O Globo
Seduzir políticos e juízes para o consumo de
luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida do qual não poderiam mais
se afastar
A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.
Volto a essa festa de que participaram
Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, entre outros, para
reafirmar uma intuição que já expressei em livro e debates pelo Brasil. No meu
entender, a política brasileira se degradou no momento em que dependeu de caras
campanhas pela televisão. Até então, os eleitores financiavam os candidatos com
sorteios, festas onde se cobrava um pouco mais pela caipirinha. Essa forma mais
ingênua foi superada quando se precisou de muito dinheiro para pagar
marqueteiros e suas superproduções televisivas.
O convívio com empresários que mantinham
negócios com o governo ou gostariam de ter passou a ser um dado da realidade.
Para vencer, era importante ter dinheiro, e muito, e a relação com os eleitores
foi relativizada. Políticos que eram funcionários públicos com salário apenas
digno para alguém da classe média começaram a emular seus interlocutores
milionários. O caso mais típico foi Sérgio Cabral, com origem modesta, mas que,
de repente, passou a debater a qualidade dos mais caros restaurantes europeus e
desejou abertamente um helicóptero igual ao de Eike Batista, bilionário na
época.
Creio que Vorcaro intuitivamente compreendeu
isso. Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de
viciá-los num estilo de vida de que não poderiam mais se afastar. Toffoli, com
seu resort, já estava ganho para essa nova vida. Moraes, com o contrato
milionário da mulher com o Master, mansão cara e viagens a Dubai, também já
tinha acesso às altas esferas de consumo. Hugo Motta certamente avança de bom
grado para esse mundo.
No entanto o diretor da Polícia Federal,
Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, são apenas
funcionários públicos. Eram os mais vulneráveis a esse mundo fantástico de
uísque e charuto caríssimos, clubes luxuosos. Certamente,Vocaro contava agradar
seus amigos milionários e seduzir aqueles que viviam numa esfera mais próxima
das pessoas comuns.
É muito difícil o antídoto para esse tipo de
sedução, excluída, é claro, a vigilância sobre a evolução da riqueza. No
entanto há certas ironias nisso tudo. Vorcaro alugou o Hotel Four Seasons em
Taormina, na Sicília, para dar uma festa milionária. Antes dele, o mesmo hotel
foi cenário de uma série de TV chamada “The white lotus”. O tema da série era
exatamente o vazio e o tédio da vida das grandes fortunas que transitavam por
ali.
Mas não podemos contar com essa verdade
profunda. Ficar muito rico ainda é um sonho majoritário, muito mais sedutor que
servir humildemente ao país. Daí a força dos Vorcaros da vida.

Nenhum comentário:
Postar um comentário