Fiquei maravilhado com a iniciativa, que tem atraído jovens e diversas ONGS. A minha modesta intervenção no debate teve que ver com alguns aspectos da nossa trajetória histórica. A partir da minha experiência como historiador - e ela já cobre um período de meio século -, procurei relatar como as viagens impactaram a visão que tenho do meu próprio país. De certa forma, as andanças me transformaram em uma espécie de historiador de campo, combinando as leituras e as pesquisas com o que pude aprender pelas viagens Brasil afora, em contato com a sua população e a sua paisagem.
Procurei exemplificar. Em 1982, por exemplo, em Itupiranga, na divisa do Pará com o Maranhão, tive contato com remanescentes dos índios Gaviões do Oeste, os Akrãtikatêjê, e com eles aprendi algo de que nunca mais me esqueço. Eu conto. Conversando com uma índia, ela me relatou o quanto os membros da sua tribo sofreram - e morreram - ao contraírem gripe. Na conversa, mencionei os vírus que os "civilizados" passavam para os índios. Ela imediatamente me contradisse, dizendo que as gripes se deviam ao uso de roupas. "Como assim?", perguntei. E ela me relatou que os missionários obrigavam os índios a usar roupas, para que não andassem nus, e que eles, ao se banharem, eram obrigados a ficar com as suas vestes molhadas grudadas ao corpo, secando ao sol. A pneumonia era quase uma consequência direta. De outra feita, eu estava começando um livro sobre a Conjuração Mineira e a participação nela de Tiradentes - intitulado posteriormente O caminho do alferes Tiradentes -, o que me conduziu ao vilarejo de Inconfidência, na divisa de Paraíba do Sul com Minas Gerais.
Pois bem, aquela área antes se chamava Sebollas, e um dos quartos de Tiradentes foi jogado contra a janela da casa de Dona Ana, fazendeira na região. Em 1972, durante o Sesquicentenário da nossa Independência, o jovem prefeito de Paraíba do Sul à época decidiu levar uma equipe de arqueólogos para fazer uma escavação no pequeno cemitério local, à procura de um dos quartos de Tiradentes, justamente. Nada encontrando, ele já se preparava para, literalmente, levantar acampamento, quando Dona Didi, uma moradora local, disse a ele para que procurasse os restos mortais de Tiradentes junto às ruínas de uma capela existente ainda na antiga fazenda de Dona Ana, a cerca de 800 metros de sua residência. Seus ascendentes sempre disseram que Dona Ana havia enterrado a perna ao lado dessa capela.
O prefeito resolveu apostar nessa informação e pediu para que a equipe escavasse ali. E foi encontrado um túmulo, com um esqueleto feminino, e um osso solitário, ao lado dele. Dona Didi pulou imediatamente dentro do túmulo e, segurando aquele resto de Tiradentes, exclamou: "em 200 anos, sou a primeira a tocar no herói!". História oral é isso. Haja emoção! Hoje, o osso em questão se encontra no singelo Museu Tiradentes, de Inconfidência.
Ou seja, o povo sabe preservar a sua História. E é preciso ouvi-lo, sempre. As andanças ensinam e muito. Aos historiadores e a qualquer outro cidadão. Uma proposta como essa da Rede de Trilhas nos permite entrar em contato com a História do Brasil em estado quase bruto.
*Ivan Alves Filho, historiador

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