quarta-feira, 6 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Inflação da guerra e da comida precisa ser enfrentada

Por Folha de S. Paulo

Altas dos preços de combustíveis e alimentos geram efeitos sobre custos de outros setores da economia

Margem estreita para redução da Selic cria panorama inóspito, mas chancelar um patamar inflacionário elevado prejudicaria os mais pobres

As expectativas para a inflação deste ano sobem há oito semanas, em razão do impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e de seus derivados. De março para cá, segundo pesquisas do Banco Central, a projeção mediana se elevou de 3,91% para 4,89%, já acima do teto oficial —meta de 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.

Mudança na expectativa de poder alerta aliados de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Próxima indicação para o STF terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula

Um “choque de realidade” com consequências ainda imprevisíveis. Assim é classificado, nos bastidores do governo, o episódio que culminou na rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).

As pontes do Palácio do Planalto com o STF e a cúpula do Senado não serão mais as mesmas. As bases dessas relações foram rachadas.

Também ficou a percepção, para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o palanque do petista em Minas Gerais pode estar sendo erguido sobre areia movediça e algo precisa ser feito. O Estado é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, território fundamental para quem quer vencer uma eleição presidencial. Mas, sobretudo, o que mais pesa nas avaliações de alguns interlocutores de Lula é o fato de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que arrancou nas pesquisas de intenção de voto e transformou-se num incômodo adversário antes do que se esperava, sair com um importante troféu desta etapa preliminar da campanha.

Trump, tarifaço e a nova lei das terras raras, por Lu Aiko Otta


Valor Econômico

Encontro com presidente americano será uma oportunidade para Lula fazer funcionar sua química

Aguardada pelo lado brasileiro para esta quinta-feira, depois de haver ficado em suspenso durante semanas por causa da guerra no Irã, a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, ocorre sob sombra de um possível novo tarifaço, por causa de supostas práticas desleais do Brasil, em temas que vão de Pix a desmatamento. O Brasil é investigado com base na Seção 301 da Lei do Comércio, o que pode resultar em tarifas adicionais.

Por outro lado, Lula tem em mãos o trunfo das terras raras, que são no momento o maior ponto de interesse dos Estados Unidos no Brasil.

Escravidão, trabalho e atraso, por Tiago Cavalcanti*

Valor Econômico

A inovação tecnológica não é neutra e pode ser direcionada para contornar restrições de fatores produtivos

História econômica é um campo de pesquisa fascinante. Um aspecto importante da minha formação como economista sempre foi o seu estudo, seja nas disciplinas da graduação e do doutorado, seja nas minhas horas de lazer. Há uma discussão sobre a redução do número de cadeiras obrigatórias no curso de economia da Universidade de Cambridge. Sou totalmente contra.

Na graduação na UFPE, tive ótimos cursos sobre a formação econômica do Brasil e do Nordeste com o professor Policarmo Lima. O livro que estudei sobre o Nordeste foi escrito pelo meu sogro, o professor Leonardo Guimarães Neto. A obra tem uma bela capa, com a foto de uma fazenda com escravos, provavelmente na zona da mata pernambucana. Em um contexto de forte interesse pelas raízes do atraso econômico regional, influenciado por trabalhos de Celso Furtado, como o documento GTDN de políticas públicas para o desenvolvimento regional, Leonardo Guimarães Neto analisa a trajetória do Nordeste, enfatizando suas relações comerciais com o mundo e com o restante do país.

O soft power de Flávio Bolsonaro em busca dos votos voláteis do centro, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Lula mantém sua base social tradicional nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão e dialogar com o eleitor moderado

Por definição, a expressão soft power, ou seja, “poder brando”, é usada nos meios diplomáticos para explicar a capacidade de um país influenciar o comportamento e as preferências de outras nações por meio da atração e persuasão, em vez de coerção militar ou econômica (hard power). Ou seja, tudo ao contrário do que faz o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O termo foi criado por Joseph Nye, que foi professor e reitor de Harvard, o pioneiro ao defender a projeção de poder de forma intangível, por meio da música, do cinema, da gastronomia, da literatura, da cooperação e do humanismo, entre outras formas. É uma estratégia para ganhar “corações e mentes” em vez de território. O bolsonarismo não tem nada a ver com o soft power, certo? Errado. Um vídeo de Flávio Bolsonaro que viraliza nas redes mostra o principal candidato de oposição em contraponto, digamos, imagético, ao próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Lula e o fantasma das Laranjeiras, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

O último dos espíritos que rondam Brasília aparece a Lula nas noites insones do Alvorada

Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou em sua primeira página: “Às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira do Ascurra nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto de mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos negros”. Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a assombração.

A história do fantasma que apavorou a capital federal meses antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais está no livro 1897, A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp. Ela marcou o último ano do primeiro governo civil da República. Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de pessoas se aglomeraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São Paulo. Chegaram pouco a pouco em suas motocicletas e com seus baús e mochilas.

