Cúpula entre Xi e Trump terá na IA um tema estratégico
Por O Globo
Não há discussão sobre Taiwan ou terras-raras
que possa passar ao largo do futuro da tecnologia
Quando os líderes das duas superpotências globais se reúnem, todo o planeta é afetado. Na agenda do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na China a partir de amanhã, estarão temas inescapáveis, como o tarifaço americano ou a reabertura do Estreito de Ormuz no Oriente Médio. Qualquer consenso em torno dessas pautas teria efeitos econômicos benéficos, em especial o arrefecimento das pressões inflacionárias mundiais. Há também temas de interesse específico para o Brasil, como a possibilidade de, em troca de alívio tarifário, os chineses comprarem mais soja e carne dos americanos, em prejuízo dos brasileiros. E há, por fim, temas estratégicos, com impacto talvez menor no presente imediato, mas relevância maior num futuro não tão distante. É o caso da inteligência artificial (IA).
Como os riscos da IA são superlativos, é
fundamental que os dois países na vanguarda da tecnologia sejam capazes de
mitigá-los por meio de uma cooperação produtiva. Está em aberto quanto Trump e
Xi avançarão na questão. Ela abrange não apenas aspectos abstratos, como o
perigo de armas autônomas ou o efeito insondável da tecnologia no mercado de
trabalho. Há também questões concretas relativas à IA que opõem China e Estados
Unidos.
É o caso das terras-raras e demais minerais
críticos para a transição energética, hoje controlados pela China — sem uma
matriz energética limpa, o processamento colossal de dados necessário para a IA
terá efeitos ambientais intratáveis. Ou da soberania sobre Taiwan, ilha
reivindicada pelos chineses onde são produzidos os chips essenciais para a IA
funcionar. Não há discussão sobre terras-raras ou Taiwan que possa passar ao
largo da tecnologia.
Os benefícios da IA já são palpáveis em
inúmeras atividades e, à medida que empresas americanas e chinesas se aproximam
do ideal (ainda teórico) de sistemas superinteligentes com capacidade superior
à humana — estágio conhecido como IA Geral —, aumentarão ainda mais. Na mesma
proporção, crescem também as preocupações. Os temores estão fundamentados num
fato incontornável: a tecnologia é impenetrável, e é impossível prever quando
tomará decisões nefastas.
As dúvidas têm despertado hesitação entre os
pioneiros da IA. Depois de resistir a cooperar com usos militares da tecnologia,
o CEO da Anthropic, Dario Amodei, restringiu o acesso a seu modelo mais
avançado, o Mythos (sucessor do Claude), a poucas grandes corporações, entre
elas até concorrentes. O Mythos demonstra enorme capacidade de identificar
falhas em programas e poderia explorar como ninguém vulnerabilidades em
sistemas de segurança. Amodei acredita que é preciso testá-lo à exaustão para
evitar o pior.
Diante dos riscos da IA, a cooperação entre
Estados Unidos e China seria bem-vinda. O ideal é haver um acordo que preveja
testes de segurança dos modelos de IA. Outra meta desejável é uma instituição
multilateral para lidar com os riscos, inspirada na Agência Internacional de
Energia Atômica. Talvez seja exigir demais de Trump, que acabou com as tímidas
salvaguardas instauradas pelo governo anterior. Os chineses tampouco têm
mostrado interesse em medidas restritivas e apostam em modelos compactos, de
baixo consumo. Os dois países acreditam que quem chegar primeiro à IA Geral
terá vantagem imbatível sobre o adversário. O perigo é a própria IA Geral se
tornar um adversário imbatível.
É deletéria a politização da decisão da
Anvisa que proibiu detergente Ypê
Por O Globo
Agência independente tomou decisão técnica,
apoiada em critério científico. Cabe ao cidadão respeitá-la
Não faz bem aos brasileiros a politização em
torno da decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
que determinou a suspensão de fabricação, venda e uso de detergentes, sabões
líquidos e desinfetantes de lotes da marca Ypê. A
resolução foi tomada no último dia 7, depois de uma inspeção, em parceria com a
Vigilância Sanitária de São Paulo, identificar descumprimento de etapas
críticas da produção e risco de contaminação na unidade da Química Amparo, em
Amparo (SP).
