Folha de S. Paulo
Quem sabe o que fez no verão passado não se
aflige. Antes, atua para escapar dos infortúnios do amanhã
A corrida é para ver quem cruza primeiro a
linha de chegada: se investigados ou investigadores
Há algo de mito, daqueles que facilitam o
raciocínio, na história de que Brasília "treme" a cada expectativa de
delação premiada de investigados presos.
O pessoal que sabe o que fez em verões e invernos passados não perde o sono nem tempo com aflições comuns aos inocentes. Trata mesmo é de se mexer para encontrar um jeito de escapar dos infortúnios do porvir.
Nessa hora entram em cena advogados
especializados em cavar situações propensas a nulidades futuras e aparecem
propostas de pactos reformistas com intuito de normalizar as anormalidades. É
assim que funciona: ninguém fica embaixo da cama roendo as unhas. A palavra de
ordem é atividade.
Quando acertos para a contenção da sangria se
avizinham difíceis —como parece ser o caso agora, quando a Polícia
Federal reúne provas que
podem atropelar a delação de Daniel
Vorcaro—, a torcida passa a ser para que a lama se espalhe a ponto
de se validarem versões sobre perseguições do "sistema" de forças
ocultas interessadas em desmoralizar as instituições.
Dessa receita fazem parte as reações
genéricas sem acusações pessoais e que ressaltam a gravidade dos fatos. Pontuam
a necessidade de apuração rigorosa, prescrevem total apoio às investigações e
condenação dos ilícitos porventura cometidos e dos quais, claro, seus autores
estariam muito distantes. Das malfeitorias, inclusive, nunca ouviram falar.
Brasília não treme nem se amofina; Brasília
age em direção à fuga. Procura novas formas de escapar, de contornar o cerco
que desde o mensalão as instâncias e fiscalização fazem sobre as mais variadas
formas de corrupção.
Essa modalidade de crime se sofistica, adota
novas artimanhas, como vemos agora no golpe do Banco Master,
cujos descaminhos ainda estão por ser desvendados.
Os métodos de investigação também se
modernizam: já não dependem só de delatores, prescindem de recibos ou de
grampos telefônicos; as coisas estão no zap e no exibicionismo das redes digitais.
Resta a observar quem cruzará primeiro a
linha de chegada.

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