Destruição de demanda, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com a guerra no Irã em seu terceiro mês, os analistas redobraram as previsões mais sombrias acerca da economia mundial e do impacto da disparada do preço do petróleo, da gasolina, do combustível de aviação e de outros derivados. Se até o fim deste mês o Estreito de Ormuz permanecer praticamente fechado, afetando um quinto da produção global de petróleo, um novo conceito econômico poderá entrar para o vocabulário dos leigos: destruição de demanda.

Isso acontece quando o poder de compra de consumidores sofre um tombo por conta da disparada nos preços de um produto ou serviço, ou ainda quando um choque de oferta limita a capacidade dos consumidores de comprar bens e serviços. Muitos analistas passaram a estimar picos de US$ 150 a US$ 200 para o barril do petróleo Brent, caso o Estreito de Ormuz siga fechado nas próximas quatro a seis semanas.

Erosão institucional, por Zeina Latif

O Globo

Rejeição ao indicado ao STF vai além da polarização de extremos, algo mais grave corrói as instituições

A histórica rejeição do Senado ao indicado ao STF pelo presidente é mais um sinal de alerta para o mau funcionamento das nossas instituições.

São várias as versões, de motivação política, para esse episódio, enquanto não se discutiu a norma constitucional, que condiciona a investidura no cargo ao notável saber jurídico e à reputação ilibada — o que não surpreende considerando o padrão nas últimas décadas.

Lula e o 'sistema', por Vera Magalhães

O Globo

Ao buscar justificativa para derrotas e pesquisas adversas, presidente replica discurso perigoso que tem fragilizado instituições

A grande surpresa do longo e pouco empolgante pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão gasto quanto capcioso para tentar explicar as recentes derrotas no Congresso e a dificuldade de implementar sua agenda de governo: na falta de outra justificativa, o presidente resolveu culpar o “sistema”.

Não dá para colocar na conta de um desabafo circunstancial tamanha inflexão política e retórica. Afinal, se há um político que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é Luiz Inácio Lula da Silva. Ele refundou um sindicato, fundou uma central sindical, depois um partido, foi candidato em quase todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, foi deputado constituinte… Na última campanha, fez um apelo justamente ao “sistema”, encampando a defesa de instituições que haviam sido atacadas, perseguidas ou enfraquecidas por Jair Bolsonaro.

Azuis e vermelhos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Enquanto internet discute se juízes são azuis ou vermelhos, ministros recebem cachê para ensinar advogados a atuar em tribunal trabalhista

A fala viralizou no fim de semana. Num congresso jurídico em Brasília, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST) se referiu a uma suposta divisão da Corte entre ministros azuis e ministros vermelhos. “Eu diria que não tem azul nem vermelho. Tem quem tem interesse e quem tem causa. Nós, vermelhos, temos causa”, disse Luiz Philippe Vieira de Mello.

O tribunal das redes sociais decidiu rápido. O presidente do TST foi julgado e condenado como um juiz parcial. Por um vídeo de um minuto e meio, transformou-se no novo símbolo de uma Justiça capturada pela política.

Nem guerra nem paz é purgatório para ricos, mas inferno para pobres, por Rui Tavares*

Folha de S. Paulo

Guerra de EUA e Israel contra Irã deve agravar crises alimentares em países da África

Mesmo com fim da tensão no Oriente Médio, normalidade no fornecimento de combustíveis levaria meses

Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar para casa sem a paz prometida era inconcebível.

Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".

A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.

Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.

Dilema do STF, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Crise resulta do entrelaçamento de questões individuais e institucionais

Sair dela exige justamente a separação radical dessas duas dimensões

A crise do Supremo opera em dois níveis distintos. O primeiro envolve indivíduos: conflito de interesses, violações de decoro, suspeitas de corrupção. Há aqui um contínuo que vai de "pecadillos" antirrepublicanos a denúncias graves. O segundo nível é mais profundo: diz respeito à instituição enquanto tal. Aqui já não se trata apenas de condutas pessoais, mas de seu padrão de atuação e relação com os demais Poderes.

Em ano eleitoral, Congresso avança com pisos e aposentadorias a custo bilionário, por Fernanda Brigatti

Folha de S. Paulo

CNM projeta que apenas pisos salariais podem custar R$ 49 bilhões ao ano às prefeituras

Estratégia do governo Lula (PT) é empurrar votações para depois das eleições

Pisos salariais, jornadas reduzidas, aposentadorias antecipadas e regras de reajustes integram uma espécie de pacote de bondades do Congresso Nacional que pode deixar uma bomba fiscal bilionária para União, governo estaduais e prefeituras.

O tamanho da conta a ser paga é incerto, uma vez que a maioria dos projetos tramita sem cálculo e sem apontar a fonte de custeio. A CNM (Confederação Nacional dos Municípios) projeta que apenas a criação ou o reajuste de pisos salariais pode custar R$ 49 bilhões ao ano às prefeituras.