A empresa reagiu com indignação. Classificou
a decisão como “arbitrária e desproporcional”. Alegou dispor de laudos
independentes comprovando que os produtos são seguros e adequados. Depois de
recurso apresentado pelo fabricante, a Anvisa suspendeu os efeitos da medida
até que o caso seja julgado pela diretoria colegiada na análise prevista para
hoje, mas manteve a recomendação de evitar o uso até o fim da apuração. Mesmo
com a liberação, a Ypê informou manter linhas de produção paradas.
Tanto a decisão da Anvisa quanto a reação da
empresa são normais. Se a fabricante se acha injustiçada, tem direito a
apresentar seus argumentos e pedir reconsideração. O que não é normal é a
dimensão que o caso ganhou, especialmente nas redes sociais. Uma questão que
deveria ser estritamente técnica foi pretexto para novos embates improdutivos
entre direita e esquerda.
A ex-primeira dama Michelle
Bolsonaro, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e o
empresário Luciano Hang (dono
da rede de lojas Havan) defenderam o uso dos produtos, contrariando a
orientação da Anvisa. Em resposta, o ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, afirmou que “a Anvisa não tem lado A ou B” e que o diretor
da área responsável pela suspensão foi indicado durante o governo Jair
Bolsonaro. Afirmou ainda que a desinformação “coloca vidas em risco”.
É fundamental que a política fique fora da
discussão. A questão é se há risco para a população. E, pela avaliação técnica
feita pela Anvisa ao lado de outras instituições, o risco existe até prova em
contrário. Ou até que a empresa tome providências para mitigá-lo. A agência
deve manter a transparência, explicando os motivos que respaldaram a resolução
e afastando qualquer dúvida sobre atuação política. Deve voltar atrás apenas se
julgar que os problemas foram sanados ou se entender que a empresa tem razão.
A Anvisa é uma agência reguladora. Não está subordinada a governos e tem independência para tomar suas decisões. À população, cabe seguir à risca suas orientações, considerando que elas são resultado de critérios objetivos, baseados em evidências científicas, visando a resguardar a saúde e o bem-estar dos brasileiros. Esteja o cidadão à direita ou à esquerda, o mais sensato é respeitá-las.
Plano de última hora para a segurança pública
Por Folha de S. Paulo
Novo programa de Lula corre risco redobrado
de sucumbir à descontinuidade e à desarticulação federativa
Direita pode ter captado melhor os anseios do
eleitorado, mas segue presa ao aumento de penas e a operações espetaculosas,
não raro letais
Não é por falta de planos nacionais que a
segurança pública brasileira vai mal. A depender do critério utilizado, pode-se
contar uma dezena deles desde 2000, quando o governo Fernando
Henrique Cardoso (PSDB)
inaugurou a série com o seu PNSP.
Só neste seu terceiro mandato, Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
já lançou o esquecido Programa de Ação na Segurança (PAS), em 2023, e o Brasil
Contra o Crime
Organizado, que veio à
luz nesta terça-feira (12). Entre um e outro, também mandou ao
Congresso uma proposta de emenda constitucional voltada ao setor e um projeto,
alterado e convertido em lei, para o combate às facções.
Decerto a mais recente iniciativa —anunciada
a poucos meses das eleições para
Presidência da República, Congresso
Nacional, governos e assembleias estaduais— não será a mais
promissora da lista. Mas ao menos Lula terá providências a elencar nos debates
que travará com adversários à direita que farão da segurança sua bandeira.
O tema, sem dúvida, é de alta relevância para
o eleitorado. Em pesquisa feita pelo Datafolha em
dezembro de 2025, 16% dos entrevistados apontaram a segurança como o principal
problema do país, percentual só superado pela saúde (20%).
Em março deste ano, 41% afirmaram notar a
presença do crime organizado no bairro onde vivem, e similares 40%
disseram ter sido vítimas de algum crime nos últimos 12 meses.
Para seu novo plano, a administração petista
promete R$ 1 bilhão do Orçamento federal e mais R$ 10 bilhões em empréstimos do
BNDES aos governos estaduais —valores que não chegam a impressionar perto dos
R$ 143,7 bilhões em benesses já prometidas neste ano eleitoral.
Os quatro eixos principais para a aplicação
dos recursos são corretos: combate ao tráfico de armas, asfixia financeira das
facções, qualificação das investigações de crimes graves e fortalecimento do
sistema prisional. Mas não é por prioridades erradas que os planos para o setor
têm sido pouco eficazes.
Há problemas de continuidade de um governo
para outro e de coordenação entre as ações da administração federal e dos
estados. Tais deficiências são agravadas por divergências ideológicas entre
Lula e os governadores, em grande parte de linha conservadora. Não à toa, a PEC
da Segurança está parada no Senado.
