terça-feira, 17 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Robôs de IA violam leis de direitos autorais

Por O Globo

De sete chatbots testados, Grok foi o mais contumaz no desrespeito a produtores de conteúdo jornalístico

O Grok, robô de inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, violou de forma contumaz os direitos autorais de conteúdos jornalísticos em teste realizado pela reportagem do GLOBO. O teste foi aplicado com a versão gratuita de sete chatbots diferentes — além do Grok, ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google), Claude (Anthropic), Perplexity, DeepSeek e MetaAI. Os sete foram submetidos a indagações sobre conteúdo restrito a assinantes dos jornais O GLOBO, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Em todos os casos, o Grok entregou o texto completo escrito por colunistas, sem alterações. Em apenas um outro caso o DeepSeek reproduziu uma coluna literalmente, enquanto nos demais os robôs em geral ofereceram resumos detalhados, muitas vezes com paráfrases pouco diferentes do original. Apenas Perplexity e Claude informaram que o acesso às colunas era restrito aos assinantes ou estava bloqueado por barreira (paywall), procurando resumir fatos a partir de conteúdos abertos. A ferramenta da Meta alegou impossibilidade técnica para obter o conteúdo.

O teste era simples: apresentar aos robôs o endereço das colunas e esperar a resposta. O Grok, ao acessar um conteúdo exclusivo para assinantes, deu uma explicação mentirosa para invadir o espaço de assinantes: “Eu não enfrentei paywall porque, no momento em que acessei a página, o artigo completo estava totalmente aberto e visível, sem necessidade de login ou assinatura”. Quando o mesmo endereço foi apresentado a outros chatbots, houve pedidos de identificação de assinante. As respostas do Grok sugerem que ele reconstrói as colunas a partir do código disponível na própria página ou de trechos encontrados na internet em sites especializados em burlar paywall (possibilidade aventada no ano passado no artigo “Como os chatbots de IA silenciosamente desmantelam paywall”, do jornalista holandês Henk van Ess).

A xAI foi procurada pela reportagem do GLOBO para dar explicações, mas não respondeu. Ora, cabe à empresa zelar pela legalidade do conteúdo apresentado a seus usuários. “Esse uso não autorizado com clara propriedade intelectual não é só moralmente condenável”, afirma Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ). “As plataformas de IA podem vir a ser enquadradas legalmente ao desrespeitar a legislação brasileira de direitos autorais.”

Para não configurar plágio ou roubo de propriedade intelectual, os chatbots não deveriam sequer apresentar resumos ou fazer paráfrases dos colunistas. Poderiam divulgar o tema das colunas e fornecer links ao conteúdo, mas desde que devidamente autorizados a lê-las pelo veículo – prática vetada pelo GLOBO e pelos demais veículos da Editora Globo, assim como por New York Times, Washington Post e Financial Times. Caso o leitor esbarrasse em paywall, deveria decidir se paga pela assinatura.

Como a maior parte dos países, o Brasil tem demonstrado lentidão ao estabelecer uma regulação capaz de garantir a propriedade intelectual em tempos de IA. Enquanto persiste o vácuo, boa parte dos robôs tem agido como parasitas do conteúdo alheio, sem pagar um centavo. Cabe à Justiça zelar pelo respeito aos direitos autorais. Isso é ainda mais importante no caso do jornalismo, que depende deles para financiar uma atividade essencial à saúde de qualquer democracia.

Políticas eficazes contra violência têm efeito positivo na economia

Por O Globo

Cidades que obtiveram êxito contra o crime registraram entre 7% e 10% mais empresas e postos de trabalho

As vítimas da violência não se resumem aos mortos pelos bandidos. Nas regiões conflagradas, quem sobrevive ao crime também sofre consequências econômicas. Onde organizações criminosas imperam, a extorsão, a destruição de capital físico e até fatores intangíveis como estresse dificultam a vida de empreendedores e diminuem investimentos. Um estudo recém-publicado da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo constatou os efeitos econômicos positivos das políticas de segurança pública bem-sucedidas. No período de 2002 a 2019, o Distrito Federal e cidades de oito estados que obtiveram êxito no combate ao crime registraram aumento entre 7% e 10% nas novas empresas e em vagas com carteira assinada.

