quinta-feira, 21 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gastos fora da meta estimulam crise fiscal

O Globo

Crescimento da dívida pública é insustentável. Em breve, conta terá de ser paga por todos os brasileiros

Enquanto desfruta recuperação em seus índices de popularidade depois da reação ao tarifaço americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua a estimular com o maior descaso uma crise fiscal da maior gravidade no futuro. No atual mandato, a dívida pública deverá crescer 10 pontos percentuais e chegar a 82% do Produto Interno Bruto (PIB) — ante média de 65% nos países emergentes. O governo insiste em dizer que cumpre as metas fiscais. Esquece, porém, que só tem conseguido atingi-las graças a artimanhas. A cada dificuldade, exclui gastos novos do cálculo (o padrão se repete com o socorro pelo tarifaço). A despesa não é computada, mas continua alimentando a dívida. Nas finanças públicas, narrativas fantasiosas não têm o condão de mudar a realidade.

Há mais coisas no ar, por Merval Pereira

O Globo

A missão do avião americano foi autorizada pelo governo brasileiro numa hora dessas?

Há um avião misterioso pousando em aeroportos brasileiros e navios rumo à costa da Venezuela, levantando todo tipo de teorias conspiratórias. Sendo Donald Trump presidente dos Estados Unidos, todas podem ser verdadeiras. Os Estados Unidos invadirão a Venezuela a pretexto de combater o governo de Nicolás Maduro, a quem acusam de chefiar cartel de narcotráfico? A missão do avião americano foi autorizada pelo governo brasileiro numa hora dessas? Faz parte de alguma negociação secreta ou demonstração de boa vontade brasileira?

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino não precisava transformar em decisão com efeito vinculante sua posição pessoal sobre a aplicação da Lei Magnitsky contra seu colega, o ministro Alexandre de Moraes, mesmo porque a causa de que era relator tratava de uma disputa judicial na Inglaterra. A decisão de Dino, embora pareça uma defesa da soberania, é inútil em relação à Lei Magnitsky, que não tem vigência no território brasileiro. Ela vale no exterior, para instituições financeiras que tenham relação comercial com Moraes.

Para salvar o Legislativo, por Fernando Haddad Moura

O Globo

Congresso transparente e eficiente não é só desejável, como possível e urgente. É condição para que a democracia funcione

A última pesquisa Datafolha traz um recado direto e preocupante aos que ocupam vagas no Legislativo brasileiro: quase 80% da população vê o Congresso como espaço dedicado à defesa de interesses próprios. A reprovação dos parlamentares segue uma tendência crescente. Não se trata de uma oscilação pontual de imagem, mas de uma crise persistente de representação e confiança pública.

O sentimento de desconfiança em relação à política institucional não é recente, mas seu agravamento exige mais que discursos simbólicos. Reverter esse desgaste passa por mudanças estruturais no funcionamento dos mandatos: mais foco estratégico, mais compromisso com entregas concretas e mais transparência sobre o que o Congresso efetivamente faz — e pode fazer — pela população.

Água no chope dos governadores da direita, por Julia Duailibi

O Globo

Estar abraçado a Bolsonaro hoje na guerra comercial é estar abraçado a uma campanha contra o Brasil, e isso tem custo eleitoral

Com o julgamento de Bolsonaro batendo à porta, governadores de oposição deixaram o constrangimento de lado e colocaram o bloco na rua em busca de um naco do legado eleitoral do ex-presidente. A conta foi simples: bater no governo e enaltecer Bolsonaro, por maior que fosse o exercício retórico de defendê-lo no caso do tarifaço.

Os números recentes da pesquisa Quaest, no entanto, jogaram água no chope dos governadores. Quem pensava que seria um domingo no parque apoiar Bolsonaro terá de recalibrar a rota. Pelo menos agora. A pesquisa mostra que seu caráter tóxico, agravado no tarifaço, pode ser um obstáculo aos governadores com ambições de disputar a Presidência pela direita. Em suma, não dá para levar só uma parte do pacote. Bajular Bolsonaro significa levar o pacote todo, incluindo uma bola de ferro que, hoje, vem dentro.

