sábado, 9 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Senado não pode ser omisso ante provas contra Ciro

Por O Globo

Senador deve ter oportunidade de se defender no Conselho de Ética, mas cassação parece desfecho provável

As provas colhidas pela Polícia Federal (PF) sobre as relações entre o senador pelo Piauí Ciro Nogueira, presidente do Progressistas (PP), e Daniel Vorcaro, do Banco Master, são eloquentes. O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado não pode fechar os olhos às evidências. É imperativo conceder a Ciro amplo direito à defesa — na Justiça e no Conselho. Ele afirmou que não renunciará ao mandato e, em nota, classificou a operação da PF como “tentativa de manchar sua honra”. Mas o Parlamento tem o dever de agir em nome da preservação do decoro. Com base nos fatos disponíveis, sua cassação parece o desfecho provável. Por ora, ele deveria afastar-se ou ser afastado temporariamente do mandato para se concentrar na própria defesa, sem prejuízo de voltar ao Senado se for inocentado.

Estranhos tempos mórbidos, por Roberto Amaral*

“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”
Millôr Fernandes


Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.

São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.

Garantir a mamata do clã é único projeto de Flávio Bolsonaro, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Primeira mulher de Jair, Rogéria mira o Senado, como Michelle

Num eventual governo, Eduardo e Carlos vão povoar o Palácio do Planalto

Flávio Bolsonaro se prepara para dar um peteleco em Cláudio Castro. Condenado no TSE por abuso de poder político e econômico e tornado inelegível, mas insistindo em concorrer ao Senado, Castro viu despencar sua aprovação como governador do Rio de Janeiro, segundo a Quaest. Passou de 53% em outubro —mês em que ocorreu a matança nos complexos da Penha e do Alemão— para 35%. Entre os entrevistados, 47% rejeitam sua administração.

Depois de Ciro, o medo de ser o próximo, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidente do PP foi o anfitrião de Vorcaro no Congresso

Senadores evitam se pronunciar por medo de provocar guerra contra líder de partido poderoso

O celular de Ciro Nogueira toca. O nome de Daniel Vorcaro aparece na tela iluminada do aparelho e a reportagem da Folha, que entrevistava o presidente do PP, flagra a ligação.

Era abril de 2025, e o senador tinha apresentado, apenas cinco dias após o anúncio da compra do Master pelo BRB, proposta para aumentar a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) dos bancos.

O aumento valeria exclusivamente para as instituições financeiras com maior lucro, os bancões. A emenda foi apresentada ao projeto do Executivo que isentava o IR para quem ganha até R$ 5.000 —a proposta mais importante para Lula.

Dinheiros degradados, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Brasil insiste em piorar uma das principais invenções humanas, a moeda que é o meio de troca universal

Vales refeição e FGTS são formas pioradas de dinheiro que só beneficiam lobbies específicos

dinheiro é uma das mais importantes invenções da humanidade. Ele pode ser descrito como uma realidade imaginária, abstrata e contável, que funciona como meio de troca universal, com o qual todos os membros de uma sociedade podem intercambiar as coisas que produzem e os serviços que prestam por aqueles de que têm necessidade.

Sem o dinheiro como intermediário, se eu quisesse levar um filé para o jantar da família, teria de encontrar um pecuarista ansioso para adquirir colunas de jornal, o que quase certamente me condenaria à inanição. A economia tem uma escala com a existência desse meio de troca e teria outra se dependêssemos só do escambo.

Política e negócios, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O escândalo Master é o retrato bem desenhado das relações do mundo econômico com a política no Brasil. Se for levada às últimas consequências, a investigação desmontará biografias na direita e na esquerda

Ciro Nogueira, presidente do Progressista, senador pelo Piauí, chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, entre agosto de 2021 e dezembro de 2022, expoente do Centrão, estava no bolso de Daniel Vorcaro. Recebia mesada de R$ 300 mil (R$ 500 mil?) para ajustar os interesses do banco ao processo político. Foi ele o autor de projeto de emenda — não aprovado — elevando de R$ 250 mil para um milhão a responsabilidade do Fundo Garantidor de Créditos, o que daria mais folga para o banco continuar a vender títulos falsos, cujo prejuízo seria coberto por outras instituições financeiras. Uma esperteza bancária, coberta por esperteza político-partidário. E tudo isso tem valor. O representante do Piauí cobrou caro, mas foi desmascarado pela Polícia Federal. Está na mira do Supremo Tribunal Federal.

Treze de Maio, passado e presente, por Jorge Santana*

Correio Braziliense

O quilombo Família Thomaz, na cidade Treze de Maio, em Santa Catarina, é categórico em revelar o quanto os negros foram apagados, ilegalmente expropriados de suas terras e vítimas de racismo.

