terça-feira, 5 de maio de 2026

Eleitores cativos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pesquisas mostram que polarização afetiva se cristalizou

Lógica recomendaria busca por candidatos de baixa rejeição

A semana passada foi desastrosa para Lula, mas é cedo para considerar sua candidatura como carta fora do baralho. Apesar de os sinais emitidos pelo Parlamento não serem alvissareiros para o petista, são os eleitores e não os senadores que definirão o nome do próximo presidente. E isso faz diferença.

Minha leitura da última safra de pesquisas é que os dois principais blocos de eleitores —lulistas e bolsonaristas— se deixaram aprisionar por suas preferências. A polarização, que ocorre não apenas na régua da política mas também na dos afetos, se cristalizou. Cada um dos lados sente a perspectiva de vitória do adversário como ameaça física. Aceitam tudo para evitar que o outro time triunfe.

A melhor evidência disso é que Flávio Bolsonaro, uma nulidade política que ostenta só escândalos no currículo, herdou a quase totalidade dos votos do pai. Mais, nas simulações de segundo turno, qualquer nome da direita chega bem perto de Lula. Pela inversa, sondagens que testaram Fernando Haddad e Geraldo Alckmin no lugar de Lula trouxeram resultados semelhantes. Num hipotético segundo turno genérico, qualquer representante do lulismo ou do bolsonarismo estaria em situação de empate técnico ou quase com o rival.

Se o governismo decidisse lançar Alckmin, o eleitor petista, que até 2022 descrevia o vice-presidente como um direitista empedernido próximo do Opus Dei, não teria remédio que não sufragar seu nome, tamanho é o medo de ver um Bolsonaro subindo a rampa do Planalto.

É um quadro não muito dessemelhante ao de 2022. Lá como cá, o mais provável é que a polarização se mantenha e o pleito acabe sendo definido por um contingente relativamente pequeno de eleitores que não se identificam, aberta nem veladamente, com nenhum dos dois blocos. Pela lógica, ambos os lados deveriam estar em busca de candidaturas de baixa rejeição. Não é, contudo, o que estamos vendo. Por vezes, política tem mais a ver com soberba ("hýbris") do que com cálculo. Vimos isso na semana passada com a derrota de Messias.

 

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