sábado, 21 de março de 2026

Carmen Lúcia e a esperança às mulheres, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A sua proposição "parem de nos matar, porque nós não vamos morrer" traduz de forma didática uma reflexão filosófica muito profunda: a de que é impossível negar a liberdade de uma mulher ou de qualquer ser humano

É difícil para uma mulher bem informada se manter confiante e esperançosa nos tempos que vivemos. As razões são múltiplas, e cito algumas só para ilustrar o quão grave é o nosso problema. Falo da evidência cotidiana da violência generalizada que vitimiza tantas mulheres; da deficiência do Estado em proteger e promover mudanças estruturais; do déficit de representação política que dificulta uma transformação mais profunda da sociedade; do empobrecimento econômico que atua como obstáculo substancial para a autonomia e desenvolvimento feminino.

O cenário é de desigualdade extrema entre homens e mulheres, alimentada por uma organização da sociedade que atua para reproduzir as assimetrias, condenando as mulheres a um ciclo vicioso de vulnerabilidade, pobreza e dependência. Um panorama tão sombrio parece nos condenar ao pessimismo e à desistência de qualquer projeto emancipatório mais ousado, e todas as pessoas que trabalham para a mudança desse estado de coisas precisam, entre seus desafios, administrar a própria fadiga e desmotivação. Há momentos em que a justiça parece mesmo uma quimera impossível.

Nesses momentos da história, vozes capazes de levantar o ânimo coletivo e renovar a esperança de cada indivíduo são muito valorosas. Foi com esse espírito de fôlego renovado que o auditório da Faculdade de Direito da UFC, lotado com centenas de pessoas, aplaudiu de pé o discurso da ministra Carmen Lúcia, juíza do STF, na última segunda-feira.

A ministra preparou uma fala acessível, forte e muito bem articulada, por meio da qual defendeu enfaticamente a dignidade feminina e o nosso direito a dizer não, a viver e a prosperar. A sua proposição "parem de nos matar, porque nós não vamos morrer" traduz de forma didática uma reflexão filosófica muito profunda: a de que é impossível negar a liberdade de uma mulher ou de qualquer ser humano.

Afinal, não é a imposição violenta da morte uma manifestação da ideia de que as mulheres podem ser aniquiladas se quiserem exercer sua autonomia? Não é o feminicídio um ato de negação da humanidade da mulher? Uma forma de dizer que o "não" é, para nós, um luxo impossível? Quando a ministra afirma, corajosamente, que não vamos morrer, que temos o direito de escolher a vida de queremos e de traçar os nossos caminhos, ela reconhece nossa aptidão inalienável à liberdade, mesmo quando toda a realidade quer nos convencer do contrário.

Sobreviver e lutar pela sobrevivência das outras mulheres se torna, assim, um exercício de resistência, uma afirmação política de nosso potencial de autonomia. E, por mais repetitivo que pareça, é preciso reafirmar, violência após violência: nós somos dignas, somos livres e temos direito a viver sem medo.

 

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