sexta-feira, 20 de março de 2026

Um nome feio e exato para a crise: ‘aporia’, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Palavrinha em desuso mas que se encaixa como luva na crise atual, em que os escândalos Master e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) arrastaram quase tudo e quase todos

Na literatura, é conhecida a obsessão do escritor francês Gustave Flaubert pelo “mot juste”, ou seja, a “palavra exata”. O autor de Madame Bovary era famoso pela caderneta que levava no bolso para anotar a cirúrgica palavra que surgiria a qualquer momento. No Brasil, igual obsessão era atribuída a Guimarães Rosa, que também mantinha à mão papel e caneta para anotações repentinas. Mas para o autor de Sagarana, foi Carlos Drummond de Andrade quem associou com maestria a palavra à trama.

“Uma palavra é coisa sagrada, em todos os sentidos. Já leu aquele assombroso poema Áporo, em A rosa do povo?”, citou Rosa em entrevista de 1946. O termo estranho e feio remete a “aporia”, que significa “sem saída” ou “sem solução”. Palavrinha em desuso mas que se encaixa como luva na crise atual, em que os escândalos Master e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) arrastaram quase tudo e quase todos para o mesmo terreno pantanoso.

Nos últimos dias, PT e Centrão tentavam negociar uma saída consensual para a Comissão Parlamentar mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que salvasse a todos. A referência era a CPI que investigou o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que após uma articulação que somou esquerda e Centrão, terminou em 26 de setembro de 2023 sem a votação do relatório final do deputado Ricardo Salles (Novo-SP). Ele leu o documento no prazo, mas um pedido de vista impediu a votação no tempo hábil.

O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), rechaçou a hipótese da comissão acabar “em pizza”, ou seja, sem a votação do relatório final. À coluna, ele garantiu que o documento será lido e votado na quarta-feira (25). Em caso de pressão, pode até ser concedida vista de 24 horas para deliberação do relatório no dia 26. O prazo final dos trabalhos é 28 de março.

Apesar da cobrança de Gaspar e do presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tem respaldo político para rejeitar a prorrogação da comissão.

Com foco inicial nos descontos não autorizados feitos por associações nas aposentadorias e pensões, uma linha da investigação avançou sobre os empréstimos consignados, que alcançam irregularidades atribuídas ao Banco Master. A comissão aprovou as convocações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, de seu cunhado Fabiano Zettel e da ex-noiva Martha Graeff. Vorcaro obteve aval judicial para não comparecer, enquanto os demais não tiveram depoimentos marcados.

Enquanto mais políticos do Centrão têm os nomes atrelados às teias do Master, os governistas se desdobraram para blindar o empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teve o nome associado ao principal alvo da investigação sobre as fraudes contra os aposentados, o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.

Na segunda-feira (16), o advogado Marco Aurélio de Carvalho, do grupo Prerrogativas, que representa Lulinha, confirmou que ele viajou para Portugal em 2024 com o lobista. Segundo Carvalho, na ocasião, Antônio Camilo era um empresário de sucesso do ramo farmacêutico. “Ele foi conhecer a extração de canabidiol, demonstrou uma curiosidade, foi convidado e aceitou”, disse o defensor em entrevista à Globonews. Lulinha será ouvido sobre as fraudes no INSS, mas no âmbito do inquérito em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria do ministro André Mendonça.

No início da semana, o senador Carlos Viana foi a público cobrar o afastamento de ministros do STF que tiveram nomes atrelados à crise do Master, e reclamou que o Tribunal suspendeu, por meio de decisão do ministro Flávio Dino, a quebra de sigilos que alcançava Lulinha. Na quinta-feira (19), entretanto, Viana virou alvo. Decisão do mesmo Flávio Dino determinou que ele esclareça o envio de R$ 3,6 milhões em “emendas PIX” para a Fundação Oasis, braço social da Igreja Batista da Lagoinha. Uma unidade dessa igreja em Belo Horizonte foi fundada por Zettel, cunhado de Vorcaro.

O encerramento da comissão, entretanto, não acalmará os nervos do mundo político em Brasília. O Master prosseguirá sob a mira da CPI do Crime Organizado, que se não for prorrogada, vai até 14 de abril.

O relator da investigação, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), disse à coluna que pedirá ao menos mais 60 dias para concluir os trabalhos. No momento, tenta reverter decisão do ministro Gilmar Mendes que suspendeu a quebra de sigilo do fundo Arleen, que comprou a fatia da empresa Maridt, do ministro Dias Toffoli, em um resort no Paraná.

Porém, o que realmente deixa os nervos dos políticos à flor da pele é o festival de delações que se avizinha.

Valor confirmou que Daniel Vorcaro já assinou um termo de confidencialidade com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), dando início ao protocolo da delação.

Em outra frente, o advogado do “Careca do INSS” vem negando que ele fará delação, mas a colaboração do empresário Maurício Camisotti, preso junto com o lobista, estaria em negociação com a PF.

No poema Áporo, de Drummond, o personagem tenta escapar da emboscada: “Um inseto cava/ cava sem alarme/ perfurando a terra/ sem achar escape”. Em Brasília, a crise em curso ainda é um buraco sem saída e sem solução para quem caiu nele.

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