A descoberta desmente que o avanço da criminalidade seja inexorável ou esteja imune às políticas dos governos estaduais. A divisão da cidade em áreas menores; a análise pormenorizada baseada em indicadores objetivos; a integração das forças policiais e outras instituições do Estado; o estabelecimento de objetivos com pagamento de bônus são medidas eficazes contra o crime.

No início do século, o governo de Minas Gerais deu os primeiros passos para a gestão baseada em dados, com resultados e pagamento relacionado ao desempenho. O estado criou e implementou um sistema estatístico para embasar decisões e premiações. Historicamente separados, os comandos das polícias Militar e Civil passaram a manter reuniões regulares, frequentadas por representantes de outros segmentos do setor público. Na mesma época, São Paulo também atualizou sua política de segurança. Uma das principais diretrizes foi a integração de dados policiais. Em pouco tempo, DF e outros seis estados (Pernambuco, Rio, Paraíba, Espírito Santo, Alagoas e Ceará) lançaram programas semelhantes.

De acordo com o estudo “Aprimorar a gestão policial aumenta o desenvolvimento econômico: evidências do Brasil”, o impacto dependeu do histórico da região. Nos lugares mais violentos, a redução do crime foi maior, mas os benefícios econômicos foram menores. Não estão claras as razões para a diferença. Talvez em cidades com menos homicídios a polícia tenha mantido foco na redução de crimes contra a propriedade, contribuindo para o êxito econômico. “Regiões com alto nível de violência podem precisar de intervenções adicionais, como programas sociais, incentivos econômicos específicos e investimentos em infraestrutura, para aproveitar totalmente o potencial econômico da redução do crime”, diz Bruno Pantaleão, autor do estudo. São pontos que ainda merecem mais pesquisas.

Guerra e pesquisas elevam incerteza na economia

Por Folha de S. Paulo

Conflito no Oriente Médio encarece petróleo, pressiona inflação e leva à projeção de queda menor dos juros

É cedo para vaticínios, mas, de todo modo, é fato que o cenário já seria desconfortável em razão do descalabro fiscal do governo Lula

A expectativa econômica mais importante para este 2026 é o início de um ciclo de cortes dos juros do Banco Central, viabilizado pelo controle da inflação e capaz de propiciar algum alívio para famílias, empresas e contas públicas. Já da política de gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nenhum ajuste se espera em ano eleitoral.

Esse modesto conjunto de previsões se tornou mais incerto nos últimos dias. Nesta segunda-feira (16), a pesquisa semanal divulgada pelo BC mostra que o mercado passou a esperar uma queda menor da taxa Selic, hoje em sufocantes 15% ao ano, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) dos próximos dois dias.

Em vez de um corte para 14,5%, como o próprio comitê havia indicado em janeiro, a aposta da maioria agora é num recuo mais cauteloso, para 14,75%. Para o fim do ano, a expectativa subiu de 12,13% para 12,25%.

O movimento ainda é incipiente, mas já reflete os temores quanto ao impacto na inflação da guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. O brusco encarecimento do petróleo, afinal, tem o potencial de contaminar os demais preços e setores da atividade.

Não por acaso, a mediana das projeções para o IPCA deste ano subiu de 3,91% para 4,1% apenas na última semana —e o BC terá dificuldade em baixar os juros se o índice e as expectativas se distanciarem da meta de 3%. Mais lentidão no relaxamento monetário significa perspectivas piores para o crescimento econômico, já desacelerado, e a dívida pública.

Outra frente de incertezas veio da política. Pesquisas do Datafolha e de outros institutos indicam uma disputa eleitoral mais difícil para Lula, agora empatado com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas simulações de segundo turno.

Se eram nulas as chances de medidas para conter o déficit das finanças da União até a abertura das urnas, o novo cenário eleva a desconfiança quanto a novas despesas destinadas a fortalecer a popularidade do incumbente —e os subsídios recém-instituídos para conter o preço do óleo diesel reforçam tal percepção.

Quanto ao adversário, a incógnita transcende o campo econômico e chega ao institucional, dada a meta de Flávio de livrar o pai da prisão por tentativa de golpe de Estado. Nessa seara, a crise de credibilidade em que o Supremo Tribunal Federal (STF) mergulhou com o escândalo do Banco Master ajuda a mobilizar o bolsonarismo.

