Folha de S. Paulo
Demandas de combate às organizações
criminosas sugerem um Brasil de joelhos
Encontro dos dois presidentes em Washington
pode se transformar em reality show
A química entre Lula e
Trump azedou. Se é que ela chegou a existir em algum momento ou tudo não passou
de jogo de cena. As demandas de combate às organizações
criminosas —reveladas em reportagem de Patrícia
Campos Mello— sugerem uma republiqueta de joelhos diante de um
império.
Trump exige que o Brasil receba em prisões os brasileiros capturados nos Estados Unidos, sabe-se lá sob quais acusações. Como faz El Salvador. O país da América Central é governado por Nayib Bukele, o queridinho da extrema direita global, que aparelhou as instituições e negociou uma trégua —ora vejam só— com gangues de traficantes.
Em flagrante violação às leis internacionais,
os EUA querem que o governo brasileiro compartilhe com autoridades americanas
informações, incluindo dados biométricos, de estrangeiros buscando refúgio e
refugiados no país. Por trás das exigências está a Estratégia de Segurança
Nacional, que prevê a hegemonia de Washington sobre a América
Latina. Na lei ou na marra, com uso de força militar.
Além de El Salvador, a ingerência trumpista alcança Argentina,
Chile, Equador, Paraguai, Honduras, Costa Rica, Panamá, Guiana, Bolívia,
Trinidad e Tobago, República Dominicana —o chamado Escudo das Américas, nome
que parece ter sido tirado de histórias em quadrinhos. Em certa medida, até
a Venezuela aderiu
à panelinha. Após a abdução de Nicolás
Maduro, o regime continua chavista, mas concorda em liberar o
petróleo para companhias americanas.
Lula reforçou o discurso sobre soberania
nacional ao barrar a entrada no país de Darren Beattie, conselheiro de Trump
ligado aos movimentos de supremacia branca. Beattie iria visitar Bolsonaro na
prisão —certamente não era para jogar buraco— e reunir-se com o ministro Nunes
Marques, do STF,
para discutir o processo eleitoral.
Há um encontro marcado entre Lula e Trump,
provavelmente em abril, nos EUA. No Planalto, aumenta o temor de que o
brasileiro caia numa armadilha de reality show, sendo emparedado ou humilhado
em frente às câmeras.
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