O Globo
O espanto causado pela extensão dos
tentáculos e da ousadia de Daniel
Vorcaro e sua desfaçatez com o dinheiro alheio fizeram muita
gente repetir uma pergunta que vem à tona toda vez que um grande escândalo se
abate sobre Brasília,
mais profundo que o de antes. Não aprendemos nada com o caso anterior?
Quando o petrolão começou, a pergunta era feita olhando para o mensalão. Agora, ela se aplica ao legado da Lava-Jato. A pergunta é simples, mas a resposta é complexa como qualquer transformação histórica e não cabe num único artigo.
Mas há uma lição que já deveria ter sido
assimilada há tempos e que o caso Vorcaro prova ainda não termos aprendido:
toda vez que se mata uma apuração jogando a sujeira para debaixo do tapete, a podridão
reaparece em forma de fantasma, ainda mais assustador.
Apesar da anulação de multas e das sentenças
que sepultaram judicialmente a Lava-Jato, nenhum cidadão razoavelmente
informado deixou de saber o que se deu nos meandros do poder naquele período, e
ninguém nega o que ocorreu no petrolão.
O que deixamos de saber, porque a apuração
foi interrompida, é até onde o Judiciário estava envolvido no rolo. Toda vez
que a investigação enveredou por esse caminho, bateu no muro.
Em setembro de 2019, o grupo de trabalho que
atuava no gabinete da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu
demissão, em protesto contra a decisão de não investigar o então presidente do
Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.
Ele havia sido citado em duas delações de
empreiteiros — de Marcelo Odebrecht, que se referia a ele como “amigo do amigo
do meu pai”, e de Leo Pinheiro, da OAS, que disse ter feito uma reforma na casa
de Toffoli e ainda ter dado R$ 1 milhão para o irmão dele comprar a renúncia de
um político de Marília (SP).
A Vaza-Jato já estava na praça com grande
repercussão desde 2019, assim como um pedido de suspeição de Sergio Moro,
mas o ex-juiz de Curitiba só foi considerado suspeito pelo Supremo em março de
2021, alguns meses depois de vir à tona a delação do presidente da Fecomércio,
Orlando Diniz, que afirmava manter vários advogados ligados a juízes e
ministros de Cortes superiores em sua folha de pagamento.
Desde então, o Judiciário, mais
especificamente o STF, se envolveu cada vez mais na política, tendo como pano
de fundo a festa das emendas parlamentares e o oba-oba dos eventos de lobby
mundo afora, disfarçados de discussão jurídica de alto nível.
O avanço desse movimento acabou sendo
ofuscado primeiro pela Covid-19, depois pelo golpismo insistente e perigoso
de Jair
Bolsonaro, que exigia providências firmes. Mas o fantasma não
desapareceu. Ficou apenas escondido num canto, esperando a hora de ressurgir.
Eis que agora, depois de sua segunda prisão
ser confirmada pela Segunda Turma do STF, Vorcaro promete uma “delação séria”.
O recado enviado por seus advogados aos investigadores é que ele não pretende
poupar ninguém.
Se a intenção realmente se confirmar, é certo
que boa parte do Centrão virará alvo de inquérito, assim como um naco do
petismo, alguns governadores e ainda figuras-chave na burocracia de
instituições que deveriam fiscalizar o setor financeiro, como o Banco Central.
A esta altura, porém, isso é o mínimo, até
porque muita coisa que Vorcaro poderia contar já está no material apreendido
pela PF em celulares e computadores e nos relatórios de inteligência financeira
produzidos pelo Coaf.
O que nenhum policial federal ou procurador
da República minimamente competente poderá deixar de perguntar ao dono do Banco Master é
o que, de fato, ele pretendia comprar ao desembolsar R$ 35 milhões por uma
fatia do resort Tayayá, de que Toffoli era sócio, qual o verdadeiro escopo do
contrato de R$ 130 milhões fechado com Viviane Barci de Moraes, ou ainda o que
ele queria saber se Alexandre de
Moraes conseguira bloquear, nas mensagens enviadas ao ministro
horas antes de ser preso.
As respostas a essas questões definirão se
essa delação será para valer, ou se de novo aceitaremos que se enfiem os
esqueletos em algum esconderijo, apenas para vê-los reencarnar em novo
escândalo num futuro não muito distante.

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