É obviamente cedo para vaticínios, mais ainda para catastrofismo. De todo modo, é fato que o cenário econômico já seria desconfortável para o país em razão do descalabro orçamentário do governo petista. As limitações para uma queda mais expressiva dos juros estavam postas, assim como a necessidade de reformas difíceis na próxima administração, qualquer que seja ela.

O momento é de maior volatilidade, como se vê no vaivém diário do dólar e das Bolsas, e as dúvidas econômicas e políticas tendem a alimentar umas às outras.

Trump contra a imprensa

Por Folha de S. Paulo

Chefe de órgão regulador ameaça revogar licenças de emissoras de TV por discordar da cobertura da guerra

Em casa, presidente americano ameaça um dos pilares da democracia, a mesma que se arvora a defender no cenário global

No sábado (14), o presidente da Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC), agência reguladora do setor, ameaçou revogar licenças de emissoras de televisão do país por causa do que chamou de "boatos e distorções" na cobertura da guerra com o Irã.

Brendan Carr, nomeado para a chefia do órgão por Donald Trump no início do mandato presidencial, disse que "as emissoras devem operar em prol do interesse público e perderão suas licenças se não o fizerem".

Ora, o interesse público atendido pela imprensa nas democracias liberais é justamente o escrutínio dos atos de governo. Usar ferramentas regulatórias para controlar a atividade jornalística que não agrada ao mandatário de turno é tão somente prática típica de regimes autoritários. E não é a primeira vez que Carr aventa essa manobra.

Em setembro de 2025, disse numa entrevista que a programação da rede de televisão ABC deveria ser substituída. Horas depois, a atração do comediante Jimmy Kimmel foi suspensa pela emissora —grupos de direita haviam criticado falas de Kimmel a respeito do assassinato do ativista conservador Charlie Kirk. À época, a retirada de licenças de empresas de comunicação foi expressamente endossada por Trump.

Embora a revogação de licenças seja um processo complexo, ainda mais num país onde as liberdades de expressão e de imprensa são protegidas de forma robusta pela Constituição, o movimento de autoridades nesse sentido pode criar um efeito inibidor no trabalho jornalístico.

A FCC também é responsável por autorizar aquisições e fusões no mercado de mídia, fator que também faz parte do embate travado entre a Casa Branca e empresas de comunicação.

A Nexstar, dona de 32 estações afiliadas à ABC e que interrompeu a transmissão do programa de Jimmy Kimmel antes dela, busca desde o ano passado autorização para uma fusão com a Tegna, outra empresa do setor.

Na sexta (13), ao reclamar da cobertura sobre a guerra no Irã, o secretário de Defesa Pete Hegseth disse que gostaria de ver David Ellison, CEO da Paramount e aliado de Trump, assumir a Warner Bros., que controla a CNN —a Paramount busca a aquisição da Warner por US$ 110 bilhões.

Trump reage à baixa popularidade e à oposição dos americanos à guerra no Irã da forma contraditória que lhe é peculiar: no ambiente doméstico, ameaça um dos pilares da democracia, a mesma que se arvora a defender no cenário global.

A asfixia do setor produtivo

Por O Estado de S. Paulo

Recorde em processos de recuperação financeira de empresas é o efeito colateral de uma política econômica desconectada da realidade e mostra o complicado ambiente de negócios do País

O esforço de renegociação de R$ 65,1 bilhões em dívidas da Raízen, gigante formada da parceria entre Cosan e Shell há 15 anos, voltou os holofotes para os números recordes de processos de recuperação extrajudicial, movimento que parece andar na contramão dos bons indicadores econômicos atuais. O anúncio da Raízen, feito com apenas algumas horas de diferença de processo semelhante aberto pelo Grupo Pão de Açúcar, líder histórico do setor supermercadista que tenta equalizar uma dívida de R$ 4,5 bilhões, acabou virando referência para o complicado ambiente de negócios nacional.

Entre recuperações judiciais (supervisionadas formalmente pela Justiça) e extrajudiciais (estruturadas diretamente entre empresa e credores), o ano de 2025 contou 5.680 processos, um recorde histórico, como mostrou recente reportagem do Estadão com dados do Monitor RGF de Recuperação Judicial. O ano de 2026, segundo especialistas, segue a mesma toada. Somente os processos extrajudiciais – instrumento legal criado no Brasil há apenas duas décadas – foram 68 no ano passado, volume também recorde, de acordo com levantamento do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial publicado pelo jornal Valor.

