Lula e Alcolumbre têm de acelerar sabatina de Messias
Por O Globo
Presidente precisa enviar mensagem oficial, e
inquirição deve ser logo. STF não pode ficar com ministro a menos
Não é razoável o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continuar procrastinando a formalização da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, à vaga aberta em outubro pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF). Logo em novembro, Lula anunciou que seu escolhido era Messias. O indicado se disse “honrado”, e tudo parecia seguir o rito habitual. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), marcou a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para 10 de dezembro, prazo que não daria a Messias tempo de se apresentar aos senadores. Em seguida desentendimentos emperraram o andamento. O governo, receoso de não contar com os 41 votos necessários para a aprovação, segurou o envio da mensagem presidencial ao Senado com o nome de Messias — e Alcolumbre cancelou a sabatina. Desde então, o Supremo tem funcionado com apenas dez ministros.
É inadmissível privar o STF de quase 10% dos
integrantes. Com a promulgação da Constituição em 1988, partidos políticos,
sindicatos e outras organizações passaram a poder acionar a Corte sem antes
passar por instâncias inferiores. Esse arranjo aumentou a percepção de acesso à
Justiça, mas fez com que os ministros começassem a receber dezenas de milhares
de processos anualmente. Do início de janeiro até agora, a Corte já tomou mais
de 22 mil decisões. Durante um ano inteiro, o Tribunal Constitucional da
Alemanha não chega a julgar 6 mil processos. A Suprema Corte americana fica
abaixo de cem casos. Sem um de seus 11 integrantes, a última instância da
Justiça no Brasil acumula trabalho e adia decisões fundamentais para a
sociedade.
Alcolumbre nunca escondeu que seu favorito
era o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Mas vale lembrar que é
prerrogativa do presidente da República indicar ministros ao Supremo,
respeitadas as condições previstas na Constituição (reputação ilibada e notório
saber jurídico). Mestre e doutor em Direito pela Universidade de Brasília,
Messias é o principal interlocutor da Esplanada dos Ministérios junto ao
Supremo. Tem trânsito entre todos os ministros da Corte, inclusive Nunes
Marques e André Mendonça, os dois indicados por Jair Bolsonaro. A última
rejeição do Senado ocorreu ainda no século XIX, no governo de Floriano Peixoto,
mas é prerrogativa da Casa avaliar os indicados para aprová-los ou rejeitá-los.
Embora não haja motivo aparente para barrar o nome de Messias, o papel dos
senadores é submetê-lo a uma sabatina rigorosa, capaz de avaliar seu
conhecimento jurídico e sua competência para o cargo. O que não deve acontecer
é uma indicação ao Supremo servir de pretexto para um cabo de guerra entre
Executivo e Legislativo.
Ao formalizar a indicação, Lula transferirá o
ônus aos senadores. Caberá então a Alcolumbre marcar, agora com presteza, a
sabatina na CCJ. No governo Bolsonaro, ele segurou por meses a sabatina de
Mendonça, também motivado por circunstâncias políticas. É fundamental que esse
comportamento deletério não se repita. O Brasil não pode ficar com um ministro
a menos em virtude de um capricho.
Condenação de deputados contribui para expor
descontrole das emendas
Por O Globo
Julgamento que puniu parlamentares é recado
para as autoridades encaminharem solução definitiva
As primeiras condenações por corrupção com
emendas parlamentares no Supremo Tribunal Federal (STF)
pode ser um marco na moralização do uso de dinheiro público. Em processo
relatado pelo ministro Cristiano Zanin, a Primeira Turma do STF condenou por
unanimidade três parlamentares — Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Gildenemir de
Lima Sousa (PL-MA) e João Bosco da Costa (PL-SE) — por terem cobrado e recebido
propina para enviar emendas ao município de São José de Ribamar (MA). Além de
cumprir penas de reclusão superiores a cinco anos, eles terão de devolver aos
cofres públicos R$ 1,7 milhão, propina cobrada ao prefeito da cidade para o
envio de emendas somando R$ 6,7 milhões — comissão de 25%. O mais grave é que
os recursos desviados se destinavam a financiar atendimentos de saúde pelo
município, um serviço prioritário.