Alckmin diz que não vai desistir, por Míriam Leitão

O Globo

Vice-presidente disse que Brasil está sendo injustiçado e continuará tentando o diálogo com os Estados Unidos

Nossa vida ficou 6,4% melhor. Este é o percentual da exportação atingido pela decisão dos Estados Unidos de cobrar de todos os países a mesma alíquota nos produtos que contenham aço, cobre ou alumínio. Esta é a forma como o vice-presidente Geraldo Alckmin vê o trabalho de enfrentar o tarifaço americano. De grão em grão, partes das nossas vendas vão ficando nas exceções ou então no mesmo patamar dos outros países. “Não vamos desistir, vamos continuar negociando permanentemente”, diz Alckmin. As portas estão fechadas, as mesas vazias, mas ele repete o mantra, “negociar, negociar, negociar”.

O babaca que balança o pregão nacional, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Malafaia deu a definição mais precisa sobre o deputado que abalou o mercado

O Real recuperou parte da valorização que havia perdido ante o dólar, o Ibovespa voltou a subir e as ações dos bancos, com uma única exceção, o BTG, registraram uma tímida recuperação. O respiro veio junto com a reabertura de canais entre o sistema financeiro e o Supremo Tribunal Federal que, ao longo da escalada da terça-feira, pareciam incontornavelmente obstruídos.

A decisão do ministro Flávio Dino, que se limitou a reafirmar dispositivo vigente na legislação brasileira há décadas, o de que uma decisão estrangeira precisa ser ratificada por tribunal nacional para valer no país, foi protocolada no STF às 11h57 da segunda-feira. Houve algum nervosismo ao longo tarde, mas foi só na terça que o mercado financeiro, ante a perspectiva de um embate entre a toga e o pregão e de um relatório de banco aqui outro acolá, acordou.

Poucos podem poupar no Brasil, por Pedro Forquesato

Valor Econômico

Baixa poupança em muito precede o Estado de bem-estar social no Brasil

Em um artigo escrito para o Valor em 13 de agosto de 2025, “Poucos precisam poupar no Brasil”, o professor Nilson Teixeira, ainda que em um artigo no qual concordamos em vários pontos, infelizmente ajuda a perpetuar algumas visões equivocadas sobre o efeito de políticas de seguridade social na taxa de poupança geral da economia que é preciso que sejam desmitificadas.

Realmente, é um fato já bastante debatido que o Brasil poupa muito pouco em comparação a outros países em desenvolvimento, e que essa característica de nossa economia pode ajudar a explicar a incapacidade do país de manter uma taxa de crescimento do PIB que seja consistente com um movimento de “catching-up” em relação às economias desenvolvidas.

A direita em marcha, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O grande jantar em Brasília na última terça feira talvez acabe valendo como a data formal para uma “largada” dos grupos de centro e centro-direita para as eleições de 2026. Afinal, quem podia ser considerado presidenciável por esse largo espectro compareceu (menos alguém com sobrenome Bolsonaro), além dos caciques de pelo menos seis partidos.

Daí para se falar de uma estratégia comum é hoje apenas desejo. Ficou explicitada a existência de pelo menos duas grandes linhas de ação, mutuamente excludentes. Ou esse grande espectro vai para o embate com Lula carregando apenas um nome “de união”, ou vai cada grupo de centro-direita com seu nome e tentaremos ser unidos e felizes num segundo turno.

O ‘patriotismo’ do Outro (sim, com ‘O’ maiúsculo), por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Os pecados destes ‘patriotas’ talvez sejam redimidos pelo ente que paira ‘acima de todos’, menos de Trump. Mas poderá a nação brasileira anistiá-los por antecipação?

Os “patriotas” das arruaças, do culto às armas e das camisetas amareladas ganharam votos gritando “Brasil acima de tudo” e “Deus acima de todos”. Dupla pobreza de espírito. O primeiro slogan nunca passou de um plágio de mau gosto do bordão nazista Deutschland über alles (“Alemanha acima de tudo”). Quanto a “Deus acima de todos”, bem, nenhuma novidade. O Altíssimo assim é chamado por habitar supostamente píncaros celestiais insuperáveis. Quanto ao mais, o dístico nunca parou de pé: Deus deveria ser posto acima do Brasil ou seria o contrário?