São diversos os motivos que deixam empresas incapacitadas de pagar suas dívidas. Crises financeiras podem ser causadas por má gestão, planejamento comercial mal dimensionado, negócios de risco que não deram o retorno esperado, dificuldades na captação de financiamento e capital de giro, queda severa na demanda, disputas societárias ruinosas e até fraudes corporativas. Enfim, não há como desprezar que boa parcela da responsabilidade pelas crises corporativas cabe à própria condução das empresas.

Mas há, nos casos recentes, um denominador comum: a taxa básica de juros (Selic), que em quatro anos e meio – de janeiro de 2021 a junho de 2025 – passou de 2% para 15%, patamar em que se mantém até o momento e que contribui para multiplicar o saldo de dívidas financeiras. A disparada não foi acidental ou arbitrária, mas uma necessidade monetária para controlar a inflação e preservar o valor de compra do real diante de uma economia superaquecida por políticas oficiais de incentivo ao crédito e ao consumo.

O aumento da inadimplência e, em último estágio, a insolvência são o saldo deletério de uma política econômica que só atende aos interesses demagógicos do governo, em detrimento do controle da inflação. No afã de acelerar o giro do dinheiro, fabricando uma imagem da economia que não condiz com a realidade para dizer que está colocando “dinheiro no bolso do povo”, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva joga as consequências de sua irresponsabilidade no colo tanto de empresas quanto de pessoas físicas. Está aí a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) para comprovar: em fevereiro, a proporção de endividamento das famílias brasileiras bateu 80,2%, o maior nível de toda a série histórica do levantamento, feito mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) desde 2010.

Remar contra uma maré de instabilidade econômica e políticas públicas ineficientes não é fácil. E é esse o resultado da desconexão entre as decisões de empresas e indivíduos (microeconomia) e a condução da macroeconomia (inflação, juros, PIB, etc.). É o tipo de desordem que costuma, cedo ou tarde, levar a crises econômicas mais sérias e recessão.

De acordo com o Monitor RGF, das 5.680 empresas em processo de reestruturação em 2025, o setor com maior aumento de insolvência foi o agronegócio, com 493 empresas, justamente o que mais tem contribuído positivamente para o Produto Interno Bruto (PIB). Fatores como mudanças climáticas e quebras de safra tendem a desequilibrar as contas, mas não há como desconsiderar a forte dependência da Selic, em razão da necessidade intensiva de capital do agronegócio.

A queda dos juros, alívio esperado por empresas e famílias, não depende exclusivamente do Banco Central. O governo tem de fazer sua parte.

Tarcísio vê ‘oportunidade’ onde não há

Por O Estado de S. Paulo

Governador se equivoca ao afirmar que classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA pode trazer mais recursos ao Brasil; ao contrário, medida pode resultar em sanções a empresas locais

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou ver como “oportunidade” uma possível classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas pelos EUA.

O governo de Donald Trump sinaliza que dará às organizações criminosas brasileiras o mesmo tratamento que já dispensa a diversas facções da América Latina. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, é contra, no que está certo. O objetivo do PCC e do CV é enriquecer explorando atividades ilícitas variadas, enquanto grupos terroristas têm objetivos políticos e/ou ideológicos.

É inegável que PCC e CV são capazes de ações extremamente violentas, de grande impacto na vida da população. O fortalecimento das ações de combate a essas facções é mais do que necessário, mas designá-las como terroristas está longe de representar a melhor solução para o problema, por mais que a medida tenha apelo numa sociedade vítima desses criminosos.

Para o governador paulista, porém, a partir do momento em que um governo como o dos EUA encara o PCC como organização terrorista, “fica aberto o caminho da cooperação para que a gente possa integrar inteligência, para que a gente possa trazer recursos financeiros e para que a gente possa fazer um combate ainda mais efetivo”.

Ao contrário do que afirmou Tarcísio, porém, não é preciso que os EUA classifiquem PCC e CV como terroristas para que americanos e brasileiros estreitem sua cooperação no combate ao crime organizado.

