quarta-feira, 6 de maio de 2026

Lula e o 'sistema', por Vera Magalhães

O Globo

Ao buscar justificativa para derrotas e pesquisas adversas, presidente replica discurso perigoso que tem fragilizado instituições

A grande surpresa do longo e pouco empolgante pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão gasto quanto capcioso para tentar explicar as recentes derrotas no Congresso e a dificuldade de implementar sua agenda de governo: na falta de outra justificativa, o presidente resolveu culpar o “sistema”.

Não dá para colocar na conta de um desabafo circunstancial tamanha inflexão política e retórica. Afinal, se há um político que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é Luiz Inácio Lula da Silva. Ele refundou um sindicato, fundou uma central sindical, depois um partido, foi candidato em quase todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, foi deputado constituinte… Na última campanha, fez um apelo justamente ao “sistema”, encampando a defesa de instituições que haviam sido atacadas, perseguidas ou enfraquecidas por Jair Bolsonaro.

No cenário internacional, Lula tem tentado se diferenciar de Donald Trump e similares ao pregar o fortalecimento de organismos multilaterais, justamente o “sistema” erigido após a Segunda Guerra Mundial para reconstruir a governança global e reconfigurar as relações entre países e blocos geopolíticos.

Tudo o que o PT e a esquerda vêm denunciando nas últimas eleições é o risco de fatias cada vez maiores do eleitorado serem seduzidas por discursos que pregam a redução drástica do Estado e dos impostos ou soluções fáceis e baseadas na apologia do individualismo, justamente por parte daqueles aventureiros que usam a lábia “antissistema” com forte apelo nas redes sociais.

Portanto, cabe entender que sistema é esse de que Lula se queixa por não deixá-lo governar. Suas recentes derrotas graves no Congresso se devem ao fato de, além de não ter conseguido eleger coalizão majoritária, ter perdido apoio ao longo dos anos, por uma ruptura cada vez maior entre sua agenda e a do Parlamento.

Isso pode até incomodar Lula, mas atribuir um dos pilares de qualquer democracia — a divisão de Poderes e o papel do Legislativo como parte da tomada de decisões — a um complô de um sistema obscuro é simplificador e denota enorme vazio de ideias e de capacidade de reação por parte dele.

O outro pilar da democracia é o voto, e as pesquisas mostram que Lula ainda lidera, mas enfrenta enormes dificuldades na busca do quarto mandato. Começar, a cinco meses da eleição, a enxergar fantasmas para explicar o humor do eleitor não é nem de longe um caminho de fortalecimento da institucionalidade. Basta lembrar que o último presidente que se vendeu como antissistema, e trabalhou de fato para levar o arcabouço institucional ao colapso, chegou a colocar em dúvida a lisura das eleições.

A falta de governabilidade de Lula tem várias razões, todas elas concretas: o descasamento de sua vitória e da escolha de Câmara e Senado predominantemente conservadores, a ineficiência da articulação política montada pelo próprio Lula, sua capitulação diante do deslocamento de poder do Executivo ao Legislativo graças às emendas, a arrogância de achar que poderia enfiar um nome como Jorge Messias goela abaixo de um Senado com esse perfil, e por aí vai.

O presidencialismo de coalizão implica negociação constante com um Congresso cada vez mais fragmentado. A dificuldade não é nova nem exclusiva deste mandato, mas tende a ser crescente. Nos mandatos anteriores, Lula operou com habilidade dentro desse mesmo “sistema” e terminou seu segundo governo com níveis recordes de aprovação, superiores a 80%.

As principais mudanças desde então foram, além da farra das emendas, o deslocamento da mobilização política das ruas e sindicatos para as redes sociais e a guinada conservadora da sociedade brasileira. Lidar com essas variáveis é o que se espera de qualquer um que deseje comandar o país e inseri-lo num mundo igualmente sujeito a essas condições.

Ao se colocar como vítima de “forças ocultas” que não o deixam entregar resultados, Lula acaba investindo contra a política formal em que foi forjado e prosperou. Dos vários sinais de enfraquecimento que vem dando, esse é um dos mais notáveis.

 

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