A direita pode ter captado melhor os anseios
do eleitorado nessa seara, mas segue presa a um ideário populista que combina
aumento de penas e operações espetaculosas, não raro letais. A vertente
bolsonarista piora a receita com liberação de armas, corporativismo policial e
defesa da temerária equiparação de facções a grupos terroristas.
Resta esperar que o flagelo imposto por PCC, CV e
congêneres a comunidades inteiras, além de sua infiltração crescente no poder
público e na economia,
por fim leve à superação desses obstáculos políticos e federativos.
Limites para a inteligência artificial nas
escolas
Por Folha de S. Paulo
CNE estipula diretrizes para uso benéfico da
IA e contenção de riscos nos ensinos básico e superior
Texto diferencia quatro níveis de segurança;
é preciso ampliar capacitação de professores e inclusão digital para reduzir
desigualdades
O avanço da inteligência
artificial forçou sistemas de ensino em todo o mundo a se
adaptarem a essa tecnologia.
Reveladora desse movimento é a inclusão da disciplina letramento midiático e em
inteligência artificial na próxima edição do Pisa, exame internacional de
desempenho escolar, em 2029.
No Brasil, uma resolução de 2025 do Conselho
Nacional de Educação
tornou a educação digital e midiática obrigatória a partir
deste ano. Na segunda (11), o órgão estabeleceu diretrizes
para o uso de IA nos ensinos básico e superior por meio da
aprovação de um parecer prévio —que ainda passará por consulta pública.
O CNE faz uma diferenciação necessária entre
as formas de uso. Quanto mais a IA se aproxima de avaliar, vigiar ou decidir o
destino do aluno, maior o risco.
No nível de baixo risco, ela serve de apoio
administrativo e pedagógico, como em organização de materiais, acessibilidade,
revisão de textos sem atribuição de nota e planejamento de aulas.
No risco moderado, a IA interage com alunos,
mas não toma decisões automáticas relevantes, casos de tutores virtuais,
feedback formativo e apoio à escrita.
O alto risco se dá quando é possível afetar
diretamente notas, aprovação ou direitos dos alunos, como em correção
automática de provas, monitoramento biométrico e perfilização de alunos com
base em comportamento, desempenho e frequência.
Por último está o risco excessivo, único
nível proibido: decisões automáticas sobre aprovação ou expulsão, perfilização
para punição e vigilância emocional.
Todos os outros níveis, apesar de permitidos,
precisam seguir exigências específicas, que incluem transparência, segurança da
informação, restrição de uso de dados, revisão humana, avaliação de impacto,
direito de contestação e supervisão contínua.
O parecer também inclui a IA no currículo
para que alunos compreendam o funcionamento da ferramenta por meio de análise
crítica que identifique limites, fragilidades e periculosidade.
Para lidar com as desigualdades entre redes
de ensino, indica-se a necessidade de ampliar a inclusão digital, com adaptação
a especificidades locais e regime de cooperação federativa.
Segundo a TIC Educação de 2025, pesquisa do
Comitê Gestor da Internet no
Brasil, só 54% dos
professores tiveram formação sobre ferramentas digitais. Assim,
ainda é preciso expandir a capacitação da categoria.
No geral, o parecer é bem-vindo, já que promove a tecnologia sem descuidar da integridade do ensino e dos direitos dos alunos.
Políticos de outro planeta
Por O Estado de S. Paulo
Enquanto Lula, seus adversários e o Congresso
disputam votos oferecendo paliativos eleitorais, trabalhadores vivem a
realidade da renda insuficiente, das jornadas múltiplas e das dívidas
O Brasil real vive dias difíceis nas ruas,
nos ônibus e trens lotados, nas motos dos trabalhadores por aplicativo que
cruzam as cidades 24 horas por dia, nas cozinhas de quem vende brigadeiro para
complementar a renda e nos corredores dos supermercados, onde as famílias,
premidas pela carestia, com frequência têm de decidir o que põem ou não no
carrinho. Esse país, contudo, parece invisível para boa parte da chamada classe
política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seus principais adversários
na eleição e uma parcela expressiva do Congresso orbitam um outro planeta,
chamado Brasília, um lugar a anos-luz de distância do cotidiano dos
trabalhadores.
