terça-feira, 17 de março de 2026

Vorcaro e Mansur unidos contra a República, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A unificação da defesa mostra que Master e Reag vão jogar juntos contra o sistema financeiro, a política, o judiciário e os reguladores

José Luis de Oliveira Lima já advogava para Daniel Vorcaro em outros processos criminais. Na sexta passou a acumular mais um caso, o do Master. Foi Vorcaro quem indicou o advogado para João Carlos Mansur em 2025 quando dono da Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investigou a lavagem de dinheiro no mercado de combustíveis.

Na Compliance Zero, operação na qual Vorcaro estreou o xadrez, Mansur foi alvo de busca e apreensão. Pesou a suspeita de que o Master atribui seu patrimônio a cotas de fundos da Reag, que, pobremente regulada pela CVM, oculta bens e valores.

Esta relação Master-Reag, Vorcaro-Mansur, agora alinhavada pelo mesmo advogado, é um desdobramento nada lateral da investigação em curso. Pierpaolo Bottini, o ex-advogado de Vorcaro, já fez delações mas é, principalmente, advogado de personagens alvos do mecanismo, desde a Lava-Jato.

O que a entrada de José Luis de Oliveira Lima, conhecido por Juca, significa é que Vorcaro e Mansur vão jogar juntos. Se delação houver, não será de um contra o outro, mas da dupla contra o resto - políticos, magistrados, reguladores e agentes financeiros.

Ainda é uma incógnita em que posição ficará o empresário Nelson Tanure, que tem outro advogado, Pablo Testoni. Tanure também foi alvo de busca e apreensão da Compliance Zero. A PF o investiga pela suspeita de que seja controlador oculto do Master. O Ministério Público Federal o denunciou pelo financiamento a aportes de R$ 700 milhões no banco.

Ainda que não esteja claro em que posição Tanure vai jogar, parece certo que os operadores do esquema estarão juntos contra todo o resto onde paira a desavença. No STF, onde há evidências de que, pelo menos, dois ministros atuaram na zaga de Vorcaro, o último lance foi a convocação do capitão do time.

A demora do ministro Gilmar Mendes em se pronunciar sobre a prisão de Vorcaro num momento em que o placar já está dado, é atribuída à intenção do decano em mandar recados. O mais eloquente, porém, veio no destaque do julgamento sobre a liminar do ministro Flávio Dino que suspendeu a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Fábio Luís Lula da Silva, o filho do presidente, pela CPMI do INSS.

O julgamento se dava no plenário virtual mas Gilmar Mendes o levou para o físico. Com isso, o decano testará se o ensejo de chamar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o jogo tem a anuência de seus colegas. A tese, que hoje tem muita aderência na Corte, é a de que se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não colocou obstáculos à investigação do Master porque nada tem a ver com suas falcatruas, o “cada um por si” tem que valer para todos, inclusive para seu filho.

Lulinha, como é chamado, entrou na mira da CPI pelas relações que tem com Roberta Luchsinger, uma lobista de Brasília. Os negócios por ela prospectados junto a Antonio Camilo Antunes, o “careca do INSS”, não prosperaram, mas, como nunca ficou muito claro como o filho do presidente se sustenta na Espanha, permanece a suspeita de que os vínculos entre Lulinha e Roberta não se restrinjam a um negócio frustrado. O pai já disse que não bota a mão no fogo, embora acompanhe o caso de perto.

Lula tem manifestado aborrecimento por pagar a conta, com sua popularidade, de um escândalo do sistema financeiro, operado pelo Legislativo e pelo STF. Na semana passada, tentou mudar de assunto com a bravata da revogação do visto de um quarto escalão do governo Donald Trump que, para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, inventou uma agenda inexistente. Mirou o terço de eleitores “independentes” que, para a Genial/Quaest, rechaçam, majoritariamente Trump.

Além do discurso da soberania, Lula ainda pretende recauchutar o da defesa da democracia. Os ataques contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vão partir daí. A entrevista em que o filho do ex-presidente diz que a solução para o Supremo terá que vir fora das “quatro linhas” já começou a circular a partir de influenciadores próximos do Planalto - e do STF.

Se o decano arma, no plenário, uma arena de recados para o chefe do Executivo, ainda terá que se ver qual a unidade da Corte nesta tarefa. Não podem estar unidos na relação com o Executivo se permanecem profundamente divididos entre si.

Dos convescotes do fim de semana, em Brasília, concluiu-se que o disse-me-disse em torno da aposentadoria de ministros - Dias Toffoli e Alexandre de Moraes - é uma fumaça ainda sem fogo. Pelo menos enquanto estiverem seguros de que um Senado, em mãos de Davi Alcolumbre (União-AP), não o pautará o impeachment.

Nesta segunda, Dino mandou um recado para o CNJ presidido pelo ministro Edson Fachin. Relator do recurso de um magistrado afastado de suas funções pelo Tribunal de Justiça do Rio e pelo CNJ, Dino firmou a tese de que a aposentadoria compulsória não pode ser considerada penalidade.

A decisão, porém, devolve o caso para a reanálise do CNJ, convocando Fachin a dar materialidade ao discurso de rigor com a magistratura. Quando Dino a tornou pública, Fachin dava uma aula numa faculdade de Brasília. Nela, recitou decálogo dos princípios que devem guiar a magistratura. Lá estão todos os atributos que o escândalo do Master pôs em xeque - dignidade, independência, imparcialidade, prudência, reserva, urbanidade e integridade. A capacidade de estabelecer uma trégua, por enquanto, permanece um atributo restrito aos fraudadores.

 

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