terça-feira, 17 de março de 2026

Delação no clube do uísque, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro pode delatar – não há restrição formal a que o faça, ainda que seja o líder da máfia. Pode delatar, tanto mais ante a maioria formada para que permaneça preso. O banqueiro, obstrutor da Justiça de almanaque, é a própria encarnação “do perigo da liberdade”, aquele cuja milícia – ainda ativa, segundo André Mendonça – violava sistemas para obter informações sigilosas, e cujos milhões contrataram, direta ou indiretamente, os melhores – os mais infernais – bloqueadores da República. (Não jogavam vôlei.)

Se nem os poderosos influentes do tal Centrão – interessados em ao menos lhe garantir a prisão domiciliar, o que aliviaria a carga para que conte o que sabe – conseguiram evitar que a Segunda Turma do STF alcançasse os três votos pela manutenção da preventiva, decerto que a Vorcaro terá ficado óbvio o enfezamento do horizonte. Pode delatar, talvez mesmo lhe seja o caminho restante; e agora tem por advogado um que considera o instrumento da colaboração premiada meio de defesa.

As condições para que delate estão dadas. Dadas também as questões do desconfiado – porque o caminho do delator sempre pode ser dirigido-enviesado, porque o que delata sempre pode ser desvalidado, porque a trilha ficaria de repente mais fácil, segura, mediante escolhaseleção certa. Delataria para quem? PGR ou PF? E, atenção, delatará o quê – quem? O cronista põe as barbas de molho. As relações – as amizades – fazem a diferença e costumam se impor; também para a advocacia que precisa de Brasília. Um acordo de delação premiada, afinal, dependerá sempre da homologação – da chancela – do STF. E a acusação dependerá sempre da destilaria – do filtro – da PGR.

Qualquer acordo de colaboração de Vorcaro teria – terá – de passar pelo filtro do clube do uísque de Vorcaro. O clube do uísque de Vorcaro encharca o trânsito até a delação. Ou não estiveram, à mesa londrina bancada pelo banqueiro, degustando Macallan e fumando charutos, Paulo Gonet, procuradorgeral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal? Esses senhores dirigem as instituições portas-deentrada à colaboração. Esses senhores são amigos de ministros do Supremo.

Informou Lauro Jardim, no Globo, que o presidente Lula – em 8 de março – “chamou alguns poucos eleitos” a uma reunião para discutir o caso Master. Entre os distintos, o ministro Cristiano Zanin (da bancada governista no STF), Gonet e Rodrigues. No domingo, o jornalista Felipe Recondo publicou que, na festa de aniversário do ex-ministro Barroso, à véspera, “sentados à mesma mesa” estavam Rodrigues e Alexandre de Moraes. À mesa de Vorcaro no George Club, em Londres, bebendo puro malte e fumando puros cubanos, estavam – com Gonet e Rodrigues – também Moraes e Dias Toffoli. Amigos.

O banqueiro delataria para quem? E delataria quem? Se falasse sobre suas relações com ministros do STF, teria um acordo assinado-avalizado? •

 

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