Esse alheamento da realidade fica ainda mais
evidente no debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da
escala de trabalho 6x1. Vendida como garantia de mais descanso, lazer e tempo
com a família, a proposta ignora um dado cruel do mercado de trabalho. Uma
pesquisa Quaest mostrou que nada menos que 84% dos brasileiros têm mais de uma
atividade profissional para complementar a renda. Vale dizer, a esmagadora
maioria dos trabalhadores não terá um dia adicional para brincar com seus
filhos no parque ou simplesmente descansar em casa. Terá um dia a mais para
fazer “bicos”.
Os defensores da PEC fingem ignorar que a
redução forçada do número de horas de trabalho sem aumento correspondente da
produtividade não vai melhorar a condição de vida de ninguém. Não há mágica.
Mais cedo ou mais tarde, os resultados do eventual fim da escala de trabalho
6x1, inevitavelmente, serão salários mais baixos, informalidade crescente e
avanço da precarização do trabalho. Ainda assim, é espantoso como há membros do
governo e parlamentares se acotovelando no Congresso para posar de benfeitores
dos trabalhadores brasileiros. Cai nessa esparrela quem quer.
Ainda segundo a Quaest, 51% dos trabalhadores
relatam sentir cansaço ou emoções negativas, como mostrou o Estadão no domingo
passado. Não é difícil entender por quê. O brasileiro acorda cedo, passa horas
no transporte público, peleja com uma inflação de alimentos renitente, juros
altos no crédito pessoal e serviços públicos não raro precários. Depois dessa
faina diária, ainda precisa se dedicar a “bicos” para mal empatar as contas do
mês.
Lula responde a essa realidade com paliativos
de curtíssimo prazo, de evidentes contornos eleitoreiros. A reedição do
Desenrola, a expansão de crédito fácil, os velhos estímulos setoriais e
programas de incentivo ao consumo vêm embrulhados como grandes políticas
sociais. Mas, a despeito de um certo alívio imediato, está-se criando uma massa
de endividados que mal chegará a 2027 com sua vida reequilibrada. Eis o velho
Lula de sempre, provando, mais uma vez, que quem nasceu palanqueiro jamais será
estadista.
O mais impressionante é que, diante desse
deserto propositivo, a oposição tampouco oferece algo diferente e inspirador. O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), até aqui o principal adversário do petista na
disputa presidencial, pouco ou nada apresenta sobre a degradação do mercado de
trabalho, decerto por absoluta incompetência e desconhecimento. E assim o
debate público permanece prisioneiro das rinhas ideológicas e das escaramuças
nas mídias sociais, enquanto os trabalhadores seguem como meros coadjuvantes de
seu próprio drama.
Como se habitassem outro planeta, políticos
de diferentes cores partidárias falam dos trabalhadores sem conhecê-los. Não
compreendem as mudanças do Brasil e do mundo. Tratam da redução da jornada de
trabalho sem compreender que a maioria dos brasileiros já se vê enredada por
jornadas múltiplas. Oferecem programas de acesso ao crédito sem admitir que boa
parte da população tem se endividado para pagar despesas básicas do dia a dia,
não para comprar uma geladeira nova.
É lamentável essa cegueira coletiva em pleno
ano eleitoral. Não faltam problemas a serem discutidos por gente genuinamente
interessada em construir um Brasil que proporcione vida digna para todos. Mas
Brasília continua debatendo o País como se fosse de uma galáxia distante.
A tarefa de Kassio no TSE
Por O Estado de S. Paulo
A Justiça Eleitoral deve concentrar suas
energias não em limitar o discurso político, e sim em assegurar a
transparência, a confiabilidade e o equilíbrio do processo eleitoral
Ao assumir a presidência do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), o ministro Kassio Nunes Marques herdará uma missão
institucional que vai muito além da organização técnica das eleições de 2026.
Caberá a ele conduzir o processo eleitoral em um país ainda profundamente
polarizado, marcado pelos traumas de 2022 e pelos desdobramentos do 8 de
Janeiro, quando a recusa em aceitar o resultado das urnas ajudou a alimentar a
mais grave crise institucional da democracia brasileira desde a redemocratização.
A próxima eleição presidencial ocorrerá em
ambiente ainda mais tensionado pelo avanço da inteligência artificial, pela
circulação massiva de desinformação e pela fragmentação do debate público nas
redes sociais. Vídeos manipulados, áudios sintéticos e montagens
hiper-realistas certamente terão papel relevante na disputa. Mas, apesar do
peso crescente dessas novas tecnologias, o principal desafio do próximo
presidente do TSE continuará sendo essencialmente político e institucional:
preservar a confiança coletiva no sistema de votação e garantir reconhecimento
legítimo do resultado eleitoral.