Como ressaltou o promotor Lincoln Gakiya à GloboNews, a troca de dados entre o Ministério Público brasileiro, o FBI e a DEA ocorre de forma fluida via cooperação policial. Com a reclassificação, porém, essas informações podem ser categorizadas pelos americanos como “confidencial”, o que dificultaria o acesso dos investigadores brasileiros aos dados. Gakiya tem ampla experiência no combate ao PCC, que, inclusive, o jurou de morte.

O governador também se equivoca quando associa o tratamento do PCC como grupo terrorista à obtenção de mais recursos financeiros para o combate ao crime no Brasil. Na realidade, a reclassificação pode trazer problemas financeiros ao País.

Como explicou o promotor Gakiya, “quando você classifica uma organização como terrorista, autoriza o governo americano a executar ações militares fora do Estado americano, e você também pode abrir aí um flanco para que o Brasil sofra algum tipo de sanção econômica e mesmo nas relações internacionais”.

Em artigo para o Valor, o advogado Raphael Soré chama a atenção para o potencial efeito cascata nas cadeias de negócios aqui, no Brasil, caso o Departamento de Estado americano realmente designe PCC e PV como terroristas. “A medida desencadeia um regime de sanções financeiras e comerciais com efeitos que se estendem muito além das pessoas diretamente envolvidas. Na prática, membros das organizações designadas, bem como empresas ou indivíduos considerados seus facilitadores ou parceiros comerciais, passam a enfrentar restrições severas em suas relações com o sistema financeiro”, afirma Soré.

Em ano de eleição presidencial, Tarcísio e boa parte da oposição endossam abertamente mais uma proposta de Trump, esperando capitalizar a linha dura contra a criminalidade embutida na iniciativa americana e, ao mesmo tempo, vincular ao governo petista a imagem de defensor do PCC e do CV.

A esta altura, a oposição já deveria estar escaldada pelo comportamento errático de Trump, sempre disposto a usar interpretações criativas de leis e tratados para agir como lhe dá na cabeça. De uma hora para outra, ele pode decidir que uma organização criminosa é “terrorista” e ordenar uma ação em qualquer país latino-americano que a abrigue.

Tarcísio já cometeu o equívoco de vestir o boné do movimento Make America Great Again (Maga) durante a campanha eleitoral norte-americana. Em meio à ofensiva tarifária de Trump, que penalizou, em especial, a economia paulista, a imprudência do governador foi reavivada nas redes sociais. Agora, ele trata como “oportunidade” uma proposta do presidente dos EUA que, mais uma vez, tende a causar embaraços ao País.

‘Operação abafa’ em ação

Por O Estado de S. Paulo

Omissão de Zanin sobre a CPI do Master ecoa padrão de atrasos e desestímulos às investigações

O escândalo do Banco Master reúne ingredientes exorbitantes para justificar escrutínio rigoroso: fraudes bilionárias e uma teia de influências que atravessa Brasília. O povo exige repostas e, em situações assim, a Constituição oferece à Casa do Povo um instrumento clássico de esclarecimento: a comissão parlamentar de inquérito (CPI). Ainda assim, a CPI do Master continua parada, e uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin contribuiu para mantê-la nesse limbo.

Zanin rejeitou um pedido para obrigar o presidente da Câmara, Hugo Motta, a instalar a comissão, argumentando que a abertura constitui assunto interno do Poder Legislativo. À primeira vista, soa prudente. Ninguém – muito menos este jornal – deseja um Supremo transformado em diretor de pauta do Congresso.

Mas o raciocínio desmorona ao primeiro contato com a Constituição. O artigo 58 estabelece critérios objetivos para a criação de CPIs: apoio de um terço dos parlamentares, fato determinado e prazo certo – condições presentes no requerimento da CPI do Master. A regra existe justamente para impedir que a maioria – ou, pior, a presidência da Casa – asfixie investigações incômodas.

O próprio Supremo já reconheceu isso em diferentes ocasiões – notadamente na CPI da Covid, em uma decisão no plenário de 10 contra 1, em 2021. A decisão de Zanin, portanto, exprime não prudência institucional, mas uma jurisprudência gelatinosa.