Com o tempo, ficou evidente que os tais “patriotas” eram na verdade estrangeirotas: patriotas do estrangeiro. Um deles, em 2017, numa excursão à Flórida, chegou a bater continência para uma bandeira dos Estados Unidos estampada numa tela eletrônica. Ao microfone, o voluntário da servidão incondicional confessou: “A minha continência à bandeira americana”. Em 2019, o mesmo personagem arriscou um “I l ove you” para Donald

Ainda as emendas parlamentares, por Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

São inconstitucionais principalmente porque criaram dois tipos de candidatos a parlamentar, com e sem emendas

Há muito tempo escrevo contra as emendas parlamentares, até aqui sem sucesso, mas não desisto, pois constituem uma grande distorção de nossa vida política, por terem grande influência eleitoral. Desta vez tive ajuda do meu amigo Vilmar Rocha, que por 20 anos foi deputado federal por Goiás e como tal participou na revisão constitucional de 1993. Orientou-me sobre o que está na Constituição sobre essas emendas. É advogado e foi professor de Direito na Universidade Federal de Goiás.

Na área federal, essas emendas são de vários tipos, cresceram muito nos últimos cinco anos e alcançam hoje cerca de R$ 50 bilhões por ano. Tenho visto notícias de que também chegaram aos Legislativos dos Estados e municípios. Meus argumentos são pela inconstitucionalidade dessas emendas em seu conjunto. A proliferação delas começou via Emenda Constitucional n.º 100, de 2019, que, entre outros aspectos, tornou obrigatória a execução de emendas de bancadas e individuais, dentro de certos limites. A quem quiser conhecer mais a história das emendas sugiro ir ao Google Chrome e procurar por “emendas constitucionais que permitiram as emendas parlamentares”.

Os bancos e a blindagem do Xandão, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Em sua longa volta para casa, o grego Ulisses passou por situações terríveis, relata Homero, em sua Odisseia. Lutou contra o gigante Ciclope, que tinha um só olho, no meio da testa; teve de se livrar das sereias traiçoeiras; enfrentou a feiticeira Circe, que transformou seus marinheiros em porcos; sofreu um naufrágio devastador; e teve de passar por Cila e Caribdis – dois rochedos no estreito de Messina, ambos tomados por monstros carniceiros. Quem escapa de Cila acaba trombando com Caribdis, cujas criaturas mataram seis marinheiros de Ulisses e por pouco não afundaram seu navio.

Setembro crítico para o Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Calendário do perigo tem julgamento de Bolsonaro e decisão do STF sobre sanções dos EUA

Por pelo menos um mês, haverá risco aumentado de que o ataque Trump-Bolsonaro contra a economia brasileira desvalorize o real, para começar. O risco de novas sanções está no calendário. Jair Bolsonaro será julgado em meados de setembro. O Supremo vai decidir a que problema estarão expostos os bancos que atuam no Brasil em caso de novos decretos americanos contra brasileiros.

dólar em queda pelo mundo e por aqui também tem sido um sedativo para as finanças, para a economia e, em alguma medida, até para a política do Brasil. Dólar mais barato atenua a inflação, anestesia humores ruins com o gasto público e diminui o amplificador das más notícias do Congresso para o governo. A carestia menor devolveria uns pontos de prestígio para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Brasília ferve a 40 graus, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

CPI do INSS é aviso de que não haverá votação fácil nem para a pauta econômica

Menos de 15 dias após o motim bolsonarista no Congresso Nacional, a derrota do governo e a traição aos presidentes da Câmara e do Senado na escolha de oposicionistas para comandar a CPI do INSS aponta um segundo semestre de grande instabilidade política na véspera de ano eleitoral.

Brasília ferve com a articulação na CPI, que representa também um aviso de que não haverá maioria fácil para as votações.

Às voltas com o problema do tarifaço de Donald Trump, o governo Lula achou que a CPI estava dominada e agora terá que lidar com a pressão da oposição nessa frente de desgaste no momento em que buscava retomar as votações e enviar dois projetos para regular as big techs.

Grito de bolsalidade, mal-estar na incivilização, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

O movimento que embrutece, emburrece e empobrece

A bolsalidade se espraiou pela vida pública e privada. Ajudou a embrutecer pessoas doces e a emburrecer pessoas escolarizadas. Luta por empobrecer um país, por se apropriar da sua riqueza material e suprimir sua riqueza imaterial, aquela que faz pensar e sentir antes de falar e agir. Tenta perpetuar a soberania de hierarquias e subjugar uma sociedade diversa.

A bolsalidade empobrece um país enquanto enriquece suas forças coloniais, extrativistas e grileiras. Enquanto enfraquece o Estado, a legalidade, as políticas públicas e abre avenidas para o crime organizado e a corrupção. Enquanto esgarça argumentos e esvazia valores constitucionais.

