Folha de S. Paulo
Senador faz bonito nas pesquisas, mas em casa
e na campanha o ambiente é do mais completo desalinho
Arranca-rabos internos suscitam dúvida sobre
quem de fato mandaria num novo governo bolsonarista
A campanha de Flávio
Bolsonaro (PL) ecoa o velho provérbio
que usa a figura da "bela viola" para falar do contraste entre
imagens externas e realidades internas.
Nas pesquisas de opinião, o senador faz bonito. Aparece vigoroso, com traços de vencedor. Em casa, o ambiente é de completo desalinho. Os irmãos brigam com os companheiros de campo ideológico —ainda distante da condição de aliados—, a mulher do pai preserva distanciamento para lá de crítico e parte dos correligionários ainda prefere a condição de espectadores não engajados.
A nação evangélica colocou-se no modo de
espera e os concorrentes à direita ensaiam as primeiras críticas, sinalizando
mais interesse em disputar vaga no segundo turno do que em atuar como linhas
auxiliares.
Para complicar, o pretendente a candidato se
debate entre a essência radical que fideliza a tribo de origem e a necessidade
de se mostrar um moderado desde remotos ancestrais.
O filho do Jair encontra-se
acossado. De um lado, pelo receio da família de que perca terreno para outros
oponentes da direita; e, de outro, por exigências de que apresente credenciais
substantivas para o exercício da Presidência da República.
Difícil, porque lá no início Flávio
Bolsonaro havia dito
que sua candidatura não era para valer, buscava apenas uma
negociação em torno da anistia para o ex-presidente. Agora quer fazer valer o
dito pelo não dito, mas encontra obstáculos na vida real. Ele mesmo tratou de
desmentir o pouco que se soube sobre sua agenda na economia.
As coisas que não são de verdade podem acabar
se revelando como farsa. O cenário de arranca-rabos internos levanta a seguinte
indagação: uma vez Flávio Bolsonaro posto no Palácio, quem comandaria o
Planalto? Os irmãos desatinados, o pai prisioneiro como conselheiro oculto ou o
eleito por obra do acaso?
A pertinência da incerteza autoriza a
projeção do risco de o Brasil eleger um presidente de governo em que todo mundo
grita, ninguém se entende e o país que se vire como um navio à deriva.

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