O Globo
Em pouco mais de seis meses, o Brasil irá às urnas. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, a conjuntura econômica será adversa
Faltam sete meses, um pouco menos, para as eleições. É cedo para o senador Flávio Bolsonaro achar que os acontecimentos continuarão a favorecê-lo e é tarde para o governo não ter uma estratégia eficiente de campanha. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, uma conjuntura adversa. A oposição já começou a manipular o assunto da classificação das facções de traficantes como organizações terroristas. Se adotada pelos Estados Unidos será perigoso para o Brasil e pode reduzir a cooperação entre Polícia Federal e FBI, mas a oposição dirá que o governo defende bandidos. O presidente Lula é o favorito nesta eleição, porém tem muito trabalho pela frente, e não haverá espaço para erros.
Não se briga contra a percepção do
eleitorado, mesmo quando ela contraria os dados. A economia vai bem. Houve
queda do desemprego, da inflação e aumento da renda, contudo perguntados pela
Quaest, os eleitores admitem a melhora no ganho, mas acham que o custo de vida
subiu ainda mais. E aumentou o percentual dos que acham que a economia piorou.
Os preços dos combustíveis já estão subindo
na bomba e isso vai piorar o sentimento que os consumidores têm de que a
economia vai mal. O governo decidiu gastar R$ 30 bilhões subsidiando o diesel e
pode ser que não funcione. Criou um imposto de exportação para o petróleo para
compensar a renúncia fiscal e não fazer o que Jair
Bolsonaro fez, de deixar um rombo. De qualquer forma, distorce os
preços e é subsídio a um combustível fóssil.
No Congresso, briga-se pela CPI do caso
Master e a oposição está convencida de que desgasta só a atual gestão. Há uma
lista de pessoas da direita e da extrema direita que receberam vantagens ou
cometeram barbaridades e que precisarão se explicar. A Justiça suspendeu
provisoriamente a lei aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal que
permite o uso de imóveis para capitalizar o Banco de Brasília. Nestes imóveis,
há até uma área de reserva, a Serrinha do Paranoá, que é, segundo especialistas,
muito preciosa para o meio ambiente. O que se tenta é resolver o rombo criado
pelo governo Ibaneis Rocha no
BRB. O banco está em corda bamba porque foi saqueado para favorecer Daniel
Vorcaro. Foi Ibaneis quem escolheu os gestores e não é crível que nada
soubesse sobre o que estava acontecendo na instituição. O governador do
Rio, Cláudio
Castro, precisa explicar o saque de R$ 1 bilhão no Rioprevidência. Ex-chefe
da Casa Civil de Jair Bolsonaro, o senador Ciro Nogueira é
o “amigo da vida” de Vorcaro e tentou salvá-lo aumentando a fatura do Fundo
Garantidor de Créditos.
O governo terá que responder por atos do
ministro Rui
Costa quando era governador na Bahia. O STF também precisa saber como
responder à dúvida sobre o comportamento dos seus ministros. Aí o que está em
jogo não é a disputa entre o governo e a oposição, mas sim a confiança à
instituição. Esse respeito está abalado por fundadas razões.
A oposição já começou a distorcer o debate em
torno da classificação das facções criminosas como organizações terroristas
pelo governo americano. É óbvio que é preciso combater o Comando Vermelho e
Primeiro Comando da Capital (PCC), aliás, a milícia também. O Congresso acaba
de aprovar o projeto de lei antifacção, que o governo mandou, aumentando as
penas para os chefes destes grupos. O problema é mais complexo do que parece,
segundo quem entende do assunto.
O promotor Lincoln Gakiya, que tem uma vida
de combate ao crime organizado, me explicou que se houver essa equiparação a
primeira coisa que vai acontecer é acabar a interlocução que existe hoje entre
a Polícia Federal, o Ministério Público brasileiro e o FBI.
— Temos uma cooperação muito boa que pode
melhorar. Inclusive, na semana passada eu estive no consulado americano me
reunindo com policiais americanos. Mas se as facções forem consideradas
“terroristas” isso sai do âmbito das relações policiais. As informações passam
a ser classificadas como de inteligência de Estado. Vai para a CIA. Isso
dificultará, em vez de facilitar, o combate ao crime. Há risco também para a
economia. Haverá sanções econômicas. Uma empresa americana que tenha sede no
Brasil pode ter que transferir sua sede porque passamos a ser um país que
“abriga” uma organização terrorista. O Brasil fica sujeito a sanções - explicou
o promotor Lincoln Gakiya.
Estes são os fatos, mas a oposição já está
manipulando o tema como parte da campanha eleitoral.

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