Os casuísmos de Zanin incomodam ainda mais à luz da atmosfera política em torno do escândalo Master. No Congresso, a abertura da CPI enfrenta obstáculos conhecidos do manual brasiliense de abafamento: controle rígido da pauta, critérios procedimentais improvisados e sessões convenientemente esvaziadas. A condução do tema por Motta e pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem produzido exatamente o efeito desejado por quem prefere ver o assunto esfriar: tempo.

No próprio Supremo, a liminar do ministro Gilmar Mendes que anulou medidas investigativas da CPI do Crime Organizado sobre a empresa do colega Dias Toffoli, que manteve negócios com fundos ligados ao Master, desarticulou uma linha de apuração relevante. A trajetória do caso no STF, inicialmente sob a relatoria do próprio Toffoli – agora confessadamente suspeito –, criou uma zona cinzenta onde se acumulam indícios de obstrução. Explicações do escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes sobre um contrato multimilionário com o Master suscitaram mais perguntas do que respostas.

O procurador-geral Paulo Gonet retardou a análise de medidas urgentes e arquivou representações relacionadas ao caso, como se estivesse disposto a disputar com seu antecessor o título de “engavetador-geral da República”.

A CPI foi concebida para dar às minorias parlamentares um instrumento para escrutinar escândalos que as maiorias prefeririam esquecer. Quando esse instrumento é retardado por manobras políticas, neutralizado por decisões judiciais ou cercado por explicações opacas, a mensagem transmitida ao País é de que, em Brasília, a investigação avança apenas até o ponto em que se torna inconveniente.

Tesouro intervém para deter volatilidade de títulos

Por Valor Econômico

A certeza da piora fiscal ao longo dos próximos anos pôs nas alturas as taxas que os investidores cobram para financiar a dívida pública

A economia global não suportará uma guerra de longa duração no Oriente Médio, e a brutal queda de fornecimento de petróleo por uma de suas principais vias, o Estreito de Ormuz, além de encarecer bens e serviços da maioria das atividades econômicas, tende a se deslocar para uma revisão nos preços dos ativos nos mercados financeiros. Os juros tendem a subir onde estavam estabilizados, como no caso europeu, e a parar de cair como nos Estados Unidos. A alta nas apostas sobre o custo do dinheiro com títulos públicos no Brasil levou ontem o Tesouro a fazer uma recompra de papéis prefixados que, com a alta dos juros, traz prejuízos a quem precisa vendê-los antes do prazo com marcação a mercado. O BIS, banco central dos bancos centrais, emitiu um alerta de que o prolongamento da guerra poderá ampliar a fuga de ativos arriscados nos mercados financeiros e piorar a situação fiscal de governos já muito endividados, elevando os danos econômicos ao redor do mundo.

Os improvisos do presidente americano, Donald Trump, e a resistência do regime dos aiatolás sugerem que não há um fim à vista para os conflitos. Os apelos de Trump aos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para que auxiliem os EUA a derrotar o Irã foram ouvidos, mas até agora rejeitados ou ignorados. O pedido à China para que intervenha (ela compra quase toda a produção iraniana) foi obviamente infrutífero. As tentativas de França e Itália de obter uma trégua para passagem de seus navios não deram resultado: com menor poder bélico e visivelmente enfraquecido, o único poder de Teerã é causar o máximo de perdas ao redor, para que as pressões pelo término da guerra recaiam sobre os ombros de Trump. Este, por sua vez, não desistiu de objetivos maximalistas como a rendição incondicional, que não vai acontecer.

O abastecimento de petróleo piora a cada dia. A produção de óleo do Iraque caiu 70%, a dos Emirados Árabes Unidos, 50% e a da Arábia Saudita, maior produtor da região, 20% (Reuters, ontem). Pelo menos 10 milhões de barris diários deixaram de fluir por Ormuz na última semana.

Os preços dos combustíveis já foram repassados onde os mercados são livres (EUA) e mesmo nos mais controlados, como no Brasil: o diesel foi reajustado em meio a uma operação do governo de subsídios e corte de impostos, com claros efeitos eleitorais. O choque de oferta de petróleo deixou o terreno livre para a inflação subir, o que muda as expectativas dos agentes econômicos e dos bancos centrais. No Brasil, a previsão de corte de 0,5 ponto na reunião do Copom caiu pela metade, e o juro estimado para o fim do ciclo começa a se afastar dos 12%, para cima. O Banco Central do Brasil e o Federal Reserve têm um encontro marcado com a nova realidade hoje e amanhã.