A experiência recente demonstrou que a maior
ameaça à estabilidade democrática brasileira não está na urna eletrônica em si,
mas na construção deliberada de discursos destinados a desacreditar previamente
o processo eleitoral. Durante meses, em 2022, setores políticos difundiram
suspeitas sem provas sobre fraude nas urnas, questionaram a lisura da apuração
e incentivaram a percepção de que uma eventual derrota só poderia decorrer de
manipulação institucional.
A erosão contínua da confiança pública no
sistema eleitoral ajudou a produzir um ambiente de radicalização que
desembocaria nos ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes. Não
se tratou de um episódio isolado de vandalismo político, mas da consequência
extrema de uma campanha persistente de deslegitimação das eleições e das
instituições encarregadas de organizá-las.
Embora frequentemente associado ao campo
bolsonarista por ter sido indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo então
presidente Jair Bolsonaro, Kassio Nunes Marques não terá meios de alterar
individualmente a inelegibilidade do ex-presidente, mesmo como relator do caso
de revisão criminal. Ainda assim, segundo revelou reportagem do Estadão, Kassio tem dito a
interlocutores que pretende trabalhar para “despolarizar” o País durante as
campanhas deste ano e enterrar de vez a desconfiança em torno das urnas
eletrônicas.
A intenção faz sentido. Justamente por ter
origem política associada ao bolsonarismo, Kassio talvez disponha de uma
condição singular para reafirmar a credibilidade do sistema eleitoral perante
bolsonaristas que continuam alimentando suspeitas infundadas contra as urnas.
Se conseguir usar sua posição para ajudar a reconstruir consensos mínimos sobre
a legitimidade das eleições, poderá prestar relevante serviço institucional ao
País.
Não cabe ao TSE arbitrar o conteúdo da
disputa política nem assumir a missão, de resto impossível, de eliminar
mentira, manipulação e desinformação do debate público. Campanhas eleitorais
sempre conviveram com boatos, propaganda agressiva e exploração emocional do
eleitorado. A inteligência artificial apenas potencializa um fenômeno antigo.
Além disso, a própria Justiça Eleitoral
enfrenta limitações concretas de estrutura, orçamento e capacidade operacional.
Há dificuldades conhecidas na fiscalização de contas partidárias, no
processamento rápido de ações eleitorais e na logística necessária para
garantir a substituição eficiente de urnas em regiões remotas do País. Em vez
de ampliar indevidamente seu raio de atuação sobre discursos políticos, o
tribunal deveria concentrar energia naquilo que efetivamente sustenta a
estabilidade democrática: eleições seguras, eficiência operacional e confiança
pública no resultado proclamado. É esse trabalho que garantirá o reconhecimento
da legitimidade da eleição de 2026.
Boa iniciativa do Tesouro
Por O Estado de S. Paulo
Em um país com baixo nível de poupança,
Tesouro Reserva amplia as opções do investidor
O Tesouro Nacional acaba de lançar uma nova
opção de investimento, o Tesouro Reserva, que deve disputar a preferência do
investidor com produtos financeiros já tradicionais, como a poupança e os Certificados
de Depósito Bancário (CDBs), e também com modalidades mais recentes, como os
chamados cofrinhos e similares, oferecidos por bancos e fintechs.
Quem tiver a partir de R$ 1 “sobrando” para
investir pode valer-se do Tesouro Reserva, que rende 100% da taxa Selic e
promete liquidez diária, ou seja, permite que o dono dos recursos saque os
valores economizados a qualquer momento, sem perda de rendimentos.
Eis uma vantagem do Reserva em relação à
poupança, a modalidade de investimento criada pelo imperador Dom Pedro II em
1861 e que até hoje é altamente popular, sobretudo na classe média baixa. É
justo que quem mais precisa compor reservas de emergência tenha opções mais
práticas e rentáveis para fazê-lo.
A poupança, ao contrário do novo produto do
Tesouro, cobra um pedágio de quem saca os recursos antes da data-aniversário –
é preciso esperar um mês, a partir do dia de depósito, para obter o rendimento
apurado no período; se o saque é realizado antes da data-aniversário, perde-se
o rendimento daquele mês.
Além disso, a poupança rende apenas 70% da
Selic, mais Taxa Referencial (TR), quando a taxa básica de juros brasileira é
inferior a 8,5%. Já quando a Selic é superior a 8,5%, cenário que já dura anos
no País, a poupança rende 0,5% ao mês mais TR. De modo geral, mesmo sendo
isenta de Imposto de Renda, a poupança rende quase sempre menos que outras
opções.
