Folha de S. Paulo
Crise resulta do entrelaçamento de questões
individuais e institucionais
Sair dela exige justamente a separação
radical dessas duas dimensões
A crise do Supremo opera em dois níveis distintos. O primeiro envolve indivíduos: conflito de interesses, violações de decoro, suspeitas de corrupção. Há aqui um contínuo que vai de "pecadillos" antirrepublicanos a denúncias graves. O segundo nível é mais profundo: diz respeito à instituição enquanto tal. Aqui já não se trata apenas de condutas pessoais, mas de seu padrão de atuação e relação com os demais Poderes.
Hoje é possível identificar três grandes
classes de problemas associadas à degradação desse padrão. A primeira é o
excepcionalismo processual (erosão de garantias tradicionais do devido processo,
por exemplo no inquérito das fake news). A segunda diz respeito a desvios na
defesa da democracia (punitivismo político, liberdade de expressão). A terceira
envolve o hiperprotagonismo político do Judiciário.
O PL da Dosimetria respondeu parcialmente a
uma dessas dimensões: a questão do punitivismo (penas excessivas). De certo
modo, parte do sistema político procurou reduzir a intensidade do conflito.
Sim, ministros do próprio Supremo reconheceram publicamente possíveis exageros na
cumulatividade de tipos penais e na severidade de determinadas punições. Moraes está
dobrando a aposta?
Mas justamente por isso o centro da
controvérsia irá se deslocar para o
inquérito das fake news e para a expansão da jurisdição
criminal da corte sobre o debate público, a contestação política e o novo
protagonismo imperial do Supremo. O problema decisivo já não é apenas
"quanto punir", mas quais são os limites institucionais da
excepcionalidade.
O ponto central, contudo, é que a resolução
dos desvios individuais e a da crise institucional da corte encontram-se
profundamente entrelaçadas. E esse entrelaçamento não é acidental: ele é
permanentemente reivindicado tanto por ministros diretamente atingidos pelas acusações
quanto pelos adversários mais radicais do governo atual que apoiaram medidas de
ruptura institucional. A Lava Jato e atos e decisões de "Xandão"
converteram-se em biombos retóricos.
O dilema é que a saída da crise exige
justamente a separação radical dessas duas dimensões. Problemas ligados à
conduta individual de magistrados precisam ser tratados como questões de
responsabilização individual. Já os dilemas relativos à defesa da democracia,
ao alcance do poder judicial e aos limites da excepcionalidade devem ser
enfrentados como questões institucionais e constitucionais. Misturar ambos
produz um efeito corrosivo: qualquer crítica institucional é percebida como
ataque pessoal; e qualquer investigação envolvendo ministros converte-se em
disputa sobre a sobrevivência da democracia. Até a atuação
do ministro Fachin é marcada pela ambiguidade autossabotadora:
ora é defesa corporativa, ora é defesa individual de ministro.
O problema é que o próprio inquérito das fake
news nasceu dessa fusão originária entre as duas ordens de questões. Sua
instauração esteve ligada a ameaças contra a corte e a ministros
individualmente, num contexto em que denúncias envolvendo nomes do Supremo
apareciam associadas a planilhas da Odebrecht. Desde a origem confundiram-se
proteção institucional da democracia, graves desvios individuais e uso de
instrumentos excepcionais de investigação. Eis o dilema.

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