O Globo
Banqueiro tenta se colocar no papel principal
das tratativas com a PF; sugestão de que não pretende envolver o STF ignora o
princípio de que delações não são para fazer amizades
Daniel Vorcaro é uma pessoa audaciosa e o que
ele fez com o banco Master comprova essa característica. Da cadeia, ele
sinalizou que partirá para a delação. Até aí, tudo bem, mas em apenas uma
semana ele soltou sinais de fumaça, indicando que pretende ser o maestro do
espetáculo.
Quando estava solto e tentava ser recebido
pelo ministro Fernando Haddad, ele avisava: “Eu preciso falar para ele o que
pode acontecer se algo acontecer comigo”.
Enquanto a Polícia Federal digere o conteúdo de seus oito celulares, os primeiros sinais revelaram-no simultaneamente ameaçador e conciliador. Ameaçou revelar suas conexões com o PT e levantou uma bandeira branca para as ligações com magistrados, revelando que não pretende envolver o Supremo Tribunal Federal na sua delação.
Vorcaro achou que controlaria o Banco Central
dando capilés a pelo menos dois funcionários. Depois acreditou que paralisaria
o BC indo a Lula com o consigliere Guido Mantega. Quando deu tudo errado e o
Master entrou em regime de liquidação, valeu-se de uma patrulha de blogueiros
para intimidar o BC. Deu errado de novo e ele acabou preso pela segunda vez. Só
então partiu para a delação, mas acredita que pode pautá-la.
Vorcaro dizendo que não quer envolver
magistrados com sua colaboração é uma piada. Uma delação controlada pelo
delator é uma inversão dos papéis. Quem controla esse processo são funcionários
da Viúva. Eles podem influir na fixação do tamanho da multa que será imposta a
Vorcaro, bem como a extensão da pena que cumprirá.
Vorcaro tem um fraco por espetáculos, quer
pelas suas festas, quer pelos seus patrocínios de farofas enfeitadas por
parlamentares e magistrados. O melhor que pode lhe acontecer é transformar sua
colaboração num espetáculo, colocando-se no papel principal.
Em 2013, quando a Receita dos Estados Unidos
detonou a rede de roubalheiras no futebol, o empresário brasileiro José Hawilla
foi preso e passou a colaborar com a polícia federal americana. Ele gravava
conversas e era acompanhado por Jared Randall, um agente do FBI. A certa altura
depois de ter sido fixada uma multa de US$ 20 milhões, garantida por um
depósito de US$ 5 milhões, Randall sentiu-se na obrigação de lembrar ao
colaborador:
“Eu não sou teu amigo”.
O instituto da delação premiada não existe
para fazer amizades e a colaboração de Vorcaro não pode avacalhar o processo.
Agora vai-se ver o que acontece com Vorcaro
falando.
O estilo de Mauro Vieira
Com a proximidade da campanha eleitoral, as
relações do Brasil com os Estados Unidos voltaram a azedar. O Itamaraty
cancelou o visto de Darren Beattie, conselheiro do governo Trump para assuntos
relacionados com Pindorama. Ele pretendia visitar Jair Bolsonaro na Papudinha.
Novas lombadas virão.
Muita gente mete a colher nessa encrenca.
Para evitar que o Brasil caia em crises pueris, valeria prestar atenção no
estilo do chanceler Mauro Vieira. Afinal, foi ele quem aplainou as arestas
criadas por Trump.
Vieira fala pouco, só quando quer, sem dar
detalhes de suas negociações. Cala-se quando consegue prevalecer e nunca
reclama.
O cérebro de Trump
Um neurologista que acompanha as idas e
vindas de Donald e o viu fazendo piada com o ataque a Pearl Harbor com a primeira-ministra
japonesa Sanae Takaichi arrisca um palpite, quase uma certeza:
“Ele tem um quadro relacionado com alguma
lesão do lobo frontal do cérebro. A pessoa perde a inibição e toma decisões
erráticas. Em português claro, diz o que lhe vem à cabeça”.
Trump estava com a primeira-ministra quando
um repórter perguntou-lhe porque atacou o Irã sem consultar seus aliados, como
o Japão. Ele estava ao lado de Sanae Takaichi e respondeu:
“Nós queríamos surpresa. Quem entende melhor
de surpresa que o Japão? Por que você não me avisou de Pearl Harbour?”
O Japão atacou a base naval dos Estados
Unidos no Havaí em dezembro de 1941, enquanto conduzia negociações diplomáticas
em Washington.
Quatro anos depois os Estados Unidos jogaram
duas bombas atômicas no Japão, acabando com a guerra.
Maxwell na rede
Está na rede a edição eletrônica do livro
“Globalização do Século XVIII: A Conspiração de Minas e o Atlântico
Revolucionário”, do professor Kenneth Maxwell, autor do celebrado “A Devassa da
Devassa”.
Com novos documentos, ele revisita a
tentativa de envolvimento dos Estados Unidos com a conspiração dos mineiros. Em
1786, o estudante Joaquim Maia e Barbalho tratou do assunto com Thomas
Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos na França. Jefferson não queria
encrenca com Portugal.
O pano de fundo dessa história foi um pequeno
livro, com uma coletânea de documentos da revolução americana. Dois exemplares
do livrinho estavam no Brasil e um passou pelas mãos de Tiradentes.
Os “americanos ingleses” como eram chamados
os subversivos da época foram citados 90 vezes nas devassas da Inconfidência
Mineira e os livros revolucionários tiveram 15 menções. Gente perigosa, aqueles
americanos.
Nesse livro, Maxwell faz uma audaciosa
afirmação: “José Bonifácio era tudo o que Thomas Jefferson gostaria de ter
sido”.
A perigosa coletânea de textos ficou nos
arquivos até 1860, quando o historiador Alexandre de Mello Moraes doou-a à
biblioteca pública de Florianópolis.
Escorpiões na garrafa
O juiz Oliver Wendell Holmes dizia que a
Corte Suprema dos Estados Unidos assemelhava-se a nove escorpiões dentro de uma
garrafa. O Supremo Tribunal Federal brasileiro tem 11 ministros e passa pelo
pior momento de sua existência.
Já houve casos de choque entre o tribunal e o
Executivo. Às vezes os choques deram-se com o Congresso, mas foram leves. Desta
vez, o curso de colisão é com a opinião pública. Uma pesquisa da Quaest revelou
que, pela primeira vez a porcentagem de pessoas que não confiam no Supremo
Tribunal (49%) superou a dos que confiam (43%).
Essa novidade ocorre num cenário que não
envolve divergências políticas. O que desgasta o Supremo Tribunal são condutas
pessoais, autoritarismos, blindagens e até mesmo farofas.
O ministro Edson Fachin pôs na mesa a
discussão da necessidade de um código de conduta e foi repelido por alguns de
seus pares como se propusesse um veneno.
A banda do Supremo que bloqueia o código ainda não se deu conta de que está fortalecendo a ideia que que o atual Pretório Excelso pegou fama como o pior tribunal de todos os tempos.

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