Por outro lado, produtos que podem render
mais, como os CDBs, estão atrelados a riscos mais altos. O caso do Banco Master
ilustra bem isso. Quem esperava os retornos superiores a 140% prometidos pelo
banco de Daniel Vorcaro e investiu acima de R$ 250 mil em CDBs do Master ficou
sem o rendimento vitaminado e sem restituição do investido acima de R$ 250 mil,
o teto de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
É verdade que o Tesouro Reserva, bem como os
demais produtos do Tesouro Nacional, não conta com a garantia do FGC. Ainda
assim, são vistos como os instrumentos com o menor risco de crédito do Brasil,
já que são garantidos pelo governo federal.
Num país como o nosso, marcado pelos baixos
índices de poupança, a criação de produtos de investimento que equilibram baixo
risco e retorno razoável merece aplauso.
A taxa de poupança interna brasileira, tanto
do governo quanto da população, é de 14,5%, bem inferior à média dos países da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é de 22%.
Mesmo em países mais pobres, como o Paraguai, poupa-se mais que o Brasil.
Mas, apesar de ser uma boa iniciativa, o Tesouro Reserva precisa ser bem divulgado, ou seja, chegar ao conhecimento da população. Também é necessário que a opção de investimento – disponível, por enquanto, só no Banco do Brasil – também apareça nas plataformas dos demais bancos, o que pode ser um desafio, já que os produtos do Tesouro competem fortemente com os do sistema financeiro.
‘Lua de mel’ com capital externo não pode ser
desperdiçada
Por Valor Econômico
O Brasil tem na atual crise uma das moedas
que mais se valorizaram no ano, acompanhado de ótima performance das ações
Os mercados emergentes, Brasil entre eles,
estão enfrentando mais uma crise global — a maior interrupção no fornecimento
do petróleo da história — com bom desempenho, em uma ruptura com o passado que
pode ou não ser provisória. As crises do petróleo anteriores (1973 e 1979) levaram
o Brasil à moratória da dívida externa. A quebra do México, seguida das crises
russa e asiática, sacudiram o mundo emergente, criando um padrão de
turbulências que causaram problemas econômicos domésticos graves e de amplas
consequências. Agora não está sendo assim.
O Brasil tem na atual crise uma das moedas
que mais se valorizaram no ano, acompanhado de ótima performance das ações. O
aumento do risco costuma fazer do canal financeiro um dos principais elementos
de contágio para o país, com desvalorização cambial e saída de capitais. No
momento, o que é inédito, há forte ingresso de divisas para ações e renda fixa.
No ano, são R$ 69 bilhões, ante R$ 25 bilhões de 2025. Pelo Índice IShares MSCI
Brasil, o retorno das ações brasileiras foi de 21,69% no ano, superior aos
8,29% do S&P 500 da Bolsa de Nova York e ao índice global (que exclui os
EUA), de 7,59%. Brasil e vários emergentes têm melhor desempenho na renda
variável que mercados desenvolvidos (Valor,
ontem).
Os países emergentes mudaram e a situação
política e global mudou mais ainda. Além da ascensão da China ao posto de
segunda potência mundial, boa parte dos emergentes fortaleceu suas reservas e
reduziu a dependência externa do financiamento para suas dívidas. O Brasil, até
há pouco um credor líquido (mais reservas que dívidas em dólar), tem US$ 365
bilhões acumulados, suficientes para enfrentar crises de razoáveis proporções.
Além disso, quase nunca teve sua dívida interna com participação expressiva de
títulos em dólar ou grande participação de credores estrangeiros — eles mal
chegam perto de 10% do total dos débitos em moeda local.
A adaptação ao sistema de câmbio flutuante e
de metas de inflação, apesar dos altos e baixos, deu credibilidade ao Banco
Central brasileiro e a outros que seguiram o mesmo caminho, aberto por uma
série de reformas econômicas. Picos de inflação se tornaram menos frequentes e
mais moderados que no passado.
A ruptura dos Estados Unidos com a China, uma
cisão geopolítica que traz grandes transtornos econômicos, e a suspensão da
ordem internacional baseada em regras mudaram o peso dos países em um mundo que
tende a ser multipolar. O Brasil e os emergentes estão sendo reavaliados pelo
que poderiam ser nessa nova ordem.
