terça-feira, 24 de março de 2026

Trump e Netanyahu tendem a divergir sobre Irã, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

A americano interessa reduzir danos e encerrar a guerra

Para israelense, só vitória eloquente ajudaria em reeleição

Donald Trump e Binyamin Netanyahu começaram juntos a guerra contra o Irã, mas tendem cada vez mais a divergir sobre o momento de encerrá-la.

É difícil, aliás, entender por que Trump embarcou nessa aventura. É verdade que o Agente Laranja ganharia pontos eleitorais (haverá pleito legislativo nos Estados Unidos em novembro), se tivesse derrubado a teocracia iraniana apenas falando grosso e lançando meia dúzia de bombas. Só que o risco de isso não acontecer sempre foi grande. E, até aqui, não aconteceu.

Já os custos da empreitada, tanto os econômicos como os políticos, vão se acumulando. O eleitor típico de Trump é contra intervenções militares no exterior. Não dá para imaginar o trumpista padrão votando em candidatos democratas, mas ele pode simplesmente não votar em novembro.

Já o eleitor independente tende a irritar-se com o aumento da inflação desencadeado pela guerra. E, irritado, são grandes as chances de ele responsabilizar os republicanos, o partido que está no poder, pela dor em seu bolso.

Interessa a Trump reduzir danos e encerrar o conflito o quanto antes, o que ele parece estar empenhado em fazer. Em Israel, é diferente. Lá, a guerra é popular. A maioria dos israelenses vê o Irã como uma ameaça existencial. Os aiatolás não apenas prometiam varrer Israel do mapa como ainda armavam e treinavam o Hamas e o Hezbollah, os outros dois principais inimigos do Estado judeu.

Para Netanyahu, que precisa fazer eleições até outubro, uma vitória insofismável sobre a teocracia talvez seja a única forma de manter-se no poder.

Uma parte importante do eleitorado irá responsabilizá-lo pelas falhas de segurança que possibilitaram o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023. Para compensar isso, ele precisará de uma conquista histórica. E, vale frisar, manter o emprego de premiê é o que o afasta da cadeia, já que responde a três processo por corrupção.

Netanyahu de algum modo convenceu Trump a entrar nessa guerra. Vamos ver se Trump agora consegue segurar o primeiro-ministro israelense.

 

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