A certeza da piora fiscal ao longo dos próximos anos pôs nas alturas as taxas que os investidores cobram para financiar a dívida pública, e elas ganharam novo impulso altista com o aumento do petróleo e com a possibilidade de turbulências que ele enseja. Diante da rapidez da deterioração do cenário, as apostas feitas nos títulos prefixados começam a dar prejuízos com nova alta dos juros. Um título prefixado para 2029 caiu 2,3% até sexta no mês. O Tesouro parou de vender títulos ontem e fez uma recompra equivalente em R$ 12,1 bilhões. LTNs com vencimentos em janeiro de 2028, 2029 e 2030 foram resgatadas por 13,58%, 13,65% e 13,81%, respectivamente. O Tesouro deu alguma saída a investidores que apostaram errado e procurou reduzir a volatilidade das taxas do mercado, o que não ocorrerá até que haja um horizonte de paz, mesmo que provisória, no Oriente Médio.

A alta nas cotações do petróleo traz intranquilidade e acrescenta mais um elemento a um ambiente de incertezas. O Federal Reserve poderá ter de elevar os juros em algum momento, enquanto no mercado americano há vendas significativas de títulos de fundo de crédito privado e uma sangria nas ações das empresas de software, vítimas do avanço da Inteligência Artificial. Os enormes gastos com a guerra de Trump e seu corte de impostos agravarão o resultado fiscal já muito ruim, os títulos do Tesouro americano vão subir, e com os juros o dólar, que inverteu sua tendência de queda. Com as condições financeiras cada vez mais desfavoráveis e inflação em alta, haverá menor consumo, investimentos e crescimento, preços em ascensão e um cenário de estagflação. Reviravoltas desta natureza, em geral, costumam vir acompanhadas de turbulências financeiras.

A economia global, em especial a americana, escapou do freio das tarifas de Trump, em parte porque ele voltou atrás, em parte pelos investimentos gigantescos das big techs em IA. Pode não haver este anteparo agora: a tecnologia é uma enorme consumidora de energia, e a guerra coloca em realce não só a incerteza de sua oferta como os preços com que será feita, avalia Andy Haldane, ex-economista chefe do Banco da Inglaterra (FT, 15-2).

O principal ponto frágil do Brasil é a situação fiscal, e em ambientes de instabilidade ela tende a crescer, ainda mais em um ano eleitoral. As ações já tomadas pelo governo indicam que não hesitará em lançar mão de um dinheiro que não tem se o preço for a perda de popularidade.

A guerra é de todos

Por Correio Braziliense

Da perspectiva exclusivamente brasileira, doméstica, uma guerra prolongada e extensa no Oriente Médio torna-se fator de peso em um ano que tem o horizonte na corrida pelo Planalto.

Foi uma decisão unilateral da Casa Branca que determinou o início de mais uma guerra no Oriente Médio. No máximo, e é bastante plausível, Donald Trump acertou ponteiros apenas com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para dar início aos bombardeios sobre o Irã. A reação do regime islâmico de Teerã não permite nem o menor espasmo de surpresa. Desde o ano passado, quando a coalizão Trump-Netanyahu atacou instalações nucleares iranianas, estava delineada a resposta: alvos israelenses e norte-americanos, inclusive as múltiplas bases militares abrigadas nas monarquias árabes da vizinhança, seriam objeto de retaliação.

Uma observação superficial e ligeira poderia induzir à conclusão de que, lamentável como todos os conflitos armados, pelos sofrimentos humanos e pelas perdas materiais que  acarreta, esse seria um assunto alheio a nós, da distância em que nos encontramos.

Duas semanas recém-completadas de ataques e contra-ataques diários bastam para deixar claro: a nova guerra que se alastra pelo Oriente Médio é assunto que causa impactos muito além do cenário dos combates, que, por si, não chega a ser tão limitado. Mesmo aqui, as turbulências no mercado do petróleo e derivados já projetam impactos.

Da perspectiva exclusivamente brasileira, doméstica, uma guerra prolongada e extensa no Oriente Médio torna-se fator de peso em um ano que tem o horizonte na corrida pelo Planalto. Outubro pode parecer distante, mas, até por isso, os seis meses de distância até o primeiro turno são tempo bastante para que se sucedam solavancos e imprevistos na economia — a começar pelos desdobramentos de uma disparada nas cotações internacionais do petróleo.