Diante disso, o Brasil tem sido encarado como
um parceiro comercial previsível e confiável, dois atributos que passaram a ser
agora mais valorizados do que antes. A tradição diplomática mostrou-se um ativo
valioso em um mundo polarizado: o país comercia com todo o mundo e não se
alinha politicamente a ninguém. Os EUA são o segundo parceiro econômico do
Brasil, que tem na China seu maior cliente. Além disso, tem uma posição
invejável na oferta global de commodities vitais: alimentos. É o maior
exportador de soja, carnes bovina e de frango, açúcar, suco de laranja e café.
Nada disso impediu solavancos e crises ao
longo do século, boa parte delas causada por políticas domésticas erradas, mas
com a guerra no Golfo Pérsico o Brasil conta com duas vantagens extraordinárias:
está geograficamente distante dos conflitos e tornou-se exportador líquido de
petróleo (desde 2016), caminhando para se tornar o quinto maior produtor do
mundo em poucos anos.
Tudo somado, o risco Brasil, medido pelos CDS
(que avaliam a possibilidade de default da dívida soberana), chegou em 8 de
maio a seu menor valor no terceiro mandato do presidente Lula — 116, quando em
março de 2023 foi de 280. Teve queda de 33,8% em um ano. Além de atrair com
isso investidores externos que estão diversificando um pouco seus portfólios em
dólar, o país oferece a eles a segunda maior taxa de juros real do mundo.
O Brasil já foi um dos preferidos das
finanças mundiais antes, no segundo governo Lula, quando se tornou grau de
investimento. Deixou de ser com as políticas ruinosas da presidente Dilma
Rousseff depois. É possível que sua atratividade entre os países tenha
aumentado pela coleção de ativos reais que possui há um bom tempo, agora
revalorizados em novo contexto global. Mas o país tem pés de barro com uma das
maiores dívidas entre os emergentes, o que já vem de antes, mas que sofre
deterioração rápida e adicional com taxas de juros extravagantes, que se
tornarão impagáveis a médio prazo.
Os investidores de curto prazo, que estão acorrendo a ações e renda fixa agora, podem facilmente bater em retirada diante de qualquer sinal de problemas. O que muda de fato a posição do país na arena global é uma boa gestão econômica, que garanta crescimento sustentável. Hoje, a gestão é ruim especialmente na parte fiscal e o país mal cresce 3% sem produzir inflação. Se nada for feito, bons momentos serão novamente desperdiçados.
O alto preço do impasse
Por Correio Braziliense
Um congelamento por tempo indeterminado no
Oriente Médio carrega potencial de dano amplo. É a incerteza, não a ameaça
declarada, que contamina os mercados
Quando dois adversários decidem,
simultaneamente, não apertar o gatilho, o silêncio costuma ser lido e assumido
como prudência das duas partes. Mas raramente é. Na maior parte das vezes, é
apenas o intervalo entre duas rodadas de um jogo que nenhum dos lados tem
condições ou interesse de encerrar. É nesse intervalo que Estados Unidos e Irã
parecem ter se instalado nas últimas semanas: declarações contidas da Casa
Branca, contenção militar iraniana e uma estabilidade mínima no Estreito de Ormuz
que serve de moeda de troca tácita entre as partes. O resultado, apesar de
causar menos apreensão, não é paz. É a gestão negociada da tensão, e ela tem um
custo que nenhum dos dois lados está disposto a pagar do próprio bolso.
Para a administração americana, conduzida
pelas sinalizações de Donald Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio,
a equação é estritamente utilitária. Um mergulho em operações militares abertas
traria desarranjos imediatos nas cadeias de suprimento e, consequentemente, nas
bombas de combustível. Em um cenário em que a inflação reverbera no bolso do
eleitor, qualquer choque no preço da energia ameaça o capital político do
governo. A estratégia de prolongar o estrangulamento financeiro do Estado
iraniano, apostando na exaustão de seus recursos no médio prazo, sem fazer
qualquer concessão formal na frente nuclear, oferece a Washington uma imagem de
firmeza sem os custos políticos e humanos imprevisíveis de operações terrestres.
