Folha de S. Paulo
Veto a enviado remete ao melhor momento do
petista neste mandato, mas arrisca jogar créditos de 2025 fora
Temor de ingerência política no pleito é
válido, mas medida ocorre em meio ao debate sobre segurança regional
O
imbróglio em torno da visita do enviado de Donald Trump ao
Brasil está inserido no contexto da corrida eleitoral deste ano. O
presidente Lula (PT)
parece disposto a ressuscitar a briga com o americano, mas tal aposta encerra
riscos.
Recapitulando, após deixar o Brasil fora de seu radar no começo do segundo mandato na Casa Branca, Trump irrompeu no cenário local às vésperas do julgamento que levou seu aliado Jair Bolsonaro (PL) à cadeia por golpismo.
Justificou
de saída a elevação de tarifas de importação de produtos brasileiros
criticando a então ameaça de ver o seu maior fã local atrás das grades,
misturando decisões do Judiciário e do Executivo. Colocou o ministro Alexandre
de Moraes à sombra da draconiana Lei Magnitsky.
Noves fora a ignorância de Trump acerca das
instituições brasileiras, a percepção não veio do nada: desde os ataques do 8
de janeiro de 2023 e com um Congresso largamente hostil a seu governo,
Lula alinhou-se
ao Supremo Tribunal Federal no campo político e simbólico.
Isso lhe rendeu frutos, em especial quando
viu seu principal rival ser condenado a mais de 27 anos de prisão por tentar
subverter a eleição que o petista havia ganhado em 2022.
Mas sobrevieram ônus: não há nada de casual
no fato de Lula e do Supremo amargarem avaliações negativas em níveis recordes
ao mesmo tempo, como indicou pesquisa do Datafolha.
Na guerra tarifária de 2025, o bolsonarismo
foi com sede ao pote, apoiando a punição de Trump ao Brasil. Lula percebeu a
oportunidade e abriu uma campanha de defesa da soberania nacional enquanto
costurava uma aproximação com o americano.
O petista se deu bem, com o melhor momento de
avaliação de seu terceiro mandato e abrindo um canal com Trump, selado num
encontro pessoal na Malásia. Até
a punição a Moraes foi removida.
A questão das tarifas foi amainada e os
bolsonaristas ficaram só com o prejuízo: foram marcados como traidores da
pátria e não podiam mais usar Trump como seu ativo exclusivo, ao menos para a
faixa minoritária do eleitorado que gosta do americano. Esse crédito pode ser
jogado fora agora.
Ao vetar o visto a Darren Beattie logo após
Moraes proibir que
o conselheiro visitasse Bolsonaro na Papudinha, por recomendação de um
Itamaraty que corretamente identificou ingerência política, Lula reforça a
simbiose com o ministro que comandou o processo de condenação do ex-presidente.
A justificativa formal, de que não poderia
autorizar a concessão enquanto o visto
de Alexandre Padilha (Saúde) segue cassado devido à briga do ano
passado, é aceitável, mas o que o presidente quer é reavivar o espírito de
confronto contra o Grande Irmão do Norte.
Em seu cálculo está o fato de que Trump está
no momento preocupado com coisa maior, a guerra no Irã,
o que lhe permitiria surfar na imagem de defensor da soberania. Resta saber se
essa carta ainda ganha rodada na mesa do jogo de 2026, na hipótese de apoio aberto
dos EUA a Flávio
Bolsonaro (PL).
A medida também ignora que a Casa Branca não
está tão alheia ao país numa área em que o bolsonarismo pode se aproveitar
eleitoralmente, a segurança pública.
A Estratégia de Segurança Nacional de Trump,
lançada em dezembro, prevê a retomada da hegemonia de Washington na América
Latina. A captura de Nicolás Maduro em janeiro foi mostra de que
soberania é
algo relativo para o republicano.
No fim de semana passado, Trump recebeu
líderes da região para convocá-los a lutar juntos contra o
narcotráfico. "Os EUA estão prontos para lidar com essas ameaças e ir à
ofensiva sozinhos se for necessário", lembrou sem sutileza o belicoso
secretário Pete Hegseth (Defesa).
O Brasil estava ausente e voltou à baila a
possibilidade de o Departamento de Estado classificar o PCC e o Comando
Vermelho como grupos terroristas —algo que, no limite, enseja interferência
direta.
Isso pode ser um bode colocado na sala enquanto
negociações sobre o tema do tráfico se desenrolam, mas o fato é que
este é um campo em que o governo federal patina sempre, para a alegria dos
rivais com discurso mais radical pronto.

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