domingo, 22 de março de 2026

Vorcaro quer pautar a delação, por Elio Gaspari

O Globo

Banqueiro tenta se colocar no papel principal das tratativas com a PF; sugestão de que não pretende envolver o STF ignora o princípio de que delações não são para fazer amizades

Daniel Vorcaro é uma pessoa audaciosa e o que ele fez com o banco Master comprova essa característica. Da cadeia, ele sinalizou que partirá para a delação. Até aí, tudo bem, mas em apenas uma semana ele soltou sinais de fumaça, indicando que pretende ser o maestro do espetáculo.

Quando estava solto e tentava ser recebido pelo ministro Fernando Haddad, ele avisava: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”.

Enquanto a Polícia Federal digere o conteúdo de seus oito celulares, os primeiros sinais revelaram-no simultaneamente ameaçador e conciliador. Ameaçou revelar suas conexões com o PT e levantou uma bandeira branca para as ligações com magistrados, revelando que não pretende envolver o Supremo Tribunal Federal na sua delação.

Vorcaro achou que controlaria o Banco Central dando capilés a pelo menos dois funcionários. Depois acreditou que paralisaria o BC indo a Lula com o consigliere Guido Mantega. Quando deu tudo errado e o Master entrou em regime de liquidação, valeu-se de uma patrulha de blogueiros para intimidar o BC. Deu errado de novo e ele acabou preso pela segunda vez. Só então partiu para a delação, mas acredita que pode pautá-la.

Vorcaro dizendo que não quer envolver magistrados com sua colaboração é uma piada. Uma delação controlada pelo delator é uma inversão dos papéis. Quem controla esse processo são funcionários da Viúva. Eles podem influir na fixação do tamanho da multa que será imposta a Vorcaro, bem como a extensão da pena que cumprirá.

Vorcaro tem um fraco por espetáculos, quer pelas suas festas, quer pelos seus patrocínios de farofas enfeitadas por parlamentares e magistrados. O melhor que pode lhe acontecer é transformar sua colaboração num espetáculo, colocando-se no papel principal.

Em 2013, quando a Receita dos Estados Unidos detonou a rede de roubalheiras no futebol, o empresário brasileiro José Hawilla foi preso e passou a colaborar com a polícia federal americana. Ele gravava conversas e era acompanhado por Jared Randall, um agente do FBI. A certa altura depois de ter sido fixada uma multa de US$ 20 milhões, garantida por um depósito de US$ 5 milhões, Randall sentiu-se na obrigação de lembrar ao colaborador:

“Eu não sou teu amigo”.

O instituto da delação premiada não existe para fazer amizades e a colaboração de Vorcaro não pode avacalhar o processo.

Agora vai-se ver o que acontece com Vorcaro falando.

O estilo de Mauro Vieira

Com a proximidade da campanha eleitoral, as relações do Brasil com os Estados Unidos voltaram a azedar. O Itamaraty cancelou o visto de Darren Beattie, conselheiro do governo Trump para assuntos relacionados com Pindorama. Ele pretendia visitar Jair Bolsonaro na Papudinha. Novas lombadas virão.

Muita gente mete a colher nessa encrenca. Para evitar que o Brasil caia em crises pueris, valeria prestar atenção no estilo do chanceler Mauro Vieira. Afinal, foi ele quem aplainou as arestas criadas por Trump.

Vieira fala pouco, só quando quer, sem dar detalhes de suas negociações. Cala-se quando consegue prevalecer e nunca reclama.

O cérebro de Trump

Um neurologista que acompanha as idas e vindas de Donald e o viu fazendo piada com o ataque a Pearl Harbor com a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi arrisca um palpite, quase uma certeza:

“Ele tem um quadro relacionado com alguma lesão do lobo frontal do cérebro. A pessoa perde a inibição e toma decisões erráticas. Em português claro, diz o que lhe vem à cabeça”.

Trump estava com a primeira-ministra quando um repórter perguntou-lhe porque atacou o Irã sem consultar seus aliados, como o Japão. Ele estava ao lado de Sanae Takaichi e respondeu:

“Nós queríamos surpresa. Quem entende melhor de surpresa que o Japão? Por que você não me avisou de Pearl Harbour?”

O Japão atacou a base naval dos Estados Unidos no Havaí em dezembro de 1941, enquanto conduzia negociações diplomáticas em Washington.

Quatro anos depois os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas no Japão, acabando com a guerra.

Maxwell na rede

Está na rede a edição eletrônica do livro “Globalização do Século XVIII: A Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário”, do professor Kenneth Maxwell, autor do celebrado “A Devassa da Devassa”.

Com novos documentos, ele revisita a tentativa de envolvimento dos Estados Unidos com a conspiração dos mineiros. Em 1786, o estudante Joaquim Maia e Barbalho tratou do assunto com Thomas Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos na França. Jefferson não queria encrenca com Portugal.

O pano de fundo dessa história foi um pequeno livro, com uma coletânea de documentos da revolução americana. Dois exemplares do livrinho estavam no Brasil e um passou pelas mãos de Tiradentes.

Os “americanos ingleses” como eram chamados os subversivos da época foram citados 90 vezes nas devassas da Inconfidência Mineira e os livros revolucionários tiveram 15 menções. Gente perigosa, aqueles americanos.

Nesse livro, Maxwell faz uma audaciosa afirmação: “José Bonifácio era tudo o que Thomas Jefferson gostaria de ter sido”.

A perigosa coletânea de textos ficou nos arquivos até 1860, quando o historiador Alexandre de Mello Moraes doou-a à biblioteca pública de Florianópolis.

Escorpiões na garrafa

O juiz Oliver Wendell Holmes dizia que a Corte Suprema dos Estados Unidos assemelhava-se a nove escorpiões dentro de uma garrafa. O Supremo Tribunal Federal brasileiro tem 11 ministros e passa pelo pior momento de sua existência.

Já houve casos de choque entre o tribunal e o Executivo. Às vezes os choques deram-se com o Congresso, mas foram leves. Desta vez, o curso de colisão é com a opinião pública. Uma pesquisa da Quaest revelou que, pela primeira vez a porcentagem de pessoas que não confiam no Supremo Tribunal (49%) superou a dos que confiam (43%).

Essa novidade ocorre num cenário que não envolve divergências políticas. O que desgasta o Supremo Tribunal são condutas pessoais, autoritarismos, blindagens e até mesmo farofas.

O ministro Edson Fachin pôs na mesa a discussão da necessidade de um código de conduta e foi repelido por alguns de seus pares como se propusesse um veneno.

A banda do Supremo que bloqueia o código ainda não se deu conta de que está fortalecendo a ideia que que o atual Pretório Excelso pegou fama como o pior tribunal de todos os tempos.

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