A condenação é o primeiro desdobramento
jurídico na responsabilização de parlamentares depois que veio à tona o
escândalo das emendas de relator, ou RP9, mecanismo que ficou conhecido como
“orçamento secreto”. Como elas não satisfaziam a critérios mínimos de
transparência e rastreabilidade — encobriam até o autor do repasse —, foram
julgadas inconstitucionais em 2022. Isso não impediu que o Congresso
encontrasse mecanismos alternativos para manter em seu poder a execução de
parcela expressiva do Orçamento. Passaram a ser usadas emendas de bancada, de
comissão e até parcelas dos gastos de ministérios reservadas e submetidas aos
desígnios de parlamentares.
O Congresso analisará agora se cassará o
mandato dos deputados, também declarados inelegíveis. Deveria cassá-los, para
estabelecer um padrão de conduta ética no Legislativo. Outro trabalho urgente é
rever o volume de recursos que deputados e senadores passaram a acumular por
meio de emendas. De 2015 a 2026, a participação das emendas na receita corrente
líquida (RCL) da União multiplicou-se por três (de 1,2% para 3%). O Congresso
ainda determinou que as emendas individuais e de bancadas estaduais se
tornassem impositivas.
No julgamento dos três deputados, o ministro
Flávio Dino lembrou que ainda existem dezenas de inquéritos em andamento para
apurar crimes semelhantes. Parte deverá se converter em ações penais. É bom que
isso ocorra, e, quando ocorrer, Legislativo e Judiciário, com ajuda do
Executivo, deveriam encontrar um terreno comum para resolver a questão em
definitivo, reduzindo o volume de emendas a um patamar aceitável.
O descontrole e a quantidade de dinheiro à disposição dos parlamentares é uma porta escancarada para a corrupção. Ao expor o problema, a condenação de parlamentares pelo STF pode contribuir para encaminhar uma solução.
Gilmar insiste em blindagem vexatória de
Toffoli
Por Folha de S. Paulo
Decano impede quebra de sigilo de fundo de
Vorcaro com o qual empresa ligada ao colega de toga fez negócio
Crise avança com delação premiada do
ex-banqueiro; será inaceitável um acordo que não esclareça suas relações com
dois ministros do STF
O escândalo do Banco Master ainda
não havia chegado ao Supremo Tribunal Federal (STF) quando o
ministro Gilmar Mendes criou
uma inusitada blindagem para si e para os colegas de toga. No início de
dezembro, uma canetada monocrática fixou normas que dificultavam o impeachment
dos membros da corte, sanção que pela Constituição cabe
ao Senado.
Poucos dias depois, o ministro Dias Toffoli determinou
a subida do caso Master para o Supremo, a primeira de uma série de decisões
esdrúxulas que se tornaram motivo de suspeita grave quando vieram à tona suas
relações financeiras com o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro. Desde então, o ímpeto protetivo de Gilmar ganhou foco.
Em fevereiro, o decano do tribunal suspendeu a
quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt,
que tem Toffoli entre seus sócios e fez negócios com o fundo de investimentos
Arleen, ligado à rede de Vorcaro. Cometeram-se não poucas heterodoxias
jurídicas para impedir a providência aprovada na CPI do Crime Organizado.
O serviço foi completado na quinta-feira
(19) com a
suspensão da quebra dos sigilos do Arleen, votada pela mesma
comissão de inquérito. Gilmar argumentou que a decisão do colegiado foi tomada
sem discussão individualizada do caso —o fundo ligado ao ex-banqueiro fez
aportes de R$ 35 milhões em um resort do qual a Maridt, de Toffoli, era sócia.
Formalismos à parte, é inescapável a
percepção de que os magistrados se valem de seus poderes para autoproteção.
Assim também pareceu quando Alexandre de
Moraes, cuja mulher teve revelado contrato de inexplicáveis R$ 129
milhões para serviços advocatícios ao Master, ordenou
devassa na Receita Federal para apurar supostas quebras de
sigilo de ministros e seus familiares.
A perspectiva é de aprofundamento da crise
com uma delação premiada de Vorcaro, que já assinou termo de confidencialidade
com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia
Federal. Não há mais do que especulações a respeito das revelações a
serem feitas, mas será obviamente inaceitável um acordo que não esclareça suas
relações com dois ministros da mais alta corte do país.