Flávio Dino decidiu apenas o óbvio, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Leis de outro país não têm eficácia no Brasil se ofende a soberania nacional

Trocando o juridiquês por uma linguagem que humanos entendam, o que o ministro Flávio Dino decidiu é simples: no Brasil vale a lei brasileira, como nos EUA vale a lei americana. Em outras palavras: no Brasil, as pessoas —jurídicas ou físicas— estão sujeitas às normas adotadas pelo Legislativo e aplicadas pelo Judiciário das bandas de cá. Data vênia o alarde que causou, a decisão de Dino sobre leis e atos estrangeiros não tem absolutamente nada de novo, a rigor aplica-se às partes daquele caso, não a Moraes, e apenas repete o que a lei já diz.

Novos desafios à política exterior, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Estratégia externa requer cálculo fino, discreto profissionalismo e muita contenção na retórica

Os ferozes ataques desfechados por Donald Trump contra a democracia brasileira e o comércio bilateral do país com os Estados Unidos têm se revelado uma inesperada oportunidade de reafirmar alguns princípios que de há muito norteiam a política externa brasileira –e, com base neles, definir com a clareza possível estratégias globais e objetivos regionais.

As condições são especialmente delicadas por duas razões, pelo menos. Uma é a imprevisibilidade gerada pela conduta errática do truculento presidente norte-americano, que parece querer dar vida às representações mais caricatas do imperialismo que, ao tempo da Guerra Fria, inundavam os manuais do marxismo soviético e eram adotados, feito Bíblia, pelos simpatizantes da pátria do socialismo em toda parte. Com Trump, Tio Sam está de volta como farsa trágica.

Deus, pátria e família para palerma ver, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se as instituições se curvarem aos Bolsonaros, o Brasil pode reivindicar a 51ª estrela da bandeira americana

Os últimos acontecimentos deixam claro. Os Bolsonaros, pai e filhos, puseram as cartas na mesa e passaram a jogar aberto. Nem o slogan publicitário fascista "Deus, pátria e família", de que tanto se valeram, escapou. Já deve estar sendo aposentado tanto pelos pascácios, pessoas simplórias e bem intencionadas que acreditavam nele, quanto pelos espertos, que o usavam para tapear os ditos pascácios. Vejamos por quê.

Bolsonaros x Deus. Embora O invoquem o tempo todo, as verdadeiras relações entre Deus e os Bolsonaros são zero. Deus não admitiria entre os Seus um sujeito com a vulgaridade e falta de escrúpulos de Bolsonaro pai, defensor da tortura, dado a "pintar um clima" com vulneráveis e nitidamente hipócrita em suas atitudes diante da religião. Flávio Bolsonaro, por sua vez, comprador de mansões de R$ 6 milhões com dinheiro vivo oriundo de "rachadinhas", não passará pelo buraco da agulha.

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Sinfonia do Rio de Janeiro de Billy Blanco e Tom Jobim - Arranjo e Regência Gilson Peranzzetta.

 

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não faltam obstáculos para a paz na Ucrânia

O Globo

Europeus fazem bem em se mostrar unidos com Zelensky. Mas demandas de Putin mostram que ele quer guerra

Os principais líderes europeus fizeram bem em interromper as férias para participar na Casa Branca — em conjunto, com mensagem firme e clara — do encontro entre os presidentes americano, Donald Trump, e ucraniano, Volodymyr Zelensky. Afinados, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o chanceler alemão, Friedrich Merz, o presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, demostraram uma união imprescindível em defesa da Ucrânia. Obtiveram de Trump a promessa de uma reunião futura de Zelensky com o russo Vladimir Putin, seguida de um insólito encontro trilateral, com o próprio Trump, para firmar um acordo de paz que encerre a guerra de mais de três anos.

Moraes não é o único alvo, por Vera Magalhães

O Globo

Consequências de aquiescer com o emprego extensivo de sanções podem atingir até os que hoje celebram castigos impostos a Alexandre de Moraes

Mesmo aqueles que fazem severos reparos às decisões de Alexandre de Moraes nos processos por ele relatados deveriam se preocupar com as consequências da aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro, ainda mais se prevalecer a extensão que alguns querem dar às sanções.

Para além do inaceitável precedente de uma nação pressionando outra a rever decisões de Poder Judiciário autônomo e independente deturpando o escopo de uma lei, os demais reflexos do tipo de submissão que pode ser exigido das instituições financeiras são um risco gravíssimo à soberania nacional e à segurança de todo o sistema bancário. Isso não diz respeito apenas a Moraes, mas a todas as autoridades e empresas e a cada cidadão brasileiro. Uma vez que se ceda sem resistência, qualquer um pode ser alvo.

