Folha de S. Paulo
Foi-se o pensador alemão Habermas mas, muito
antes, já havia morrido sua ideia de democracia deliberativa
O tempo trumpista não é de razão, mas de canhões
e tentativas de trocas de comando em terras alheias
Foi-se o pensador alemão Jürgen Habermas. Muito antes do fato, já havia morrido a sua ideia utópica de democracia deliberativa, sustentada por uma esfera pública onde cidadãos discutiriam racionalmente assuntos de interesse comum. Igualmente, desaparecido o seu anseio de um federalismo soberano da União Europeia. A razão cultuada pelo filósofo não resiste ao digitalismo da internet e das redes sociais, apropriado por empresas neoliberais cujo único interesse é a compressão do espaço-tempo para acelerar transações de mercado. A transparência comunicativa por ele teorizada submergiu em algoritmos e plataformas privadas, dispositivos de pura mobilização emocional.
Mas a liberdade pessoal defendida pelo
mercado neoliberal, onde cada um é responsável por suas ações e por seu próprio
bem-estar, gera outro tipo de transparência, o falatório alucinante, em que
tudo acaba por se evidenciar e ser dito, sem peso cívico nem verdades
consensuais. Às vezes, de uma notícia protocolar nas redes, o que transparece
aos olhares atentos é o temor de uma grande armação
antidemocrática.
É bem o caso da negação do visto de entrada
no país de um supremacista branco, assessor de
Trump, que pretendia visitar o ex-presidente na prisão. O motivo
anunciado da viagem e que justificou inicialmente uma autorização brasileira
era a participação num seminário. Depois se ampliou para a visita ao detento e,
mais, para uma conversa programada com o ministro
Nunes Marques, do STF. Teria soado um sininho de advertência na
cabeça de alguém, o governo proibiu a viagem.
Tudo isso transparecia nas redes, à revelia
oficial. Era um "no brainer" (vernáculo americano para algo que está
na cara), especular que Nunes Marques será o presidente do Tribunal Superior
Eleitoral, com vice-presidência do ministro André Mendonça, nas
próximas eleições. Por sinal, um rito do calendário democrático, a que Trump se
refere em seus discursos como "troca de comando".
"Honni soit qui mal y pense"
("maldito seja quem disso pense mal") é a divisa da famosa Ordem da
Jarreteira na aristocracia britânica, honraria que foi recentemente retirada do
ex-príncipe Andrews. Vale reiterá-la aqui, mas, como haverá dois ministros terrivelmente
bolsonaristas na condução do pleito, circulam nas redes pensamentos enviesados.
Em princípio, injustificados, pois ao TSE, órgão máximo da justiça eleitoral,
cabem basicamente atribuições de coordenar eleições em conjunto com tribunais
regionais. Aliás, algo que falta ao confuso sistema eleitoral dos EUA.
A que visaria então o inusitado encontro do supremacista branco com o apenas preclaro ministro do STF? Pode-se descartar qualquer diálogo racional ao modo de Habermas, porque o tempo trumpista não é de razão, mas de canhões e tentativas de "trocas de comando" em terras alheias. É viável a hipótese de que a liderança do neofascismo mundial pretenda estender a sua já concreta ingerência no sul do Caribe para mais perto de nós, influenciando, para início de conversa, as eleições brasileiras. Tudo isso pode ser mera conjetura, claro. Mas é de bom alvitre evitar conversas não-habermasianas com os beleguins do império.

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