. Este é um produto
“símbolo”. No mundo, o consumo de carne, especialmente bovina, é diretamente
proporcional ao ganho de renda. Por aqui, consumir picanha é status. Voltar
para a carne de segunda é retrocesso, sinal de perda de poder aquisitivo. Além
disso, o preço de alimentos é a inflação sentida no dia a dia. Compra-se comida
na semana toda, as pessoas sabem os preços do feijão, percebem as variações.
Tudo considerado, os índices macro funcionam,
mostram o estado geral da economia. A percepção da população capta a situação
real de cada um — e é isso que influencia a decisão de voto.

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