Em uma audiência do Supremo Tribunal Federal (STF) que tinha como pauta a inconstitucionalidade de lei estadual que pôs fim às políticas de ações afirmativas em Santa Catarina, o governo de Jorginho Melo (PL) defende tal descalabro alegando que o estado catarinense tem a maior população branca entre todos os estados — portanto, não necessita de políticas afirmativas destinadas às pessoas negras e indígenas. A lei do fim das cotas raciais foi aprovada no ano passado e sancionada em 2026, provocando diversas críticas.

Pós-Ciro, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Ciro Nogueira está – ou estava – entre os cinco políticos mais poderosos do Brasil. Presidente do PP, líder da (até ontem) cobiçadíssima federação União Progressista; e ex-ministro de Bolsonaro, responsável pelo apaziguamento das relações daquele governo com o Parlamento, conquista decorrente da formulação-execução do orçamento secreto, de que é um dos senhores. Com Davi Alcolumbre.

Você decidirá se se trata de coincidência ou causalidade. A Operação Compliance Zero, da PF, chegou ao Senado na semana seguinte à derrota infligida ao governo Lula por aquela Casa. De acordo com a versão mais influente no debate público, Alcolumbre e galera teriam vencido também o ministro André Mendonça, militante por Jorge Messias, relator do caso Master no STF e, pois, o que autorizou a ação contra Ciro. Evento que inaugura a chegada previsível da polícia – das investigações sobre o “elefante pintado de azul” de Daniel Vorcaro, que circulava invisivelmente pela Esplanada – ao Congresso.

O mundo entre dois imperadores, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Nunca houve uma rivalidade entre duas potências com tamanha interdependência

A Guerra do Peloponeso talvez ensine algo desconfortável ao século XXI: o crescimento econômico de uma potência pode gerar medo suficiente para transformar comércio e convivência em rivalidade estratégica. Enquanto Atenas crescia, comerciava e enriquecia, Esparta observava. Até que o avanço de uma passou a alterar o equilíbrio do mundo grego. A história raramente se repete. Mas grandes disputas entre potências quase sempre acabam misturando comércio e poder.

Lula, candidato, tem plano B em curso, por Thaís Oyama

O Globo

Três nomes já foram testados como eventuais substitutos nas urnas: Fernando Haddad, Camilo Santana e Geraldo Alckmin

‘Não decidi se vou ser candidato ainda.’ A frase, dita por Lula em entrevista ao ICL News em abril, foi lida menos como expressão de autêntica indecisão do presidente do que como queixume decorrente de suas muitas insatisfações. Lula, segundo repetem os que convivem com ele, está “frustrado” com a resposta do eleitorado ao seu governo. Reclama ainda da imprensa, que não divulga seus feitos, e do PT, que não está empenhado na briga com gana proporcional ao risco da disputa. A declaração de abril ficaria, assim, num ponto intermediário entre a ameaça e o chamado às armas — uma tentativa de Lula de sacudir a própria campanha. Expoentes do governo e do PT, porém, não estão dispostos a ser pegos de calças curtas. Nos laboratórios de Sidônio Palmeira, ministro da Secom, três nomes já foram testados como eventuais substitutos de Lula nas urnas: o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o ex-ministro da Educação Camilo Santana, e o vice-presidente, Geraldo Alckmin.

A falta que faz um sinal de ironia, por Eduardo Affonso

O Globo

Ironizei a anacrônica e oportunista apropriação que correntes ideológicas antagônicas fazem do cristianismo

Há alguns anos, Joel Pinheiro da Fonseca escreveu, num artigo sobre a quem interessa a liberdade de expressão irrestrita:

— Poderíamos formar algo como um comitê de notáveis, apenas com referências indiscutíveis das ciências (exatas, biológicas e humanas), com a devida representatividade de todas as minorias sociais, para julgar previamente artigos, podcasts ou vídeos que possam ter conteúdo problemático. É isso ou a barbárie.

Apanhou feio de quem não percebeu a ironia. Mas o pior foi ter recebido apoio dos que já acreditam em tanto absurdo que um a mais, um a menos não faria diferença.

Casa Branca S.A. Por Jamil Chade

CartaCapital

Donald Trump transforma o exercício do segundo mandato em uma extensão dos negócios da família & amigos

De bíblias personalizadas a criptomoedas, sem falar nos acordos imobiliários em zonas de guerra, terras-raras, contratos de obras na Europa e dezenas de esquemas de supostas doações, Donald Trump transformou a Casa Branca em uma máquina de fazer dinheiro. Para si, para a família e para os amigos. Em recente levantamento, o jornal The New York Times contabilizou o tamanho da fortuna extra acumulada pelo republicano desde o retorno à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro do ano passado: 1,4 bilhão de dólares.

