O Globo
A guerra que Estados Unidos e Israel travam contra o Irã traz duas novidades que a tornam, nas palavras de Michael Horowitz, do Council on Foreign Relations, a primeira “guerra de precisão em massa”. A última vez em que uma transformação tecnológica radical desse nível ocorreu foi em 1991, na Guerra do Golfo. Lá, os mísseis Tomahawk e aviões bombardeiros que sumiam no radar permitiram que ataques tivessem um nível de precisão jamais visto. Agora é diferente. A precisão é plena e quase total. O que mudou foram duas tecnologias em paralelo. Do lado americano e israelense, é a primeira vez que inteligência artificial é usada para escolher alvos. Do lado iraniano, sua principal arma são drones que enxergam onde pretendem atacar. Por diversas razões, isso quer dizer que esta é uma guerra imprevisível.
A primeira guerra com IA da História tem por
base o seguinte: os computadores — digerindo imagens de satélite comerciais e
privativos do governo, informes de inteligência, comunicações capturadas de
rádio, telefone, internet e o que for, sensores vários — geram recomendações de
alvo em dez segundos. Não só isso, como conseguem gerar 30 vezes mais opções de
alvo — com descrição detalhada de por que poderia interessar — do que equipes
humanas. A razão de Estados Unidos e Israel conseguirem acertar tanta gente
importante na estrutura do governo, muito mais que em qualquer outra guerra, é
essa. IA funciona. IA revoluciona como se combate numa guerra.
Agora, nos Estados Unidos, isso é feito à
moda do governo Donald Trump.
Duas escolhas estratégicas mudam radicalmente como o país pensa seu poder
militar. A primeira é de base: segundo a Reuters, o Pentágono tomou a decisão
de adotar sistemas da Palantir como núcleo do Exército americano. Essa é uma
empresa cujo principal acionista é Peter Thiel, que, além de estar entre os
fundadores do PayPal, é um dos cinco homens mais influentes do Vale do Silício.
Thiel escreveu um ensaio importante, uns dez anos atrás, argumentando que não
acreditava mais na capacidade de democracias liberais promoverem um país
decente. Que, de alguma forma, um sistema de força, meritocrático, baseado nos
melhores cérebros, tinha de substituí-lo. Thiel é, também, o padrinho político
de J.D. Vance, vice-presidente de Trump.
A relação do Pentágono com a Palantir, em
essência, é a privatização do pensamento militar americano. Partindo do
princípio de que os militares não são mais capazes de tomar decisões sobre que
tipo de sistema precisam usar, jogam para a companhia essa definição. Em
paralelo, depois de uma disputa entre OpenAI e xAI sobre que modelo de IA o
sistema militar deveria adotar, escolheu-se a segunda. O Grok, modelo bastante
pior que o trio GPT, Claude e Gemini, ganhou.
Existe a suspeita de que a vitória do Grok,
obviamente pior, tenha ocorrido pelo que se apelidou “Efeito Eliza”. Eliza foi
o primeiro e bem primitivo robô de chat desenvolvido, que nos anos 1960 se
portava como uma psicanalista. Embora trivial e com truques óbvios para simular
diálogo, as pessoas que conversavam com a bot se apegavam emocionalmente a ela.
Grok igualmente encantou a equipe próxima ao secretário de Defesa, Pete
Hegseth. Afinal, foi desenvolvido por Elon Musk para
se comportar mesmo de acordo com os valores da direita trumpista. Enquanto o
GPT se porta com cordialidade e escapa elegantemente de saias justas, o Grok
vai para o ataque no modelo sincero-agressivo.
Os iranianos também atingiram um grau alto de
precisão em seus ataques aos países do Golfo. Os drones-bombas — que voam como
quadricópteros e se lançam contra os alvos de forma camicase — enxergam e têm
mapas detalhados. Custam, cada, US$ 35 mil. A Rússia tem
mantido a capacidade de produzir 400 drones desses por dia. São muito baratos.
Por enquanto, ao menos, os Estados Unidos os têm interceptado com mísseis
Patriot. Custam, cada um, US$ 4 milhões. E a Lockheed Martin fabricou 600 deles
em 2025. Tem a expectativa de alcançar uma produção de 2 mil ao ano — mas só no
ano que vem.
Existem saídas para esse tipo de guerra
assimétrica. Só que os Estados Unidos não estão prontos ou organizados para
enfrentar o problema. E, evidentemente, foram apanhados de surpresa. Mas
a Ucrânia,
que já encara há anos ataques com os mesmos tipos de drone desenhados pelos
russos, se organizou para enfrentá-los. Fabrica, no próprio país, drones
interceptadores. Custam US$ 2 mil a unidade e saem da linha de montagem mais de
10 mil por mês.
IA não será monopólio de países ricos por
muito tempo.

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