CartaCapital
A força eleitoral do presidente convive com
um desejo relevante de mudança
A pesquisa Meio/Ideia de março traz um retrato incômodo para quem torce por respostas simples. Lula lidera, segue competitivo e continua como o nome mais forte do campo governista. Mas isso não significa que tenha convencido o País de que sua permanência é a escolha natural. Ao contrário. A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança. E exatamente dessa tensão nasce o paradoxo do momento.
O dado mais importante da pesquisa não é
apenas a intenção de voto. É o fato de que 50,6% dizem que Lula não merece
continuar, contra 46,7% que defendem sua permanência. Em paralelo, a maneira
como ele exerce a Presidência é desaprovada por 50,5% e aprovada por 47,2%.
Isso não desenha um governo derrotado. Mas desenha, sim, um governo em disputa,
que não conseguiu transformar a condição de incumbente em sensação majoritária
de recondução.
Ainda assim, Lula continua à frente. Na
espontânea, aparece com 33,4%, enquanto Flávio Bolsonaro marca 18,5%. Num
eventual segundo turno entre os dois, Lula tem 47,4% contra 45,3% do
adversário. O retrato é claro: o presidente segue na dianteira, mas sem margem
para soberba. Está na frente, mas não está folgado. É favorito, mas não está
protegido.
O que explica isso? A primeira resposta é que
o eleitorado não julga governo pela planilha de Brasília. Julga pela vida real.
O Locomotiva tem mostrado isso há bastante tempo. Quando a conversa sai da
abstração e entra no cotidiano, o julgamento político passa pela feira, pelo
medo de sair à noite, pela fila do atendimento e pelo aperto para fechar o mês.
O eleitor não mora no dado macroeconômico. Mora no boleto.
É aí que os sinais de alerta aparecem com
força. A pesquisa mostra que a segurança pública é hoje a área mais mal
avaliada do governo, com 54,3% de ruim ou péssimo. Saúde também aparece como
ponto de pressão, com 41,5% de avaliação negativa nessa dimensão. Esses números
permitem entender por que a melhora de ambiente econômico, sozinha, não
reorganiza o humor do eleitor. Quando a sensação de desordem continua alta, a
reeleição deixa de ser um prêmio natural e vira uma prova oral diante do País.
Existe, porém, um lado positivo para Lula que
não pode ser subestimado. Mesmo sob desgaste, ele preserva densidade eleitoral.
Continua a ser o nome mais presente na memória do eleitor e o polo mais robusto
do seu campo. Além disso, a oposição ainda não encontrou um caminho de
unificação fora do sobrenome Bolsonaro. Isso é decisivo. Porque o presidente
não enfrenta uma alternativa ampla, nova e consensual. Enfrenta um adversário
competitivo, mas carregado de rejeição e de memórias intensas.
A pesquisa mostra ainda que a disputa deixou
de ser apenas partidária. Ela ganhou um componente institucional muito forte.
Entre quem conhece o caso Master, 70% dizem que o STF perdeu credibilidade. E
44% afirmam que teriam mais chance de votar para o Senado em alguém que
defendesse o impeachment de ministro do Supremo. Some-se a isso o fato de que
54% dizem não acreditar que Jair Bolsonaro tenha planejado um golpe. O
resultado é um ambiente no qual o discurso antissistema ganha oxigênio, e isso
tende a favorecer a oposição.
Esse talvez seja o ponto mais sensível para
Lula. Se a eleição fosse apenas comparação entre biografias, experiência e
memória social, ele entraria com mais conforto. Mas a pesquisa sugere outra
coisa: há um pedaço importante do eleitorado querendo menos debate ideológico e
mais demonstração de comando, ordem e capacidade de fazer a vida voltar a caber
dentro do dia. Quando a campanha passa a ser lida por essa régua, a vantagem de
quem governa diminui, pois o governo responde pelo que prometeu e pelo que
ainda não entregou na percepção dos eleitores.
Minha conclusão é que Lula chega forte, mas
vigiado. Tem ativo eleitoral, tem recall, tem base social e segue plenamente no
jogo. Mas carrega um problema que não pode ser maquiado: sua liderança ainda
não virou tranquilidade. A reeleição é possível, e até plausível. Só não será
um passeio.
O erro do campo governista seria achar que
estar na frente basta. Não basta. E o erro da oposição seria imaginar que o
desgaste de Lula, por si só, entrega a eleição. Também não entrega. O que a
pesquisa mostra é um país que ainda reconhece em Lula estatura competitiva, mas
que continua cobrando uma resposta mais convincente para a vida concreta. Em
2026, não vence apenas quem tiver mais estrutura partidária ou mais barulho de
militância. Vence quem parecer mais capaz de organizar o cotidiano de um Brasil
cansado de promessas e com pressa de alívio. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital,
em 18 de março de 2026.

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