domingo, 10 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pluralismo é crítico para as universidades

Por O Globo

Professores reagem à intolerância e ao radicalismo com manifesto em defesa da liberdade acadêmica

Universidades deveriam ser espaços abertos ao pensamento livre, ao debate de ideias, à convivência entre diferentes visões políticas, ideológicas, religiosas ou de comportamento. Infelizmente, não é o que se tem visto no Brasil. Em vez de abrirem as portas a divergências e discussões produtivas, as instituições de ensino superior — em especial as públicas — têm se fechado como redutos de radicalismo, intolerância, censura e pensamento único. Por isso foi um sopro de sensatez o manifesto divulgado por um grupo de docentes e pesquisadores de diferentes partes do país em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica.

Manifestações e críticas são frequentes no ambiente universitário. Devem ser não apenas toleradas, mas encorajadas, desde que transcorram em clima pacífico e respeitoso. Não é o caso dos sucessivos episódios de cancelamento de eventos, abaixo-assinado contra professores e pesquisadores, boicote a aulas, campanhas sórdidas em redes sociais, intimidação a palestrantes e até agressão física. Está em xeque a própria essência da universidade: acolher todas as correntes de pensamento.

Gonet e o canto das sereias no Master, por Thiago Bronzatto*

O Globo

A dúvida que ainda paira é se ele estará disposto a escalar as apurações em Brasília

Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na “Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o chefe do Ministério Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu propósito?

Relógio conta as horas para Ciro, por Míriam Leitão

O Globo

Voltou-se contra Ciro Nogueira o “tic tac” que ele usava contra a esquerda. Caso Master o atingiu e afundou planos de Flávio Bolsonaro de tê-lo na vice

O senador Ciro Nogueira quando era ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, naquela administração que preparava um golpe de Estado, começou a postar nas redes sociais uma mensagem enigmática imitando o som de um relógio. Tic, tac, tic, tac. Não se sabe tudo o que ele queria dizer com essa contagem do tempo. Agora, o relógio corre contra ele. Os indícios apresentados pela Polícia Federal, retirados do celular de Daniel Vorcaro, são robustos o suficiente para sustentar que Ciro recebeu vantagens indevidas e em troca usou seu mandato para lançar uma “bomba atômica” a favor do banqueiro.

Esperteza que pode engolir Cláudio Castro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio abriu caminho para desembargador promover devassa em sua gestão

A lição costumava ser repetida por políticos mineiros da velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono.

Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar a renúncia do vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho ao presidente da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na cadeira de governador.

O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.

Cabo de guerra, por Dorrit Harazim

O Globo

Os dois lados sabem que devem esperar o esgotamento gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário

A palavra hormuz deriva do nome de uma divindade suprema da Pérsia antiga, portadora de sabedoria, luz e bondade. Em tradução reducionista, “Senhor da Sabedoria”. No contexto da guerra desencadeada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, é difícil encontrar qualquer vestígio dessas virtudes no estrangulamento duplo do Estreito de Ormuz. Tanto para o presidente americano Donald Trump como para o que restou da liderança decapitada do Irã, trata-se de uma guerra de usura — vence quem aguentar mais tempo o custoso fechamento do Estreito.

Oficialmente, continua em vigor um esquisitíssimo cessar-fogo assinado em 8 de abril passado. Suas duas semanas de validade, inicialmente previstas para reavaliação de parte a parte, já não têm prazo para acabar. É nesse ínterim poroso de violações pelos dois lados que se desenrola o atual cabo de guerra.

O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O avanço das apurações do caso Master produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. É um dos líderes mais influentes do Centrão

“Pelas ruas vis deve passar um homem que não seja ele próprio vil, que não esteja maculado nem tenha medo. O detetive, nessa espécie de história, deve ser esse homem. Ele é o herói; ele é tudo. Deve ser um homem completo, um homem comum e, contudo, um homem incomum. Deve ser, para usar uma frase já bastante gasta, um homem de honra — por instinto, inevitavelmente, sem pensar nisso, e certamente sem dizê-lo. Deve ser o melhor homem de seu mundo e suficientemente bom para qualquer mundo.”

Essa passagem do ensaio literário A simples arte de matar (“The Simple Art of Murder”), de Raymond Chandler (LPM), é a melhor definição do herói noir dos romances policiais norte-americanos. O homem solitário, moralmente íntegro, mas mergulhado num mundo corrompido, no qual a fronteira entre crime e legalidade se tornou nebulosa. O herói atravessa uma sociedade decadente sem ilusões sobre justiça ou pureza como um Ulysses da sarjeta.

