Dedicado aos 50 anos de Liberalismo e Sindicato no Brasil, obra de fibra do flamenguista Luiz Werneck Vianna
Filme resenhado: Zico, o samurai de Quintino. 2025. Direção: João Wainer. Roteiro: Thiago Iacocca
É com uma raridade cada vez mais constante que vemos raios luminosos em dias cinzentos, no cinema atual, com o mesmo brilho e leveza como foram os 103 minutos da exibição de Zico, o samurai de Quintino.
Uma biografia jamais pode ser considerada uma fonte verdadeira. E muito do que é retratado do perfil do biografado tem maior consonância com o biógrafo ou com o momento conjuntural do que com o perfil a ser exposto. Em um país que se diz do futebol – tal como a Argentina, Itália, Inglaterra, dentre outros – é de difícil compreensão que tão poucos filmes se debrucem sobre o universo futebolístico. Após clássicos sobre Garrincha, Alegria do povo (1962) e sobre Pelé: o nascimento de uma lenda (2017), cremos que o filme completa uma venturosa trilogia daqueles jogadores que transcenderam o espírito clubista e o ranço dos adversários.
O filme tem uma boa montagem do passado em
diálogo com o presente e o retorno ao passado com mais perguntas e outras
respostas, um percurso que um historiador como Marc Bloch aprovaria. De caráter
polifônico, o seu discurso pode parecer, à primeira vista, uma elegia ao
jogador nascido no “rururbano” bairro de Quintino, com imagens de um subúrbio
que se perdeu, com jogos de bola na rua, crianças descalças, amizades e
casamentos entre vizinhos – daí a longeva união entre Arthur Nunes Coimbra e
sua esposa Sandra -, mas aos poucos revela algo para além da deferência e da
acomodação de praxe no mundo documental.
Para um olhar mais atento, a direção de João
Wainer e o roteiro de João Iacocca revelam camadas que mostram as
conexões de futebol e política. É através do depoimento de seus irmãos que o
Zico maduro e o os espectadores mais jovens recebem a informação que as
carreiras de seus irmãos foram ceifadas mais cedo pela ação deliberada da
Ditadura Militar brasileira, como é o caso de Antunes (ex-América e
Ceará), que sofreu perseguição no Brasil por ter trabalhado
como funcionário público para o Programa Nacional de Alfabetização (PNA),
criado pelo educador Paulo Freire. Chegou a lecionar durante um mês, mas o
programa foi interrompido após o Golpe Militar, em abril de 1964. Todos que
fizeram parte do PNA foram considerados
subversivos e Antunes teve a carreira interrompida no Portugal
salazarista e foi preso no Brasil.
O abandono da carreira em prol dos irmãos
mais novos é um relato de força e de altruísmo de Antunes. Algo similar
ocorreu com Edu, ídolo do América – preterido em convocações na seleção
canarinho – e com o próprio juvenil Zico, que foi cortado
da Olimpíada de Munique (1972) após ter sido o destaque do pré-olímpico. O
jovem Zico ia pendurar as chuteiras por esse episódio e, como descobriu
depois de 40 anos, não foi por motivos técnicos, mas políticos ligados à sua
família.
A virada da carreira de Zico se dá a
partir de 1974 – coincidentemente, o ano da vitória política sobre a Ditadura¹.
As vitórias no Carioca – quando os estaduais eram mais importantes que os
esculhambados nacionais e internacionais – o Brasileiro e a
Libertadores – são cenas obrigatórias para o deleite de qualquer
amante do futebol. Em paralelo, as falas acerca das manipulações das
ditaduras sul-americanas, especificamente a argentina e chilena – são
fundamentais para a Cultura Política dos mais jovens. Porém, talvez
o ponto mais alto do filme foi o olhar
e o espaço para o artilheiro do Brasileiro, o saudoso
Roberto Dinamite, ídolo do Vasco. Em tempos de polarização afetiva, nada como o
futebol, uma paixão, para desmontar a retórica manipuladora do
ódio.
Os críticos de cinema questionam a
falta de autocrítica ou de enfoque menos parcimonioso, seja ao Zico ou ao
Arthur. A cena do então ex-jogador Zico cumprimentando Collor e sendo
empossado como Secretário dos Esportes, em 1990, não basta? E no ano seguinte,
o já ex-secretário Zico se juntou à equipe Sumitomo Metals, quando
era um time operário, e ajudando na profissionalização para o início da J-League, em
1993, não seria um autoexílio após ter apoiado o malfadado projeto neoliberal?
A fala protagonista de mulheres,
especialmente de Sandra Coimbra; os traumas nos filhos com a ausência da figura
dos pais; o fatídico jogo contra a Itália de 1982 e o pênalti perdido no
tempo normal em 1986; o recomeço sem estrutura no Japão e uma
autodisciplina férrea mostram mais do que o ídolo, mostram um ser humano.
Em ano de Copa, é um dever cívico para
qualquer brasileiro levar os jovens para assistir esse filme, que é antes de
tudo uma reconstituição de um país que se perdeu – laços familiares e comunais
de bairro, amizade para além da rivalidade, o foco no gol maior do que no
drible inconsistente, a resiliência suburbana carioca. Em época de idolatria
infanto-juvenil a um jogador imaginário que não existe mais, que
tem atitudes cafajestes dentro e fora de campo, Zico, o samurai de
Quintino, pode ser um auxílio na criação de anticorpos ao individualismo,
ganância e soberba.
¹ – Refere-se à vitória eleitoral do MDB, de oposição. Os emedebistas elegeram 16 senadores entre as 22 vagas em jogo. O MDB obteve ainda 335 dos 787 deputados estaduais e 160 dos 364 deputados federais, aumentando significativamente suas bancadas nas assembleias, na Câmara e no Senado Federal. Fonte: Agência Senado. Uma outra referência é o texto 1974 – O ano da herança que não renunciamos, publicado no Voto Positivo em 2024. Disponível no antigo endereço do blog: https://votopositivo-cg.blogspot.com/2024/07/boletim-brasilia-conection-bbc-051-1974.html.
*Pablo Spinelli é Doutorando em Ciência Política (UNIRIO), Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (UFRRJ) e professor de História na educação básica.

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