Valor Econômico
A unificação da defesa mostra que Master e Reag vão jogar juntos contra o sistema financeiro, a política, o judiciário e os reguladores
José Luis de Oliveira Lima já advogava para
Daniel Vorcaro em outros processos criminais. Na sexta passou a acumular mais
um caso, o do Master. Foi Vorcaro quem indicou o advogado para João Carlos
Mansur em 2025 quando dono da Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, que
investigou a lavagem de dinheiro no mercado de combustíveis.
Na Compliance Zero, operação na qual Vorcaro
estreou o xadrez, Mansur foi alvo de busca e apreensão. Pesou a suspeita de que
o Master atribui seu patrimônio a cotas de fundos da Reag, que, pobremente
regulada pela CVM, oculta bens e valores.
Esta relação Master-Reag, Vorcaro-Mansur, agora alinhavada pelo mesmo advogado, é um desdobramento nada lateral da investigação em curso. Pierpaolo Bottini, o ex-advogado de Vorcaro, já fez delações mas é, principalmente, advogado de personagens alvos do mecanismo, desde a Lava-Jato.
O que a entrada de José Luis de Oliveira
Lima, conhecido por Juca, significa é que Vorcaro e Mansur vão jogar juntos. Se
delação houver, não será de um contra o outro, mas da dupla contra o resto -
políticos, magistrados, reguladores e agentes financeiros.
Ainda é uma incógnita em que posição ficará o
empresário Nelson Tanure, que tem outro advogado, Pablo Testoni. Tanure também
foi alvo de busca e apreensão da Compliance Zero. A PF o investiga pela
suspeita de que seja controlador oculto do Master. O Ministério Público Federal
o denunciou pelo financiamento a aportes de R$ 700 milhões no banco.
Ainda que não esteja claro em que posição
Tanure vai jogar, parece certo que os operadores do esquema estarão juntos
contra todo o resto onde paira a desavença. No STF, onde há evidências de que,
pelo menos, dois ministros atuaram na zaga de Vorcaro, o último lance foi a
convocação do capitão do time.
A demora do ministro Gilmar Mendes em se
pronunciar sobre a prisão de Vorcaro num momento em que o placar já está dado,
é atribuída à intenção do decano em mandar recados. O mais eloquente, porém,
veio no destaque do julgamento sobre a liminar do ministro Flávio Dino que
suspendeu a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Fábio Luís Lula da Silva, o
filho do presidente, pela CPMI do INSS.
O julgamento se dava no plenário virtual mas
Gilmar Mendes o levou para o físico. Com isso, o decano testará se o ensejo de
chamar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o jogo tem a anuência de
seus colegas. A tese, que hoje tem muita aderência na Corte, é a de que se o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva não colocou obstáculos à investigação do
Master porque nada tem a ver com suas falcatruas, o “cada um por si” tem que
valer para todos, inclusive para seu filho.
Lulinha, como é chamado, entrou na mira da
CPI pelas relações que tem com Roberta Luchsinger, uma lobista de Brasília. Os
negócios por ela prospectados junto a Antonio Camilo Antunes, o “careca do
INSS”, não prosperaram, mas, como nunca ficou muito claro como o filho do
presidente se sustenta na Espanha, permanece a suspeita de que os vínculos
entre Lulinha e Roberta não se restrinjam a um negócio frustrado. O pai já
disse que não bota a mão no fogo, embora acompanhe o caso de perto.
Lula tem manifestado aborrecimento por pagar
a conta, com sua popularidade, de um escândalo do sistema financeiro, operado
pelo Legislativo e pelo STF. Na semana passada, tentou mudar de assunto com a
bravata da revogação do visto de um quarto escalão do governo Donald Trump que,
para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, inventou uma agenda inexistente.
Mirou o terço de eleitores “independentes” que, para a Genial/Quaest, rechaçam,
majoritariamente Trump.
Além do discurso da soberania, Lula ainda
pretende recauchutar o da defesa da democracia. Os ataques contra o senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vão partir daí. A entrevista em que o filho do
ex-presidente diz que a solução para o Supremo terá que vir fora das “quatro
linhas” já começou a circular a partir de influenciadores próximos do Planalto
- e do STF.
Se o decano arma, no plenário, uma arena de
recados para o chefe do Executivo, ainda terá que se ver qual a unidade da
Corte nesta tarefa. Não podem estar unidos na relação com o Executivo se
permanecem profundamente divididos entre si.
Dos convescotes do fim de semana, em
Brasília, concluiu-se que o disse-me-disse em torno da aposentadoria de
ministros - Dias Toffoli e Alexandre de Moraes - é uma fumaça ainda sem fogo.
Pelo menos enquanto estiverem seguros de que um Senado, em mãos de Davi
Alcolumbre (União-AP), não o pautará o impeachment.
Nesta segunda, Dino mandou um recado para o
CNJ presidido pelo ministro Edson Fachin. Relator do recurso de um magistrado afastado
de suas funções pelo Tribunal de Justiça do Rio e pelo CNJ, Dino firmou a tese
de que a aposentadoria compulsória não pode ser considerada penalidade.
A decisão, porém, devolve o caso para a
reanálise do CNJ, convocando Fachin a dar materialidade ao discurso de rigor
com a magistratura. Quando Dino a tornou pública, Fachin dava uma aula numa
faculdade de Brasília. Nela, recitou decálogo dos princípios que devem guiar a
magistratura. Lá estão todos os atributos que o escândalo do Master pôs em xeque
- dignidade, independência, imparcialidade, prudência, reserva, urbanidade e
integridade. A capacidade de estabelecer uma trégua, por enquanto, permanece um
atributo restrito aos fraudadores.

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