Faltam seis meses para a eleição. E aí? Por Daniel A. de Azevedo*

Correio Braziliense

As coisas mudaram, mas nossas reflexões muitas vezes permanecem presas a lógicas do passado. É hora de encarar a eleição de 2026 como o fenômeno novo que ela realmente é

A seis meses das eleições, é preciso compreender que o pleito de 2026 não é apenas mais um capítulo na nossa cronologia democrática. Embora possa parecer um processo rotineiro, o contexto atual é inédito. O mundo político pós-pandemia não é o mesmo, apesar de insistirmos em olhá-lo como uma continuação óbvia do passado. Isso é um fato para todo o mundo, e o Brasil não é exceção. Para decifrar o que nos espera em outubro, proponho três pontos de observação essenciais.

Em primeiro lugar, destaca-se a diversidade do campo político. A ciência política descreveu, por muito tempo, a existência de uma "direita envergonhada" no Brasil pós-redemocratização. Nos anos de 1990, poucos candidatos assumiam tal posição política, temendo a associação imediata com o período iniciado em 1964. Éramos um país de esquerda e de um vasto centro; a própria esquerda hoje deve olhar com nostalgia para a época em que rotulava Fernando Henrique Cardoso — um social-democrata — como a face da direita brasileira.

A verdade encontra um caminho, por Ana Dubeux

Correio Braziliense

A desinformação é considerada o mal maior deste século. Mas existe um porém: em algum momento, a verdade se estabelece. Ela encontra caminhos e normalmente eles são institucionais.

A desinformação é considerada o mal maior deste século. Porque ela pode decidir eleições, destruir a democracia, matar pessoas. A IA generativa eleva o risco a uma potência extrema, até incalculável. O uso de inteligência artificial para criar conteúdos falsos cresceu 308% entre 2024 e 2025, segundo dados da Agência Lupa. Estamos na véspera de uma campanha eleitoral mais uma vez polarizada, e as fake news serão fermento para a animosidade. 

Segundo o DataSenado, cerca de 70% dos brasileiros afirmam ter visto notícias falsas recentemente e 91% da população acredita que as fake news representam um perigo real para a sociedade. Ou seja, estamos todos preocupados.

Dinheiro, direito e política, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos

A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia é o título do livro de Joaquim Falcão, prestes a ser publicado. Foi Falcão quem me presenteou, anos atrás, com How Democratic is the American Constitution?, livro de Robert Dahl, um dos mais influentes cientistas políticos norte-americanos no século 20, falecido em 2014. Nessa obra, Dahl formula uma pergunta que considera tão relevante quanto assustadora: “Será que os Poderes constitucionais dos Estados, do governo federal e dos três ramos principais deste último são apropriados para as nossas necessidades e valores democráticos de hoje?”

Dahl lembra que direitos implicam deveres e também oportunidades: o que significaria liberdade de expressão se não houvesse oportunidade de se manifestar livremente? E acrescenta um quarto elemento: os recursos para o exercício de direitos e oportunidades (e deveres), cujo caráter indispensável o autor ilustra ao auxílio de cenário ficcional.

Economia fraca amplia desgaste de Lula, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Humor dos cidadãos poderá melhorar se houver condições para juros menores

Boa notícia para a direita e para o précandidato Flávio Bolsonaro: o mau humor dos cidadãos impõe ao presidente Lula um desafio singular. A redução da popularidade presidencial contrasta com alguns dos principais indicadores econômicos. O desemprego de 6,1% no primeiro trimestre foi o menor para esse período na série iniciada em 2012. O ganho médio mensal dos brasileiros em 2025, R$ 3.367,00, foi 5,4% maior do que o do ano anterior. O bolo dos ganhos também foi recorde. A massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, R$ 361,7 bilhões no ano passado, foi a maior da série, superando por 7,5% a de 2024 e por 23,5% a de 2019.

Lula e Trump dominam teatro político, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Uma semana antes de visitar Xi Jinping em Pequim, Donald Trump se reuniu com Lula. Embora fosse um pedido antigo do Brasil, a reunião foi marcada às pressas. Não havia agenda preparada com antecedência pelos diplomatas dos dois lados. A substância dos assuntos não era importante. Para Trump e Lula, a reunião bastava.