Centrão com esteroides, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Supermáquina partidária nasce com discurso de oposição, mas não entrega cargos no governo

União Brasil e PP lançaram ontem uma supermáquina partidária. A federação nasceu com discurso oposicionista, mas já avisou que não vai entregar os cargos no governo. Continuará a comandar quatro ministérios, além da Caixa Econômica Federal e da Codevasf.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, descreveu a aliança como um “movimento político grandioso”. Por enquanto, trata-se de um grande negócio para seus dirigentes. Juntos, eles devem abocanhar quase R$ 1 bilhão do fundo eleitoral em 2026.

A União Progressista vai controlar as maiores bancadas da Câmara e do Senado, com 109 deputados e 15 senadores. Apesar do gigantismo, não deve lançar candidato próprio ao Planalto. “Temos grandes nomes, mas talvez não seja a hora de sermos a cabeça”, disse o presidente do PP, Ciro Nogueira.

Diplomacia americana faz presepada, por Elio Gaspari

O Globo

Os EUA já tiveram política externa, hoje têm eventos

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos posou ao lado de Eduardo Bolsonaro no dia em que deveria ter mantido uma reunião virtual com o ministro Fernando Haddad. Não foi uma simples descortesia, foi uma presepada. Scott Bessent ocupa uma cadeira onde estiveram titãs das finanças americanas. Não há registro de episódios semelhantes.

Deve-se mandar ao arquivo qualquer ideia de negociação pública com o governo Donald Trump. Seu Salão Oval e seus ministros tornaram-se radioativos. O melhor a fazer é seguir o exemplo da China: poucas palavras e muita conversa reservada.

No caso do Brasil, Trump conseguiu um inimigo ideal. Lula fala dele dia sim, dia não. Ministros maravilhavam-se com a ideia de conduzir negociações até que Bessent fritou Haddad. Com o gosto trumpista pelo teatro, tiveram o reforço de Eduardo Bolsonaro, oferecendo-se para fotos e para o papel de irradiador de ameaças.

O vento começa favorável para o governo na CPMI do INSS, por Fernando Exman

Valor Econômico

Discurso de que já assegurou o pagamento de 99,35% das vítimas é um trunfo a ser utilizado, mas nem de longe garante que Lula sairá ileso no fim

A CPMI do INSS, que tem instalação marcada para esta quarta-feira (20), começa em um cenário relativamente favorável para o governo Lula. Sim, é verdade: quando se trata de comissões parlamentares de inquérito, sempre se deve lembrar da célebre frase do ex-presidente da Câmara dos Deputados Ulysses Guimarães, segundo a qual “CPI a gente sabe como começa, mas não sabe como termina”. Pode-se dizer, contudo, que até agora o roteiro traçado no Palácio do Planalto foi bem-sucedido.

Falta espaço fiscal para exercer a soberania, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Orçamento deixa pouca margem de manobra para responder a emergências

Medida das mais aguardadas pelas indústrias atingidas pelo tarifaço, o aumento da alíquota do Reintegra de 0,1% para 3,1% entrou e saiu do Plano Brasil Soberano várias vezes na reta final de fechamento do pacote. “No fim, foi reintegrado”, brincou um membro do governo.

Mas, para isso, foi preciso pedir ao Congresso Nacional uma dispensa em relação às regras fiscais, o que mostra o difícil convívio do governo com um Orçamento que deixa pouca margem de manobra para responder a emergências.

O Reintegra dá um crédito tributário às empresas exportadoras, para compensar resíduos de impostos que ficam no preço da mercadoria. Era de 0,1%.

Tordesilhas no Alasca? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

É o que temos porque ninguém escapa da condição humana cuja história – como revela a grande anistilândia brasileira, os bíblicos tarifaços americanos e o projeto putinesco de reunir a União Soviética – repetimos vivendo seus episódios como novidades – ou “avanços”.

Na história humana, o denominador comum não é a serenidade, mas o angustiante desconcerto diante da divergência nas concepções de vida e morte, da rotina e do inesperado, do dado e do fabricado – essas dimensões que permeiam todos os sistemas culturais conhecidos.

O denominador comum para lidar com as diferenças sempre foi o confronto, jamais a compreensão que, nos sistemas religiosos, surge com perdão e amor.

Virada no emprego ainda não está à vista, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Pelos dados fechados até o mês passado, o mercado de trabalho não mostra qualquer sinal de inflexão

A cada recorde registrado nos dados do mercado de trabalho nos últimos meses, com sucessivas surpresas em relação às estimativas de analistas, parece cada vez mais esquivo o objetivo do Banco Central de esfriar a demanda e reduzir a pressão sobre os preços de serviços, ainda muito acima da meta de inflação de 3%. Por tabela, os sinais de desaceleração da economia brasileira são incipientes demais para dar respaldo ao início de um ciclo de cortes de juros mais cedo do que tarde.

Mesmo com a taxa Selic a 15%, a crua realidade é de que o mercado de trabalho não mostra qualquer sinal de inflexão. No trimestre encerrado em junho, a taxa de desemprego, de 5,8%, foi a menor da série histórica do IBGE. A população ocupada estimada (102,3 milhões de pessoas) é a maior desde que a estatística foi iniciada, em 2012.

Museu do Trincheira tropical, por Cristovam Buarque

Correio Braziliense

Em Trincheira tropical, Ruy Castro deslumbra o leitor levando-o pelas ruas do Rio de Janeiro nos anos da Segunda Guerra Mundial. Nos conduz entre os personagens que participaram da vida política, militar e cultural daquele período

Muitos historiadores assumem a função de astrônomos do passado, observam, analisam, explicam, mas não guiam os leitores pelos caminhos da história. Ruy Castro não se limita a essa astronomia: ele nos conduz como um guia caminhando pelo passado, mostrando como era a sociedade no tempo que estuda. Em Trincheira tropical, deslumbra o leitor levando-o pelas ruas do Rio de Janeiro nos anos da Segunda Guerra Mundial. Mostra a cidade e o país no cenário naquele tempo, desvenda e conta os bastidores dos debates políticos e seus movimentos consequentes, ao mesmo tempo em que narra a vida que seguia. Ruy nos conduz entre os personagens que participaram da vida política, militar e cultural daquele período, por um fascinante passeio pelo passado. Não se arvora em astrônomo, mas em guia de museu vivo. Os livros de história nos trazem o passado, Trincheira tropical nos leva ao passado. Graças ao olhar do historiador e sua imensa bagagem de informações, assistimos como testemunhas aos fatos daqueles anos. Trincheira tropical é um ponto de observação a partir do qual podemos perceber e caminhar pelo passado em um momento decisivo da história mundial e nacional.

Livro clássico mostrou que o fascismo pode brotar na democracia, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

'A Personalidade Autoritária', de 1950, inaugurou uma agenda de pesquisa sobre as bases psicológicas do autoritarismo  

Este ano completa-se o 75º aniversário de "A Personalidade Autoritária", obra monumental publicada em 1950 por Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson e Sanford, que inaugurou uma agenda de pesquisa ainda atual sobre intolerância política e as bases psicológicas do autoritarismo.

Pela primeira vez, psicanálisepsicologia sociologia foram mobilizadas de modo integrado para enfrentar uma questão que, tanto no pós-guerra quanto hoje, se impõe com urgência: como sociedades democráticas podem gerar cidadãos predispostos a aderir a ideologias autoritárias.

A primeira grande inovação foi a virada copernicana que deslocou o centro da análise. Em vez de estudar a ideologia fascista —seus movimentos sociais, discursos, partidos e programas—, os autores voltaram-se aos indivíduos e às suas atitudes, isto é, às disposições subjetivas que estruturam o modo como as pessoas percebem o mundo social.

As atitudes autoritárias, sustentam, correlacionam-se de forma estável em um conjunto recorrente de sintomas psicológicos e sociais: conformismo, submissão à autoridade, intolerância à ambiguidade, agressividade contra grupos minoritários, rigidez moral e preconceito. Não é preciso militância aberta: basta que essas disposições, formadas desde a infância, estejam latentes.

Virar a chave é preciso, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Nessa toada de atritos, a eleição de 2026 encontrará o país ainda preso na armadilha do fanatismo

Enquanto se discutem os efeitos da crise com os Estados Unidos e da possível condenação de Jair Bolsonaro (PL) no Supremo Tribunal Federal, o país segue a reboque da queda de braço permanente entre os agrupamentos liderados por Luiz Inácio da Silva (PT) e seu antecessor.

A nenhum dos dois interessa a distensão do ambiente radicalizado no qual ambos alimentam suas performances e se mantêm relevantes na cena.

Essa dinâmica é paralisante e ficou ainda mais solidificada agora quando a ofensiva de Donald Trump acrescentou a ela o fator externo, mostrando do que o imperialismo é capaz.