A ofensiva de categorias na Câmara e no Senado nas últimas semanas surtiu efeito, levando projetos de lei e propostas de emenda à Constituição serem pautados, encaminhados e aprovados em comissões.

Um desses casos é o de agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias. Representantes das categorias são vistos com frequência nos corredores da Câmara e Senado. A PEC 14 de 2021 foi aprovada na Câmara no ano passado, sob intensa pressão desses trabalhadores, em geral identificados por seus coletes amarelos.

Sem saída, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Donald Trump iniciou uma guerra contra o Irã que não sabe como encerrar

Impopularidade do conflito nos EUA pode ser decisiva nas eleições de novembro

Donald Trump começou uma guerra absolutamente desnecessária contra o Irã, só colheu reveses e agora não consegue sair da encrenca que armou para si mesmo. Embora proclame várias vezes por dia ter vencido brilhante vitória, os fatos são que o regime de Teerã continua de pé, o estreito de Hormuz continua fechado para a navegação e os iranianos continuam em posse de seu urânio enriquecido, sem dar sinais de que pretendam encerrar seu programa nuclear. Pelo contrário, a guerra deve ter reforçado a convicção dos generais persas de que só estarão seguros se desenvolverem armas atômicas.

Desacerto entre aliados é obstáculo para Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Senador faz bonito nas pesquisas, mas em casa e na campanha o ambiente é do mais completo desalinho

Arranca-rabos internos suscitam dúvida sobre quem de fato mandaria num novo governo bolsonarista

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ecoa o velho provérbio que usa a figura da "bela viola" para falar do contraste entre imagens externas e realidades internas.

Nas pesquisas de opinião, o senador faz bonito. Aparece vigoroso, com traços de vencedor. Em casa, o ambiente é de completo desalinho. Os irmãos brigam com os companheiros de campo ideológico —ainda distante da condição de aliados—, a mulher do pai preserva distanciamento para lá de crítico e parte dos correligionários ainda prefere a condição de espectadores não engajados.

Que emoção no coração! Por Pablo Spinelli*

Dedicado aos 50 anos de Liberalismo e Sindicato no Brasil, obra de fibra do flamenguista Luiz Werneck Vianna

Filme resenhado: Zico, o samurai de Quintino. 2025.  Direção: João Wainer. Roteiro: Thiago Iacocca

É com uma raridade cada vez mais constante que vemos raios luminosos em dias cinzentos, no cinema atual, com o mesmo brilho e leveza como foram os 103 minutos da exibição de Zico, o samurai de Quintino. 

Uma biografia jamais pode ser considerada uma fonte verdadeira. E muito do que é retratado do perfil do biografado tem maior consonância com o biógrafo ou com o momento conjuntural do que com o perfil a ser exposto. Em um país que se diz do futebol – tal como a Argentina, Itália, Inglaterra, dentre outros – é de difícil compreensão que tão poucos filmes se debrucem sobre o universo futebolístico. Após clássicos sobre Garrincha, Alegria do povo (1962) e sobre Pelé: o nascimento de uma lenda (2017), cremos que o filme completa uma venturosa trilogia daqueles jogadores que transcenderam o espírito clubista e o ranço dos adversários.  

O alienista: a força das eleições virá do centro, e não dos polos, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

O brasileiro acaba de ganhar uma nova opção para votar para Presidente da República nas eleições de outubro. É o que, aparentemente, se precisa diante dessa mobilização anárquica pelo País: um psiquiatra. Surgiu Augusto Cury, médico, pesquisador da mente humana, autor de quase 40 milhões de livros de auto ajuda vendidos, preocupado com os desorganização institucional do Brasil, a saúde mental do brasileiro, as expectativas de futuro da juventude, bem como as tendências comportamentais dos políticos atuais. O Brasil tem tradição de transgressão e violência.

Um livro que nos honra a todos, por Ivan Alves Filho*

Terminei de ler, por esses dias, um livro dos mais interessantes. Trata-se de Sorriso escondido, de autoria de Alfredo Maciel. De formação marxista, engenheiro, professor, seu autor rememora sua vida e sua militância, incluindo uma passagem pela antiga União Soviética. Nesta obra, a história pessoal se mescla à História recente do nosso país.

Escrita em linguagem acessível, como uma conversa, o livro cobre um período crucial da nossa trajetória social e política, com ênfase na resistência democrática ao regime instalado no país após 1964. 

Assim, Alfredo Maciel abre espaço para o movimento estudantil, a atuação dos intelectuais, marxistas e/ou católicos. Denuncia as indescritíveis torturas infligidas ao padre Henrique, assessor de Dom Hélder Câmara. No livro, o autor relata seu convívio com figuras importantes da vida cultural e política brasileira. Nomes como Luiz Werneck Vianna, Leandro Konder, Sérgio Augusto de Moraes, Carlos Alberto Torres, Antônio Ribeiro Granja e Edmílson Martins são lembrados por ele com emoção. 

Poesia | Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

Música | Nora Ney - Preconceito (Fernando Lobo e Antonio Maria)