Por isso ela foi um sucesso: as muitas divergências não foram endereçadas. Cada um disse o que quis, sem contestação. Os assuntos foram lançados, sem um objetivo que não a simples ocorrência de uma conversa longa e amistosa.

O quase monopólio da China sobre minerais críticos fragiliza os EUA. A guerra contra o Irã agravou a situação. O Pentágono informou em sessões sigilosas com integrantes das Comissões de Defesa da Câmara e do Senado que consumiu metade dos seus mísseis mais sofisticados – Tomahawk, Atacms, Thaad e Patriot.

Só a pizza salva Flávio, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se investigação que pegou Ciro Nogueira se estender, vida do filho de Bolsonaro deve ficar difícil

Bolsonaristas querem salvar a si mesmos e a aliados de direita, mas que mão pesada caia sobre Moraes

Segundo a Polícia FederalCiro Nogueira (PP-PI), que Flávio Bolsonaro já considerou vice dos sonhos por sua fidelidade a Jair Bolsonaro quando foi seu ministro da Casa Civil, é ladrão. Ciro recebeu dinheiro do Banco Master para apresentar um projeto de emenda à Constituição que teria dado sobrevida à ciranda do Master, com custos incalculáveis para a economia brasileira.

Se você costuma ler essa coluna, já sabe de que projeto se trata. É a emenda 11 à PEC 65/2023, que é assunto aqui quase toda semana. Segundo a PF, ela foi escrita no Banco Master e entregue a Ciro em um envelope para ser apresentada ao Congresso.

Silêncio de peixe fora d'água, por Muniz Sodré

Por Folha de S. Paulo

Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de 'moderado'

Se desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador

"Peixe morre pela boca" é velho ditado com aplicações novas na vida política. Disso é ilustrativo Bolsonaro 2.0, Flávio, filho 01 do ex-presidente encarcerado. Candidato à Presidência da República por mérito digital, logo, críptico, evita falar sobre programa político. Há razões, segundo o irmão 03: "Ele morde a isca com mais facilidade do que lambari em anzol de mosquito". Uma arrelia de quem pesca em águas turvas.

Fazendo e desfazendo a Constituição, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro conta a história da Carta dos EUA, que se destinava a regular o uso de terras

Adaptabilidade é ao mesmo tempo o ponto forte e a vulnerabilidade da Carta

Uma boa pedida para quem quer entender melhor o que acontece nos EUA é "The Making & Breaking of the American Constitution", do historiador Mark Peterson (Yale). Para Peterson, constituições são métodos para administrar a riqueza de um país, daí que ele começa sua obra sobre a história constitucional americana com a batalha de Hastings na Inglaterra de 1066. Gerir riqueza, tanto na Inglaterra do século 11 quanto nos EUA do 18, era regular o uso das terras agricultáveis.

É mito achar que delações fazem Brasília tremer, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Quem sabe o que fez no verão passado não se aflige. Antes, atua para escapar dos infortúnios do amanhã

A corrida é para ver quem cruza primeiro a linha de chegada: se investigados ou investigadores

Há algo de mito, daqueles que facilitam o raciocínio, na história de que Brasília "treme" a cada expectativa de delação premiada de investigados presos.

O pessoal que sabe o que fez em verões e invernos passados não perde o sono nem tempo com aflições comuns aos inocentes. Trata mesmo é de se mexer para encontrar um jeito de escapar dos infortúnios do porvir.

Fuzil de olhos verdes, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Carmen Miranda serviu, sim, à Política da Boa Vizinhança. Ela e dezenas de astros americanos

Ao se apresentar para os soldados nos quartéis, ela era o Brasil lutando pela causa da liberdade

Em coluna recente (22/4), tentei desmentir a história repetida à exaustão de que Carmen Miranda foi para os EUA em 1939 nas asas da Política da Boa Vizinhança, uma arma americana na Segunda Guerra. Demonstrei que, naquele ano, a famigerada política ainda não estava em operação, que os EUA sequer tinham entrado na guerra (o que só aconteceria em dezembro de 1941) e que a guerra nem mesmo começara. Carmen foi contratada por seu talento e pelo dinheiro que renderia para o megaempresário dos teatros, Lee Shubert. A Broadway, então uma operação doméstica, exclusivamente nova-iorquina, não tinha o menor interesse pela guerra.

Poesia | Viva o dia das mães! - Para Sempre, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Mãe, Meu Fado