Efeito da conspiração Bolsonaro piora, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No caso extremo de sanções contra bancos, haveria danos sérios para empresas e investimento no Brasil

Enfim, apareceu o efeito do risco de que a economia brasileira possa apanhar por causa de sanções financeiras americanas, risco até aqui ignorado "no mercado" e pela maioria das autoridades brasileiras. Donald Trump pode fazer estrago profundo, pior do que impostos de importação mais altos.

As sanções financeiras americanas contra (até agora) Alexandre de Moraes podem, no limite, tornar impossíveis transações internacionais mediadas por bancos brasileiros com sede nos EUA ou relacionados a instituições financeiras, empresas e pessoas sujeitos à jurisdição americana. Uma desgraça econômica.

Legislação instagramável, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Redes sociais afetaram comportamento de parlamentares, que parecem mais interessados em likes do que em fazer boas leis

Até uns 15 anos atrás, parlamentares em busca de visibilidade precisavam cavar um espacinho em "A Voz do Brasil". As redes sociais subverteram essa lógica. Hoje, cada congressista pode ser o editor de si mesmo, registrando sua atividade na Câmara ou no Senado e disponibilizando o vídeo diretamente a seu público.

A mudança não veio sem efeitos colaterais. A performance, que em algum grau já competia com o conteúdo, se tornou muito mais importante do que ele. As propostas apresentadas pelos parlamentares não precisam ser boas, factíveis e nem mesmo ser aprovadas em plenário. Basta que o deputado ou senador passe a mensagem que seu eleitor quer ouvir, que ela se traduzirá em likes e talvez também votos no próximo pleito.

A grande substituição, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Na Itália, o número de animais de estimação aumenta enquanto a taxa de natalidade afunda, afirma o jornal Financial Times

"Quanto mais conheço os homens, mais estimo os cachorros", teria dito Lord Byron.

Os italianos concordam. Leio no Financial Times que o aeroporto de Roma tem um hotel de luxo, com salão de massagens e jardim comunitário, para que os viajantes possam deixar seus cachorros antes de embarcar.

O fenômeno se explica com números: 40% das casas italianas já têm um animal de estimação. É muito? Para a Itália, talvez. Não para o Reino Unido (60%) ou para os Estados Unidos (66%).

Atrás desses números existe uma economia gigantesca —comida gourmet, vestuário, clínicas, creches, serviços funerários et cetera— que movimenta bilhões de euros por ano e só confirma a crescente humanização dos bichos.

Eu próprio, confesso, já assisti ao funeral de um cachorro por ser amigo dos donos. Teve direito a discurso emotivo e vídeo com os melhores momentos do defunto.

Era inevitável. A "modernidade líquida", como ensinava um sociólogo célebre, dissolveu as estruturas tradicionais (e sólidas) que enquadravam a vida dos indivíduos. Família? Comunidade? Religião?

Poesia | Manuel Bandeira - Profundamente

 

Música | Olívia Byington & João Carlos Assis Brasil - SERTÃO DO CAICÓ - BACCHIANA Nº 5 - MELODIA SENTIMENTAL

 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Eleição boliviana é alerta sobre risco do populismo

O Globo

Depois de engendrar crise fiscal, partido fundado por Evo Morales está fora do 2º turno e não fez um deputado sequer

O desfecho do primeiro turno da eleição presidencial na Bolívia marca o encerramento de um ciclo de 20 anos, em que o poder foi ocupado quase todo tempo pelo Movimento ao Socialismo (MAS), fundado por Evo Morales. O candidato do MAS, Eduardo del Castillo, ficou entre os menos votados. O segundo turno será disputado em outubro pelo senador centrista Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, e pelo ex-presidente Jorge Quiroga, da oposicionista Aliança Livre. O resultado traduz o esgotamento do discurso nacionalista de esquerda que sustentava Morales — ele deixou o partido no início do ano e hoje está foragido por enfrentar processo por estupro de menor e tráfico humano. O MAS não elegeu um representante sequer ao Congresso.

