terça-feira, 17 de março de 2026

Lula cai na real: química de Trump é explosiva, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Demandas de combate às organizações criminosas sugerem um Brasil de joelhos

Encontro dos dois presidentes em Washington pode se transformar em reality show

A química entre Lula e Trump azedou. Se é que ela chegou a existir em algum momento ou tudo não passou de jogo de cena. As demandas de combate às organizações criminosas —reveladas em reportagem de Patrícia Campos Mello— sugerem uma republiqueta de joelhos diante de um império.

Trump exige que o Brasil receba em prisões os brasileiros capturados nos Estados Unidos, sabe-se lá sob quais acusações. Como faz El Salvador. O país da América Central é governado por Nayib Bukele, o queridinho da extrema direita global, que aparelhou as instituições e negociou uma trégua —ora vejam só— com gangues de traficantes.

Em flagrante violação às leis internacionais, os EUA querem que o governo brasileiro compartilhe com autoridades americanas informações, incluindo dados biométricos, de estrangeiros buscando refúgio e refugiados no país. Por trás das exigências está a Estratégia de Segurança Nacional, que prevê a hegemonia de Washington sobre a América Latina. Na lei ou na marra, com uso de força militar.

Além de El Salvador, a ingerência trumpista alcança Argentina, Chile, Equador, Paraguai, Honduras, Costa Rica, Panamá, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, República Dominicana —o chamado Escudo das Américas, nome que parece ter sido tirado de histórias em quadrinhos. Em certa medida, até a Venezuela aderiu à panelinha. Após a abdução de Nicolás Maduro, o regime continua chavista, mas concorda em liberar o petróleo para companhias americanas.

Lula reforçou o discurso sobre soberania nacional ao barrar a entrada no país de Darren Beattie, conselheiro de Trump ligado aos movimentos de supremacia branca. Beattie iria visitar Bolsonaro na prisão —certamente não era para jogar buraco— e reunir-se com o ministro Nunes Marques, do STF, para discutir o processo eleitoral.

Há um encontro marcado entre Lula e Trump, provavelmente em abril, nos EUA. No Planalto, aumenta o temor de que o brasileiro caia numa armadilha de reality show, sendo emparedado ou humilhado em frente às câmeras.

 

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