O Globo
Se bateu no Ciro, quem estará a salvo? Do
temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como se estancou a
Lava-Jato?
O caso Vorcaro será um marco no país. Se
levado adiante, revelando quem são os corruptos e como agem, será dado um passo
crucial para eliminar uma das principais causas do atraso brasileiro, a
roubalheira que junta os setores público e privado. Se for abafado por um
acordão, como aconteceu com a Operação Lava-Jato, o país estará condenado a
mais alguns anos, talvez muitos, de atraso político e econômico.
O pretexto alegado para a derrubada de toda a Lava-Jato foi, oficialmente, o comportamento impróprio do promotor Deltan Dallagnol e do juiz Sergio Moro na condução dos processos. Mesmo considerando que houve de fato tal comportamento, ficou provado, escandalosamente provado, que havia grossa corrupção. Mas toda essa corrupção e seus agentes foram apagados. É como não tivesse ocorrido nada, a não ser uma conspiração do “tribunal de Curitiba” — como se chamava então a 13ª Vara da Justiça Federal, onde corriam os casos da Lava-Jato.
A rapidez com que tribunais cancelaram as
investigações e anularam condenações revela que havia um grande acordo político
para acabar com o combate à corrupção. O “Direito de Curitiba”, como dizia
Gilmar Mendes, foi extirpado. Pegava gente demais.
O caso Vorcaro está no Supremo Tribunal
Federal (STF),
relatado pelo ministro André
Mendonça. E, pelo que se viu até aqui, ele não parece disposto a abafá-lo.
Ao contrário, sua última decisão — a busca e apreensão na casa e no gabinete do
senador Ciro Nogueira —
atingiu o coração do sistema político. Ciro, acusado de receber mesada de
Vorcaro, entre outras impropriedades, é considerado um operador exemplar desse
sistema. Conseguiu participar de todos os governos recentes, à esquerda e à
direita. Mesmo agora, sendo oposição declarada a Lula, tem um correligionário
no ministério.
O que se teme em Brasília: se bateu no Ciro,
quem estará a salvo? Do temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como
se estancou a Lava-Jato? Ocorre que o caso Vorcaro está no STF, última
instância do Poder Judiciário. Quem pode armar o acordão para barrar o
“tribunal” de Mendonça? Somente seus pares no STF. É muito mais difícil.
O STF acabou com a “República de Curitiba”.
Pode acabar com o processo conduzido por um de seus integrantes? Em tese, pode.
Basta formar uma maioria de ministros para derrubar a investigação, com base em
alguma alquimia jurídica que o pessoal lá sabe inventar muito bem. Mas uma
coisa é afastar um promotor e um juiz de primeira instância. Outra, bem diferente,
seria anular a relatoria de Mendonça.
Há, portanto, boa chance de o caso Vorcaro
seguir adiante. Mais que um episódio, isso representaria a volta do combate à
corrupção. Como roubalheira puxa roubalheira — o dinheiro de uma emenda
parlamentar desviada precisa ser lavado por alguém, em alguma empresa —, a
apuração de um único caso apanhará gente pelo país afora.
O então banqueiro Vorcaro voou alto e foi
longe. Além do contrato com o escritório de advocacia de Viviane Barci de
Moraes, seu investimento mais caro pelo que se sabe até agora, ele distribuiu
mesadas, “convenceu” fundos previdenciários de estados e municípios a comprar
suas letras financeiras podres, criou fundos de fachada, colocando em risco o
sistema financeiro. Além de oferecer viagens, presentes e festas quentes a
figuras ilustres do sistema de Brasília. Essas farras podem vir a dar um bom
colorido a uma série a ser filmada quando tudo estiver encerrado.
As operações com bancos e empresas públicas e
privadas mostram como a corrupção afeta a economia. Para fazer um bom negócio
com qualquer nível de administração, o empresário não precisa ser eficiente,
basta comprar as pessoas certas dentro dos governos. Isso desmoraliza tanto o
setor público quanto as empresas privadas. Passa a impressão de que ao menos
parte do sistema só funciona à base de propina. Além de tudo, é concorrência
desleal com quem faz as coisas direito. Sim, muita gente faz a coisa certa e
espera isso do país.
Se bateu no Ciro, quem estará a salvo? Do
temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como se estancou a
Lava-Jato?

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