A missão prioritária do futuro governo será debelar a grave crise econômica, resultado da deterioração fiscal. A inflação anual era de 0,77% em março de 2022. Três anos depois, chegou a 23,96%, maior nível em 34 anos. O descontrole dos preços é acompanhado pela escassez de bens de primeira necessidade. A dívida pública, que caíra de 82% para 35% do PIB no primeiro mandato de Morales, voltou a subir e está em 95%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A crise foi fermentada durante os governos sucessivos de Morales. Eleito pela primeira vez em 2005, ele tirou proveito das grandes reservas de gás bolivianas para ampliar o gasto público e promover políticas sociais de impacto. Depois de obter a aprovação de uma nova Constituição em 2008, foi reeleito e obteve nova vitória em 2014. Conseguiu então na Justiça o direito a uma quarta candidatura em 2019, desafiando referendo de 2016 que vedava mais de duas reeleições consecutivas. No pleito de 2019, observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) constataram irregularidades flagrantes. Instalou-se grave crise política que culminou com sua renúncia por pressão militar e uma sucessão conturbada. A crise institucional só foi debelada quando o atual presidente, Luis Arce, do MAS, foi eleito em 2020.

A sombra de Bolsonaro, por Merval Pereira

O Globo

A discussão que se impõe é saber se um presidente da República em seu primeiro mandato quererá ter em seu encalço a figura de Bolsonaro

Caso um candidato de direita vença a eleição presidencial do próximo ano, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que deverá ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe, poderá ser favorecido por uma decisão do novo governante o recolocando na disputa política. Esse é um tema recorrente no jogo pré-eleitoral, que tem nuances fundamentais na análise prospectiva da corrida presidencial. A anistia é um perdão geral, concedido pelo Poder Legislativo por lei. Pode ser de iniciativa do próprio Legislativo — como os bolsonaristas tentam agora — ou proposta pelo Executivo, mas aprovada no Congresso.

Ela apaga os efeitos do crime, tanto penais quanto extrapenais, como a inelegibilidade. O indulto, em contraste, é um perdão concedido pelo Executivo que extingue a pena, mas não os efeitos extrapenais. Na anistia, que deve sempre ser concedida a um grupo que cometeu o mesmo crime, Bolsonaro ficaria livre para voltar ao jogo eleitoral em 2028 nas eleições municipais ou em 2030.

A presença americana muda a política no país, por Fernando Gabeira

O Globo

Durante a guerra fria, os Estados Unidos derrubaram 70 governos, em operações abertas ou clandestinas

Um amigo editor de uma revista portuguesa pediu um artigo sobre o Brasil. Escrevi a respeito da crise, mostrando o que o país tem de bom para garantir sua soberania: florestas, água, minerais estratégicos, alimentos, uma lista invejável.

Depois de enviar o artigo, me dei conta de que não abordei como deveria o que me parece a grande novidade na situação política nacional. Parece que ela mudou completamente. Estávamos acostumados com a polarização entre o governo e a oposição bolsonarista. De repente, entrou em cena um ator gigantesco: o governo americano de Donald Trump. A oposição bolsonarista deixou sua condição de protagonista e se tornou coadjuvante. Ela celebra ações americanas e se dedica a anunciar novas incursões punitivas. Tarifaço, supressão de vistos, Lei Magnitsky, e alguns deliram com a possibilidade de fechamento de bancos e desligamento do Waze. Parecem meninos que se agarram na perna do irmão mais velho que vai brigar por eles.

Sebastião voltou e adubou a terra, por Míriam Leitão

O Globo

Em cerimônia emocionante, as cinzas de Sebastião Salgado foram misturadas à terra onde se plantou uma peroba, em Minas

Sebastião Salgado voltou à terra onde nasceu, Aimorés, Minas Gerais, encostado no Espírito Santo. “Hoje vai ser a derradeira missão do Tião”, disse Lélia, esposa dele por 61 anos. “Ele vai ser o adubo da planta maravilhosa que vai ser essa peroba. Tenho certeza de que essa peroba vai ser a mais bonita, a maior, a mais alta aqui dessa floresta. E de longe as pessoas vão dizer, ‘está lá o Sebastião Salgado’. Como diria nosso grande amigo Saramago, Tião não voou para as estrelas, ele foi para a terra porque ele era da terra”.

As cinzas do grande fotógrafo e humanista foram misturadas à terra usada para o plantio da árvore, numa clareira bem em frente à mata que ele e Lélia plantaram na fazenda Bulcão. Os filhos, Juliano e Rodrigo, a viúva e a neta plantaram a muda de peroba, uma das rainhas da Mata Atlântica. A fazenda da família, na qual Sebastião viveu sua infância, estava completamente degradada quando ele a herdou. Lélia teve então a ideia de plantar uma floresta. Hoje, o Instituto Terra é um exemplo de que restaurar é possível e abriga três milhões de árvores.