domingo, 17 de maio de 2026

As forças do atraso não improvisam, por Roberto Amaral*

“O trabalhador vai ter que escolher: menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego” – capitão Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, em discurso na Câmara dos Deputados

É notável, tanto quanto desprezível, o esforço do pensamento conservador brasileiro militando contra a economia nacional e, principalmente, contra qualquer sorte de progresso social. Tudo o que, mesmo remotamente, possa sugerir melhoria das condições de vida das grandes massas é bloqueado por essa corrente retrógada. Ora se diz que a iniciativa é muito cara (por exemplo, a escola pública e o ensino em tempo integral, ou o saneamento básico), ora se diz que é inflacionária — falácia de que foram acusadas, na sua origem, a introdução das férias anuais, lá atrás, e o 13º salário, em 1962, por iniciativa congressual, em lei sancionada pelo presidente João Goulart. 

Os dados brandidos contra essas conquistas sociais revelaram-se meras aleivosias desmentidas pela história. No entanto, seguem sendo arguidas por economistas formados pela tradição deixada por Eugênio Gudin na FGV, ou pela cartilha do monetarismo da Escola de Chicago, envelhecida pelo curso das transformações — agudas e profundas, em alguns aspectos talvez revolucionárias — que vêm moldando o mundo contemporâneo.

Fenômeno óbvio, do qual, todavia, não se dá conta a direita brasileira.

Flávio Bolsonaro ameaça fazer do Brasil um grande Governo do Rio de Janeiro, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ficha corrida da família Bolsonaro tem paralelos com degradações do estado

Operação da PF mostrou relações de bolsonaristas com crimes da Refit

A decadência do Governo do Rio de Janeiro tem quase a idade de Flávio Bolsonaro ou por aí, 45 anos. "Governo", aqui, inclui Executivo, Legislativo e Judiciário. Mas o comando do Estado vive outra onda aguda de caos e corrupção desde a chegada do bolsonarismo ao poder, em 2018, com a eleição do depois impichado Wilson Witzel, que legou ao monturo da política o seu vice, Claudio Castro, reeleito em 2022. O PL, dos Bolsonaro, e comparsas dominam a política local.

Além disso, a ficha corrida dos Bolsonaro tem paralelos com a governança local: associação com milícias, rachadinha de fundos públicos, funcionários fantasmas, nomeação de perversos e lunáticos para altos cargos, tolerância com o terror do Estado (como o das polícias) etc. Se Flávio Bolsonaro for eleito, o Brasil corre o risco de se tornar um grande Governo do Rio de Janeiro.

Direita se desarruma e abre a cena eleitoral, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Desafio do senador é sobreviver até a convenção do PL sem tornar sua candidatura radioativa

Família Bolsonaro pode ter caído na própria arapuca ao obrigar Tarcísio a deixar passar o cavalo selado

A trombada foi feia, obrigou Flávio Bolsonaro (PL) a sair da inércia, levou o PT a acionar a artilharia antes do previsto, escancarou as divergências na direita e pode mudar o rumo da corrida eleitoral.

Em qual direção, ainda não sabemos. Depende do quão perigosas se mostrem as ligações do senador com o esquema de Daniel Vorcaro.

Decerto, temos apenas a comprovação de que sabem muito bem do que vêm falando olheiros qualificados do humor do eleitorado como Felipe Nunes (Quaest), Renato Meireles (Locomotiva), Antônio Lavareda (Ipespe) Murilo Hidalgo (Paraná) e Maurício Moura (Ideia).

Flávio Bolsonaro, irmão de Vorcaro, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Valor de R$ 134 milhões é troco de padaria comparado aos bilhões de dinheiro público que o bolsonarismo deu ao Master

Palavra de ordem 'bolsomaster' peca por excluir o resto da direita do escândalo

Em 16 de novembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou uma mensagem a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Dizia: "Irmão, eu estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente, só preciso que me dê uma luz". A luz, no caso, eram R$ 134 milhões que Vorcaro daria para a realização de "Dark Horse", a cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Vorcaro prometia essa fortuna para Flávio um dia antes de perguntar a Alexandre de Moraes: "Consegue bloquear?"; um dia antes de ser preso tentando fugir do Brasil. Dois dias antes de o Banco Central liquidar o Banco Master.

A revelação foi feita pelo The Intercept Brasil.

O Master prometeu a Flávio Bolsonaro mais do que prometeu ao escritório de Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes. No caso de Xandão, a suspeita é de suborno para livrar Vorcaro da cadeia. Por que a suspeita seria diferente no caso de Flávio Bolsonaro?

