quarta-feira, 29 de abril de 2026

Traições preocupam tanto o governo quanto a oposição, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Votação secreta e comportamento de Alcolumbre alimentam insegurança do placar

A ordem do dia no Senado, às vésperas da sabatina do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, começou com queixas, da tribuna às conversas ao pé do ouvido, de arbitrariedades no Supremo Tribunal Federal. Minutos antes da abertura da sessão da tarde desta terça, o plenário do Senado registrava 56 senadores. Ainda que houvesse outros oito na Casa, que ainda não haviam registrado presença, outros dez ainda precisavam desembarcar em Brasília até esta quarta para que a sessão que vai deliberar a indicação de Messias para o STF fosse aberta com o quórum de 78 votos que garantiriam uma margem de segurança para a votação.

A operação cata-senador colocou no plenário da Casa ainda na terça, por exemplo, Flávio Arns (PSB-PR), cuja ausência de Brasília, por motivo de saúde, era dada como certa pelos oposicionistas. A participação remota dos senadores na inquirição dos indicados tem sido franqueada pela mesa diretora na CCJ, mas a votação, tanto na comissão quanto no plenário, exige presença.

A insegurança governista refletia-se nos placares que, no início da tarde desta terça, circulavam no Senado e no Supremo e variavam entre 36 e 39 votos assegurados. Aquém, portanto, dos 41 exigidos para a aprovação. No fim do dia, as contas mais seguras indicavam 32 votos contrários, o que daria um teto de 49 votos favoráveis. Este cenário é tanto mais favorável quanto se não houver derrapada na sabatina da CCJ, onde Messias precisa de 14 dos 27 votos, a serem mais facilmente obtidos do que os do plenário.

Governistas dividiam-se entre aqueles que confiavam no aval da Casa e outros que denunciavam o uso de cálculos pessimistas na pressão por recuo no PL da dosimetria. E ainda havia aqueles que achavam por bem buscar um discurso para explorar politicamente um eventual revés: “PL e Senado votam contra a escolha de mais um evangélico para o Supremo”.

O principal alvo da pressão governista era o presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre (União-AP), cuja ausência da mesa diretora, na tarde desta terça, foi atribuída à sucessão de reuniões em torno da votação. Sobre o comando do presidente da mesa, nas estratégias para garantir o quórum, na votação prévia de outras indicações, como aquelas ao Conselho Nacional de Justiça ou ao Conselho Nacional do Ministério Público, para testar a temperatura da Casa, recaem muitas das expectativas de uma votação apertada.

Votação secreta e comportamento de Alcolumbre alimentam insegurança

Os governistas apelaram às principais lideranças do PSB, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o pré-candidato ao governo de Pernambuco, João Campos, que posaram com o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) no anúncio do apoio deste a Messias. Pacheco, que foi preterido por Lula para a vaga, almoçou com o ministro da AGU nesta terça.

A tentativa de fechar a bancada evangélica no Senado por Messias, assim como aconteceu na aprovação do ministro André Mendonça, em 2021, enfrenta a resistência de senadores como Carlos Viana (PSD-MG). Na aprovação de Mendonça, Viana foi um dos mais vocais defensores de sua escolha pela filiação evangélica. O empenho pessoal do ministro por Messias, porém, deverá garantir o voto de senadores como Damares Alves (Republicanos-DF).

A pressão por Messias não se restringiu a dobrar Alcolumbre e evangélicos. A Secretaria de Relações Institucionais, que gerencia a liberação de emendas, entrou em campo ainda no fim de semana. Na bancada do PL, por exemplo, dá-se como certo que o senador Eduardo Gomes (PL-TO) vote com Messias. A mobilização do governo sinal precipitou a reunião promovida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no início da tarde da terça. O receio é de que os parlamentares do partido vão à tribuna para “lacrar” com discursos de revolta contra o STF e o governo mas, no anonimato do painel eletrônico, garantam sua aprovação. Ou vice-versa. Só a votação dirá.

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