O Globo
Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio
abriu caminho para desembargador promover devassa em sua gestão
A lição costumava ser repetida por políticos
mineiros da velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o
dono.
Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar
a renúncia do vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho
ao presidente da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na
cadeira de governador.
O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.
O desembargador Ricardo Couto assumiu em 23
de março. Avisou que não faria mudanças drásticas porque esperava sair de cena
em poucos dias. Mantido no cargo por decisão do Supremo, abandonou o estilo
discreto e deu início a uma devassa na administração estadual.
Em sete semanas, já demitiu mais de 1.700
ocupantes de cargos comissionados e trocou 10 dos 35 secretários. Na
sexta-feira, foi a vez do Detran. Couto exonerou o presidente, ligado ao
ex-deputado Márcio Canella, e nomeou um ex-comandante do Bope.
O órgão de trânsito era tido como um dos
maiores focos de corrupção do Rio. O governo interino recebeu relatos de
fraudes em contratos e serviços, além de cobrança de propina a motociclistas
reprovados em exames de direção.
O desembargador encontrou uma máquina partida
ao meio. Metade do primeiro escalão pertencia ao ex-governador, que chegou a
presentear um compadre com a Secretaria do Ambiente. Outra metade estava lotada
entre aliados de Bacellar, que usava o governo para atender sua clientela na
Alerj.
Para multiplicar os cargos, Castro criou até
uma Subsecretaria de Gastronomia, subordinada à Casa Civil. O órgão era
controlado pelo deputado Eduardo Pazuello, o general da pandemia. O cabide
contava com uma pitoresca Superintendência de Demandas Cotidianas. Tudo foi
extinto pelo governador em exercício.
A lógica da partilha política também dominava
o Segurança Presente, que não estava sujeito ao comando das polícias. As
equipes de patrulhamento eram indicadas por deputados, prefeitos, vereadores e
apaniguados. Em Saquarema, quem mandava era Fabrício Queiroz, o notório
operador da rachadinha de Flávio Bolsonaro na Alerj.
Ao transferir o programa para a Secretaria da
PM, Couto se virou alvo de protestos. Em vídeo nas redes sociais, o deputado
Alexandre Knoploch ameaçou usar “instrumentos” legislativos para reverter a
medida pelo governador.
O parlamentar não é o único insatisfeito com
as mudanças no Rio. Em encontro recente, Castro reclamou das demissões e
perguntou se o governador em exercício se considerava seu amigo. Couto
respondeu que sim, mas não se fez de rogado. “Se um dia você for preso, vou à
cadeia levar cigarros”, ironizou. A esperteza, como ensinavam os mineiros,
ainda pode engolir o dono.

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