Mas a aposta na asfixia econômica como
substituta da resolução definitiva raramente alcança seu objetivo primário no
tempo desejado. Regimes autoritários sob embargo costumam repassar o custo das
privações à população civil enquanto blindam suas estruturas de controle — vide
o que ocorre em Cuba desde os anos 1960. Para o regime em Teerã, a manutenção
dessa tensão calculada, sem o disparo de mísseis ocidentais, é altamente
funcional: concede às autoridades locais a margem de tempo necessária para
pacificar disputas internas de poder, lidar com o desgaste institucional e
reagrupar sua influência regional.
problema central dessa acomodação velada não
é a eventual imposição iraniana, mas a paralisia que o impasse em si projeta
sobre o mundo. Conflitos congelados têm precedentes históricos longos e
custosos: a Península Coreana vive há sete décadas sob armistício formal, com
dois Estados tecnicamente em guerra, e o resultado passa longe da estabilidade,
com uma suspensão indefinida da normalidade, com custos econômicos,
diplomáticos e humanitários que se acumulam silenciosamente.
Um congelamento por tempo indeterminado no
Oriente Médio, região que concentra parte decisiva das reservas energéticas do
planeta, carrega potencial de dano muito mais amplo. O frete sobe, os seguros
encarecem e os contratos de longo prazo se tornam mais caros. Não porque o Irã
cobre pedágio, mas porque nenhum agente econômico precifica bem o imprevisível.
É a incerteza, não a ameaça declarada, que contamina os mercados. E são as economias
emergentes, com menor capacidade de absorção de choques, as primeiras a sentir
esse custo na forma de inflação importada, encarecimento do transporte e
pressão sobre o poder de compra das populações mais vulneráveis.
Enquanto a diplomacia real for substituída por um compasso de espera calibrado por cronogramas eleitorais e conveniências domésticas, a estabilidade do Oriente Médio continuará dependendo de que todos os atores acertem o cálculo ao mesmo tempo, indefinidamente. A história mostra que esse tipo de acerto, mais cedo ou mais tarde, falha.
Anvisa e Ypê: do caso sanitário à
desinformação
Por O Povo (CE)
A decisão da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) que indica a orientação sanitária pelo não uso dos produtos
Ypê, fabricados pela empresa Química Amparo, gerou uma onda surpreendente de
reação por parte de apoiadores da direita brasileira. Segundo a recomendação, a
Agência indica que os consumidores não usem os produtos lava-louças
(detergentes), o sabão líquido para roupas e desinfetante da marca, dos lotes
com numeração que tenha 1 como fim.
A justificativa, conforme a Avisa, é que foi
identificado risco de contaminação microbiológica em produtos fabricados na
unidade da empresa em Amparo (SP). A medida da Anvisa determinou o recolhimento
de todos esses produtos, além da suspensão da fabricação, da comercialização,
da distribuição e do uso desses itens. A empresa Ypê informou que está
colaborando com a Anvisa no caso, realizando análises técnicas e avaliações
complementares, o que inclui testes e laudos independentes, a serem
apresentados às autoridades competentes.
Após recurso apresentado pela Ypê, a Anvisa
suspendeu temporariamente os efeitos da medida, mas afirma que mantém a
recomendação para que consumidores não usem os produtos dos lotes afetados até
decisão definitiva do caso. A Ypê comunicou que decidiu manter paralisada parte
da produção da fábrica de produtos líquidos enquanto implementa medidas
exigidas pela Agência.
O que se sucedeu, a partir daí, foi um
verdadeiro cenário de disputa política. Apoiadores do ex-presidente Jair
Bolsonaro dizem que há um boicote à marca, que, em 2022, fez doações para a
campanha dele à Presidência. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), integrantes da empresa doaram, juntos, R$ 1 milhão à campanha do
ex-presidente. Assim, integrantes da direita têm espalhado "fake
news" nas redes sociais, incluindo o boato de que a medida da Anvisa seria
uma suposta perseguição do governo Lula contra a Ypê.
Alguns bolsonaristas têm também publicado
vídeos simulando beber detergente da marca e tomar banho com os produtos, em
uma forma de apoio à empresa, mas em uma demonstração de risco à própria saúde,
visto que não se recomenda ingerir detergente ou sabão líquido de marca alguma.
É inadmissível que um caso desses, que inclui um apelo à saúde e aos cuidados sanitários de forma geral, tenha enveredado para o tema de disputa política. Isso tenta reduzir a relevância do tema ao tempo em que a desinformação contribui para oferecer risco à saúde das pessoas. A circulação de boatos como esses, liderados por quem deveria usar de seu engajamento nas redes sociais e promover o acesso à informação, é preocupante pois prejudica, sobretudo, o consumidor. Ajuda a induzir a erros e expõe a saúde a riscos completamente evitáveis.

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