Mais do que em disputas anteriores, governo e oposição se veem, desde logo, condicionados a construir programas e plataformas que levem em conta a guerra de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, com seus impactos globais. O cenário externo, os alinhamentos e afinidades de cada campo político já figuraram na agenda de campanhas anteriores, com maior ou menor destaque. Neste ano, é diferente.

O desenrolar da crise no Oriente Médio terá peso decisivo quando o eleitor comparecer às urnas. E quem se apresentar como candidato a conduzir o país nos próximos quatro anos será chamado a expor ideias e planos para a inserção do país em uma ordem internacional em plena transformação.

Caberá a cada um mostrar, em entrevistas, pronunciamentos, debates e demais ocasiões da disputa, a profundidade e agudeza com as quais enxerga as injunções impostas ao Brasil. E, por consequência, os caminhos e passos que vislumbra para que o país se movimente nesse terreno pantanoso de maneira a minimizar prejuízos e — igualmente importante — agarrar oportunidades.

De certo, em um mundo tão prenhe de incertezas e incógnitas, resta a compreensão de que ninguém mais pode construir um futuro em voo solo. A capacidade para interpretar os movimentos das contrapartes, em especial dos parceiros, presentes ou potenciais, definirá o tamanho e a qualidade dos frutos a serem colhidos adiante. 

É esse o debate que se pode esperar na campanha que se avizinha.

O cinema brasileiro para além do Oscar

Por O Povo (CE)

A esperada premiação ao filme brasileiro "O Agente Secreto" não veio em 2026, infelizmente, apesar das indicações obtidas nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Seleção de Elenco. Resultado que gera uma frustração, é natural, mas que precisa ser administrado no seu limite para que não acabe por minimizar os ganhos que a atividade teve com a visibilidade dos últimos anos, lembrando-se que a estatueta em 2025 havia sido ganha por "Ainda Estou Aqui".

A própria trajetória internacional vitoriosa de "O Agente Secreto", para além do Oscar com toda sua simbologia e influência, desautoriza, em tese, qualquer sentimento de derrota com o que aconteceu na noite do último domingo. São, no total, 76 prêmios acumulados, alguns deles de festivais bastante disputados, a começar pelo reconhecimento em Cannes, de onde o filme saiu com duas estatuetas: melhor ator, para Wagner Moura, e melhor diretor, para Kléber Mendonça Filho. Foi o primeiro reconhecimento, de muitos que viriam ao longo da temporada.

A qualidade do cinema brasileiro é reconhecida pelo mundo e isso não depende de premiações que suas obras eventualmente recebam, inclusive porque os critérios utilizados nem sempre correspondem aos padrões técnicos mais rigorosos. Qualquer análise que se faça do desempenho do representante brasileiro precisa partir deste ponto, o que indica que temos um saldo altamente positivo no balanço de encerramento da temporada de filiações. Com o Oscar incluído e apesar do resultado final frustrante

Lamente-se, apenas, termos vivenciado mais uma situação em que a contaminação política levou o debate para um outro caminho, no ponto limite em que a falta de prêmio do nosso representante na festa chegou a ser objeto de comemoração por parte de alguns. Claro que não se pode obrigar que as pessoas tenham gostado do filme apenas pelo fato dele ter, simbolicamente, as cores do nosso País, mas, de outra parte, também é pouco lógico que as posições ideológicas dos envolvidos, em especial do diretor Kléber Mendonça e do ator Wágner Moura, fundamente a resistência de uma parcela de brasileiros ao enjagamento na entusiasmada torcida para que saíssemos vencedores mais uma vez.

O importante, como saldo positivo real de todo o processo, é que os dois anos consecutivos do Brasil no Oscar, disputando mais de uma categoria em ambos e incluindo sua obra na disputa pelo prêmio principal de Melhor Filme geral, sinalizam um momento favorável. É preciso, agora, que a reconexão com o público, o reencontro com qualidades que o cinema nacional sempre apresentou, sejam transformados em ações concretas para termos uma política para o setor capaz de lhe garantir sustentabilidade e evitar que estejamos apenas diante de uma onda que, como outras já vivenciadas, um dia passará.

Nenhum comentário: