O Estado de S. Paulo
Quando uma sociedade não sabe mais apontar a
direção justa para os seus conflitos internos, sua vida política se perde da
própria finalidade
Não é uma instituição, não é um poder, não é uma autoridade. Antes de assumir essas formas, além de muitas outras – uma sentença, um trânsito em julgado, um resultado eleitoral, a lista seria extensa –, a justiça é uma ideia compartilhada por pessoas que se reconhecem partes de uma identidade comum, uma história comum, um futuro comum. Mas dizer isso é dizer pouco, já me apresso em alertar. É necessário que a ideia compartilhada de justiça tenha vínculo direto com aquilo que, num único ser humano, é intuitivo: o sentimento de justiça. Em resumo, é necessário que a ideia compartilhada de justiça, que é uma elaboração cultural coletiva, represente e traduza, com as devidas mediações, o sentimento intuitivo de cada pessoa. Sem isso, nada feito.
(Sei que o parágrafo anterior soou abstrato em demasia. Por isso, peço licença para aprofundar o ponto. Vai ficar mais abstrato ainda, mas talvez fique mais límpido também.)
Os gregos antigos acreditavam que o
sentimento de justiça morava na alma: seria uma sabedoria natural, espontânea,
capaz de distinguir quase que por reflexo entre o iníquo e o magnânimo, entre o
arbitrário e o parcimonioso, entre o bem comum e a vaidade chula. Viriam daí,
desse saber intuitivo, tanto a indignação moral (o impulso que se ergue contra
um ato de injustiça) quanto uma certa paz de espírito (aquela que se instala
quando se tem segurança de que os direitos de cada um se encontram atendidos,
em harmonia com os direitos da coletividade).
Pois bem. Quando existe conciliação possível
entre o sentimento de cada sujeito e o entendimento racional, socialmente
construído, do que é o ideal de justiça e de como ele pode se realizar, podemos
falar, enfim, de uma ideia compartilhada legítima. Se a ideia compartilhada
existe, se está viva e presente, tudo vai bem. No entanto, quando a
possibilidade de conciliação se desfaz, ou começa a se desfazer, o que começa a
morrer é a possibilidade de que as pessoas se reconheçam como partes de uma
identidade comum, uma história comum, um futuro comum. Aqui estamos nós.
Parece exagero, eu sei, mas não é. No bojo da
agonia de credibilidade do Poder Judiciário no Brasil, o que está em jogo é
muito mais do que encontrar uma fórmula para limitar os penduricalhos de
desembargadores, muito mais do que redigir um código de ética que discipline os
conflitos de interesse dos ministros das altas cortes, muito mais do que julgar
e punir magistrados criminosos. O problema de fundo é mais aflitivo e mais
clamoroso, embora invisível para a imensa maioria dos comentadores: o problema
é que a Nação está se perdendo do que poderia ser uma ideia compartilhada de
justiça. Se as coisas prosseguirem assim, seremos um país perdido de si mesmo.
Não minimizemos o que se passa. Deveríamos
parar com esta mania cômoda (e suicida) de reduzir os assuntos judicantes a um
mero detalhe administrativo da República, um escaninho de repartição pública. A
ideia compartilhada de justiça é mais do que isso: ela é o coração de toda
atividade pública.
Com isso, volto com os gregos antigos. Não
por acaso, a diretriz que orienta o pensamento contido na Politeia ( A
República) de Platão é o esforço de compreender o que poderia definir a
justiça. Em seus diálogos, o discípulo de Sócrates investiga, entre outros
temas, o equilíbrio devido entre as pretensões dos cidadãos, a necessidade de
dar a cada um o que lhe é de direito, a observância da lei e o dever de desapego
daquele que exerce o poder. A política transparece como o método da pólis para
produzir um ambiente justo.
Aristóteles escreveu A Política para refutar
algumas das “quimeras” que detectava na Politeia de seu mestre, mas não refutou
o elo entre a ação política e a realização da justiça. Quando refletiu sobre a
mais elevada finalidade (o bem) da política, que concebia como “a mais suprema
de todas as ciências”, o filósofo foi categórico: “O bem, em política, é a
justiça que consiste no interesse comum”.
Hoje, ao ler Aristóteles e Platão, somos
convidados a aprender que, se a política não se destinar a tornar mais justa a
sociedade, terá perdido sua razão de ser. Sim, todo mundo sabe que a visão que
cada tempo histórico tem do que seja a justiça pode variar, mas segue fora de
dúvida lógica ou ética que, numa ordem democrática, o propósito da vida
política é caminhar na direção do que seja justo aos olhos dos cidadãos.
Para onde isso nos leva? Muito simples.
Quando uma sociedade não sabe mais apontar a direção justa para os seus
conflitos internos, sua vida política se perde da própria finalidade. Então, o
que vem é o fanatismo instrumentalizado por gangues que se digladiam para se
apropriar de nacos da riqueza social, mais ou menos como salteadores divididos
em bandos se engalfinham para ver quem é que fica com o butim.
Se você olhar com alguma objetividade à sua
volta, verá que não estamos longe da instrumentalização do fanatismo pelas
gangues. Quando o sentido mesmo da justiça é disputado pelas facções como se
fosse parte do butim, um sentimento de alma escorre pelo ralo. •

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