Perda de vida dos espaços sociais, por Muniz Sodré*

Folha de S. Paulo

A maior ameaça à vitalidade da cidadania está hoje no caos criminogênico dos clãs cuja tendência é a desvitalização

Com a proximidade das eleições, agudiza-se a preocupação com a saúde da democracia entre nós

Daniel Vorcaro: "Fala irmãozão ro (sic) na igreja, terminando te chamo". Flávio Bolsonaro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!" Nesta troca de mensagens entre o maior fraudador financeiro da história do país e o candidato da ultradireita à Presidência, "luz" tem novo sentido: dinheiro. Mais precisamente, R$ 134 milhões; destes, R$ 61 milhões já haviam sido destinados ao filme sobre Jair Bolsonaro e que, pelo visto, sumiram no caminho. Agora, o rachadão, farisaico: "O que tem demais?"

O Espírito do Tempo, por Elimar Nascimento*

Revista Será?

Os alemães, entre o final do século do Iluminismo e o início do XIX, usavam a expressão zeitgeist[1] para indicar os valores, ideias, sentimentos e percepções dominantes de uma época. O termo refere-se a um contexto específico, com características próprias. Algo próximo ao conceito de episteme, no qual Foucault define o que é pensável e dizível naquele contexto.

O espírito da época ou do tempo não é o resultado de nenhuma decisão particular, nem de um plano de uma organização qualquer, menos ainda de uma intervenção externa; antes, é o resultado de fluxos e dinâmicas que se configuram de forma singular em um determinado momento, em um território povoado por humanos.

As mudanças do espírito do tempo refletem-se nas modificações das linguagens, dos costumes e das leis, nas alterações dos padrões técnicos e econômicos, assim como no conteúdo e nas formas de consumo. São transformações que ocorrem em dimensões distintas, mas todas regidas por uma lógica comum. Elas fazem parte de um sistema único, autoinfluenciam-se e retroalimentam-se. Apontam em uma direção em meio a resistências, pois todo sistema humano é formado por tendências e contratendências. Todo futuro nasce da articulação particular de continuidades e descontinuidades. O rumo dominante não está predefinido; sua regência reside na incerteza, pois todo sistema complexo, como as sociedades humanas, é portador de emergências[2], do surgimento do novo, de disrupções ou “cisnes negros”, como diz Taleb [3].

Há um sentimento de que vivemos um espírito do tempo distinto daquele que imperou durante a segunda metade do século XX. Naquele momento, imaginava-se que o desenvolvimento econômico não tinha limites; que a ciência era a expressão suprema de nosso cérebro; que os direitos humanos eram uma aquisição civilizacional inquestionável; que o Estado de direito era a manifestação mais acabada da sabedoria política e de que o futuro estava ali, à espera de ser moldado por nossas mãos.

Reforma em vez de ruptura, por Hubert Alquéres*

Revista Será?    

São sobejamente conhecidas as mazelas do sistema brasileiro: crise de representação política, baixo crescimento econômico há décadas, serviços públicos de baixa qualidade, corrupção acompanhada de impunidade e persistente incapacidade do Estado de responder com eficiência às demandas da sociedade.

Esse cenário alimenta, há anos, o discurso antissistema, segundo o qual a saída para o país passaria por uma espécie de “refundação” institucional, frequentemente apresentada como superação do arranjo democrático consolidado pela Constituição de 1988.

Comunismo: Uma Metáfora da Ignorância, por Johnny Jara Jaramillo*

Revista Será?

No debate público, certas palavras funcionam como insultos automáticos. Não descrevem nada, não explicam nada, mas servem para encerrar conversas. “Comunismo” é uma delas. Basta pronunciá-la para que alguém faça o sinal da cruz, olhe ao redor procurando fantasmas e comece a falar de Cuba, da Venezuela ou de um primo distante de quem “tiraram tudo”. O comunismo, nesse registro, não é uma teoria nem um horizonte histórico: é uma metáfora do medo e, sobretudo, da ignorância.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crime Organizado e a Política no Brasil

Por Revista Será?

Quando se fala em crime organizado, a primeira imagem costuma estar associada aos dois poderosos grupos criminosos — o PCC e o Comando Vermelho — que controlam cerca de 20% do território nacional, como quase Estados paralelos tomados do Estado brasileiro. Esta é a face mais visível do crime organizado no Brasil, marcada pela escala da violência e pelo domínio territorial.

Mas o Estado brasileiro está contaminado por dentro por diversos grupos criminosos que nem sempre precisam de armas, combinando corrupção, fraudes, troca de favores, lavagem de dinheiro, coerção, extorsão e ameaças. A atuação desses grupos penetra em praticamente todas as instituições da República — na política, no Judiciário e no sistema financeiro — irradiando poder e influência nos núcleos duros do Estado brasileiro.

Poesia | O Correr da Vida, de Guimarães Rosa

 

Música | Moacyr Luz - Vai Passar (Chico Buarque)