quarta-feira, 18 de março de 2026

A bancada da Papuda, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao condenar dois deputados por desvio de emendas, Supremo avisou que "haverá outros"

No Brasil, os escândalos se sucedem com tanta velocidade que às vezes o novo trambique vem à tona antes que o anterior tenha sido elucidado.

Ontem o Supremo condenou dois deputados, um ex-deputado e outras cinco pessoas por corrupção passiva. Eles foram os primeiros réus a ser julgados por desvio de emendas do orçamento secreto.

Os parlamentares são Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, ambos do PL. De acordo com a Procuradoria-Geral da República, eles cobravam propina para destinar recursos a municípios maranhenses.

O caso foi denunciado pelo prefeito de São José de Ribamar, que procurou a Polícia Federal após ser alvo de ameaças. Além de roubar verbas da Saúde, a quadrilha atuava de forma “virulenta e violenta”, destacou a ministra Cármen Lúcia.

A farra das emendas veio a público em 2021, quando o governo de Jair Bolsonaro montou o orçamento secreto para proteger o presidente do impeachment. O Congresso nunca mais devolveria a chave do cofre. O Supremo impôs regras de transparência, mas a dinheirama controlada pelos parlamentares continuou em disparada. Em 2026, deve chegar a R$ 61 bilhões.

O tribunal optou por não cassar os mandatos de Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil. Condenados a menos de oito anos de prisão, eles terão direito a trabalhar e cumprir pena em regime semiaberto. Devem dividir o tempo entre o Congresso e a cadeia.

Ao votar pelas condenações, o ministro Flávio Dino lembrou que o caso não foi isolado. “Este é o primeiro, mas infelizmente haverá outros”, avisou, citando a existência de “dezenas” de inquéritos e ações penais em curso. Se a previsão se confirmar, pode faltar cela para abrigar toda a bancada da Papuda.

Como os ministros gostam de dizer, o tempo da Justiça não é o tempo da imprensa. O comércio das emendas mal começou a ser julgado e já parece notícia velha. Perdeu espaço para escândalos mais recentes, como a roubalheira no INSS e os desfalques bilionários do Banco Master.

Ontem a PF deflagrou uma nova operação contra a deputada Gorete Pereira, suspeita de embolsar verbas desviadas de aposentados. A parlamentar do MDB do Ceará teve mais sorte que os colegas do PL do Maranhão. A Procuradoria pediu sua prisão, mas o ministro André Mendonça preferiu calçá-la com uma tornozeleira eletrônica.

 

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