O Globo
Há a convicção de que não há mais nada de
terrivelmente importante por inventar
A Anthropic publicou em seu site, na última quinta-feira, um ensaio sobre a disputa entre Estados Unidos e China na corrida da inteligência artificial. É, simultaneamente, uma análise da indústria neste momento, uma previsão a respeito do futuro próximo, uma reflexão política — e um aceno, uma bandeira branca, erguida para o governo Donald Trump. No geral, a análise não é surpreendente, apenas repete o que muita gente no Vale do Silício já vem dizendo faz algum tempo. Mas há algo que começa a aparecer de forma consistente: em 2028, chegaremos a um ponto da IA em que ela de alguma forma ultrapassa a capacidade humana. É agora a previsão de Dario Amodei, CEO da Anthropic, mas reafirma o que disse Sam Altman, da OpenAI, e está muito próximo da linha de chegada de Demis Hassabis, o Prêmio Nobel que dirige a IA do Google. (Hassabis, um pouco mais conservador, fala entre 2028 e 2030.)
Ainda assim, a versão dessa IA formidável da
Anthropic é um pouco distinta da proposta por outros do ramo. Na companhia que
desenvolve o Claude, não se fala em superinteligência ou IAG, a inteligência
artificial geral. Eles optam, cautelosamente, por outra metáfora: “um país de
gênios dentro de um data center”. Como se inúmeros cientistas com Prêmio Nobel
estivessem à disposição de qualquer um. A diferença não é sutil. A ideia de um
“país de gênios” não distancia essa IA do futuro da nossa humanidade. Aproxima.
Não sugere uma distopia, um cenário de ficção científica em que uma entidade
digital possa escravizar a humanidade. Aponta para outra ideia, de uma
tecnologia capaz de fazer avançar rapidamente o conhecimento humano, em
particular no campo da ciência. Amodei não pensa em Armagedon, mas numa
ferramenta que cure o câncer, permita a paralíticos que andem, enquanto
redesenha a economia global.
Tem marketing aí. Mas é marketing ancorado em
crença. Amodei é um CEO diferente. Ele vem da física, de onde foi para a
neurociência na Escola de Medicina de Stanford. Primeiro compreendeu o cérebro
humano antes de desenvolver IAs de ponta. Ele próprio liderou a criação da
versão 2.0 do GPT antes de romper com Sam Altman, sair da OpenAI e criar sua
própria companhia. É um tipo intelectual, leitor de filosofia, que de tempos em
tempos publica longos ensaios reflexivos sobre seus riscos e possibilidades. É
um otimista em relação a essa tecnologia, e sua briga com Altman se deu
justamente por diferenças a respeito de como IAs devem ser treinadas. Um otimista
que põe no centro do desenvolvimento dos modelos a preocupação em compreender
como pensam, como desenvolvem seus valores. O nome da empresa, Anthropic, marca
justamente essa preocupação humana. O seu é, de todos os laboratórios de IA, o
que mais publica artigos científicos sobre as descobertas. Das três grandes,
incluindo OpenAI e Google, é a mais transparente.
Existe uma razão para elas convergirem para a
data de 2028. É a convicção de que não há mais nada de terrivelmente importante
por inventar. Avanços ocorrerão, e são necessários, mas já entendemos o caminho
para chegar ao nível humano de inteligência. O que falta é força bruta
computacional. Quem tiver mais data centers, com os chips de ponta, chegará
primeiro. É botar muito computador funcionando 24 horas por dia. A China está
atrás porque os melhores chips ainda são os da Nvidia, uma empresa americana.
Em fevereiro deste ano, o Pentágono rompeu
com a Anthropic, e a Casa Branca proibiu empresas que fornecem ao governo de
usar o Claude. Como quase toda empresa grande, nos Estados Unidos, fornece algo
para o governo, era em essência um banimento. A Justiça suspendeu a ordem em
março por considerá-la abusiva. Esse ensaio da companhia é um endosso para a
política da administração Donald Trump, que limita a exportação de chips para a
China. Pode ser crença e marketing, mas é também um gesto político. O aceno de
uma bandeira branca.
Nas contas da Anthropic, a China está um ano
atrás na corrida. Segue conseguindo treinar seus modelos porque compra chips
por contrabando e usa contas falsas, fingindo-se de ocidentais para operar em data
centers fora do país. Por enquanto, não é o suficiente. O que definirá o
futuro, portanto, é a capacidade americana de impedir esse acesso, ou a chinesa
de burlar as restrições.

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