Dupla derrota para a democracia, por Pedro Serrano

CartaCapital

Na rejeição a Messias e na derrubada do veto ao PL da Dosimetria o Congresso impôs medidas de exceção

Em apenas 24 horas, dois novos e tristes capítulos que atentam contra a democracia foram escritos pelo nosso Legislativo. Dois atos autoritários, imperiais, cujos executores tentam vestir de normalidade institucional, mediante argumentos de inexistente sustentação legal.

No primeiro, ao negar a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, vimos o Senado exercer um papel que cabe ao Executivo. Um dia depois, o Congresso derrubou o veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria, caracterizando a intenção de substituir o Judiciário em seu juízo de Justiça.

Esperança e mudança, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Um documento do velho PMDB sobre o futuro do País continua atual

Em 21 de abril, data dedicada a homenagear o brasileiro ­Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o editorial da Folha de S. Paulo disparou objurgatórias ao Partido dos Trabalhadores. Escolhi um parágrafo que trata do ­impeachment de Dilma Rousseff: “…Os petistas atribuem os desmandos comprovados do passado a conspirações e reafirmam o pensamento econômico estatista e intervencionista que produziu o desastre de dez anos atrás. Ainda que hoje seja mais difícil dar concretude às mesmas ideias equivocadas, não espanta que o País ainda esteja às voltas com a ruína orçamentária legada por Dilma Rousseff”.

O parlamentarismo inconcluso, por Marcus Pestana

Em 1988, coroamos o processo de redemocratização do país. Foi uma transição peculiar: negociada, pacífica, original e longa. A travessia percorrida iniciou-se com a Lei da Anistia, passou pela vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, culminando com as eleições diretas para presidente da República. Mas o ápice, dos dez longos anos de transição, foi a promulgação do novo texto constitucional, apelidado por Ulysses Guimarães de “Constituição Cidadã”.

O texto consolidou direitos democráticos individuais e coletivos, organizou os poderes da República, ampliou direitos sociais. Um traço inequívoco da nova Constituição é seu espírito parlamentarista. Foi previsto e realizado, em abril de 1993, o plebiscito para que a população escolhesse a forma e o sistema de governo. A República derrotou a Monarquia. O presidencialismo deu uma goleada no parlamentarismo, reafirmando a cultura política dominante no Brasil. Sobreviveu uma contradição: um sistema presidencialista coabitando com um texto constitucional de índole parlamentarista.

A morte cerebral das instituições, por Murillo de Aragão

Veja

A dúvida é se ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje

Não há dúvida de que vivemos tempos estranhos. Mas tampouco existe dúvida de que tudo o que está acontecendo — por mais extravagante que pareça — era mais do que previsível. É a crônica da morte institucional do país. Só que, diferentemente das mortes “morridas”, a morte institucional traz a promessa de uma ressurreição. A dúvida é se as instituições ressuscitarão melhores ou piores do que são hoje.

Que tal a “conhecimentobras”? Por Cristovam Buarque

Veja

Sem educação e cérebros afiados, as terras-raras serão areia

Em 1953, o Brasil criou a Petrobras com o propósito de buscar petróleo escondido nas profundezas do solo, até mesmo sob o mar. A empresa é hoje um dos maiores exemplos mundiais de sucesso na descoberta, extração, refino, transporte e distribuição de óleo e seus derivados. Transformou em riqueza o tesouro negro escondido sob a forma de lama subterrânea. Agora, defende-se a criação da Terrabras, para explorar os minerais usados nos produtos da nova economia de alta tecnologia.

Em busca da humanidade perdida das mães, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Quem é a mãe se não a que tudo faz pelo filho, a que tudo renuncia, o amor mais profundo e especial, aquela disposta a todo sacrifício, aquela que é o lugar de descanso, a fortaleza do cuidado, a que nos preenche de amor e de contentamento?

Estamos na véspera de uma data que mobiliza o comércio e os afetos, o dia das mães. É um momento do ano em que filhos manifestam carinho e prestam homenagens às mulheres responsáveis pelo seu cuidado. Também é um momento em que somos bombardeados com uma profusão de mensagens e simbolismos repetidos que, de alguma forma, mistificam o papel de cuidar desempenhado pelas mulheres, mistificam a figura da mãe, associando-as a capacidades quase sobre-humanas. Longe de nos lisonjear, essa mistificação deveria ser alvo do nosso questionamento mais profundo.

Poesia | A máquina do do mundo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Vidal Assis e Chico Buarque - Mascarada (Elton Medeiros e Zé Keti)