O Globo
Eventuais fotos e vídeos de políticos no
celular de Vorcaro podem ser a única prova da relação promíscua entre ele e o
poder
Entre os mitos da política, está que a vida privada de autoridades não é de interesse público. Um equívoco que, muitas vezes, serve apenas para acobertar conchavos, tráfico de informação e subornos praticados e recebidos pelos senhores do poder. Negociações pouco republicanas não ocorrem à luz do dia, mas em ‘festinhas’ privadas, jantares com belas mulheres, bate-papo em jatinhos e, reza a lenda, até em sauna dentro de banco na Faria Lima — no caso, o Banco Master. Envolvem, com certa frequência, casos extraconjugais patrocinados por uma camaradagem interessada em arrancar um naco do Estado. É nesses momentos que nascem as negociatas em torno de projetos de lei, licitações e troca de favores — e é justamente por isso que são de interesse público.
Na década de 60, a Inglaterra estarreceu-se
diante do “Profumo Affair”, ou Caso Profumo, que mostrou como aventuras
amorosas de uma autoridade não significam apenas aventuras amorosas de uma
autoridade. Em plena Guerra Fria, o secretário de Guerra do Reino Unido, John
Profumo, resolveu ter como amante uma modelo que se relacionava, também, com um
adido naval e espião soviético. Não só Profumo caiu, como ajudou a derrubar o
gabinete do conservador Harold Macmillan e a eleger os trabalhistas em 1964. No
Brasil, o caseiro Francenildo denunciou festinhas numa mansão de Brasília envolvendo
lobistas e o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. A importância do caso
não estava nas garotas que frequentavam o local, mas nos negócios fechados lá.
Empresário pagando conta de amante de
político, e amante de político lotada no serviço público não são histórias
sobre sexo. São sobre poder, tráfico de informação e uso do público para fins
(bem) privados. No escândalo Epstein, o ex-príncipe Andrew e o ex-embaixador do
Reino Unido nos Estados Unidos rodaram, num primeiro momento, não pelos crimes
sexuais, mas porque, nas festas com menores de idade, repassavam segredos de
Estado. A literatura política está repleta de bunga-bungas à Berlusconi.
Brasília está em pânico com as imagens dos
celulares de Vorcaro. O ministro André Mendonça determinou que todo o material
referente a “aspectos da vida privada” seja retirado pela Polícia Federal (PF)
da base de dados enviada à CPMI do INSS. A decisão do ministro vem na esteira
do vazamento indevido de conversas íntimas do banqueiro com sua ex-namorada,
mas pode ser usada para blindar políticos do Centrão flagrados em situações
desabonadoras. A intimidade de Vorcaro e Martha Graeff não tem interesse público.
Não deveria ter se tornado pública, e o Estado deve responder por isso. Mas
são, sim, de interesse público as conversas dos dois sobre encontros com
ministro do Supremo e presidentes de partido — ele chama Ciro Nogueira de “um
dos grandes amigos de vida”.
Eventuais fotos e vídeos de políticos no
celular de Vorcaro podem ser a única prova da relação promíscua entre ele e o
poder. A PF deve ter cautela na supressão do material que devolverá à CPMI,
preservando as mulheres que não tenham relação com os negócios desses senhores.
As informações sobre os habitués das “festinhas” do banqueiro, no entanto,
devem ser públicas.

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