São poucas, afinal, as possibilidades de
escrutínio institucional da conduta dos magistrados. Uma investigação da PF
depende da autorização do presidente do STF, Edson Fachin,
que enfrenta resistências corporativistas internas até para implantar um já
tardio código de ética.
Nem mesmo a óbvia suspeição de Toffoli na
relatoria do caso Master foi apontada por seus pares —quando sua situação ficou
insustentável, improvisou-se manobra para que André
Mendonça o substituísse no posto.
Restam os trabalhos de CPIs e o recurso
extremo ao impeachment, ambos na mira das decisões de Gilmar. O Supremo faria
melhor se tomasse a frente de um processo de apuração e esclarecimento das
suspeitas que recaem sobre seus membros.
STF deve conceder prisão domiciliar a
Bolsonaro
Por Folha de S. Paulo
Nova internação hospitalar deveria levar a
corte a rever condições de encarceramento do ex-presidente
É fato que o tema está cercado de pressões
políticas, mas a decisão deve se pautar apenas por princípios do Estado de
Direito
Jair
Bolsonaro (PL) foi justamente
condenado por tentativa de golpe de Estado em razão da comprovada conspiração
contra o resultado da eleição presidencial de 2022, mesmo que as dimensões
exageradas de sua punição sejam ainda hoje objeto de debate político e
jurídico.
Ao fazer tais considerações na ocasião da
sentença do Supremo Tribunal Federal (STF), em
setembro do ano passado, esta Folha acrescentou que a corte deveria
ouvir os argumentos da defesa para que o ex-mandatário cumprisse em
casa a pena de 27 anos e três meses de prisão. Essa recomendação se
faz mais urgente agora.
O ex-presidente se encontra internado há
uma semana em unidade de terapia intensiva de um hospital
de Brasília,
no qual deu entrada para tratar uma broncopneumonia bacteriana em ambos os
pulmões. Seu quadro chegou a ser considerado "extremamente grave"
pelos médicos.
Houve melhora nos últimos dias, o que permite
esperar alta em breve. O Supremo deveria evitar novos riscos a partir de agora.
Bolsonaro está completando 71 anos de idade
neste sábado (21) e tem a saúde comprometida pelo atentado à faca que sofreu na
campanha de 2018. Desde então, foi submetido a uma série de procedimentos
cirúrgicos e a dezenas de internações.
É verdade que o ex-mandatário deu motivos
para começar a cumprir sua pena em regime fechado. Em novembro, quando ainda
aguardava em casa a designação de seu cárcere, tentou estupidamente violar a
tornozeleira eletrônica que usava e foi levado à Polícia
Federal, de onde sairia em janeiro rumo a uma penitenciária do Distrito
Federal.
É fato também que o tema está cercado de
paixões e cálculos políticos, que se intensificam com a aproximação da disputa
pelo Planalto. A direita populista investe contra um Supremo desgastado pelo
caso Master, enquanto, na própria esquerda, já se temem impactos eleitorais
decorrentes de um eventual agravamento da situação de Bolsonaro.
Tais pressões, entretanto, não podem pesar em
uma nova decisão da corte —que precisa guiar-se tão somente pela aplicação de
princípios do Estado de Direito. Por gravíssimos que tenham sido os crimes
cometidos, não se justifica submeter o condenado a condições desumanas para sua
idade e seu quadro de saúde.
Esse entendimento fundamentou a concessão de prisão domiciliar humanitária a outro ex-presidente, Fernando Collor. O mesmo deveria ser feito agora, com a devida exigência de que Bolsonaro adeque seu comportamento para fazer jus ao benefício.
A dimensão do descrédito do Supremo
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa AtlasIntel/Estadão revela um
declínio consistente da confiança social no STF, o preço de decisões que minam
os controles republicanos e reforçam a blindagem corporativista de ministros
A pedido do Estadão, a AtlasIntel realizou uma
pesquisa sobre o nível de confiança dos cidadãos no Supremo Tribunal Federal
(STF). O resultado, que o leitor pode ler em detalhes na edição de hoje, é um
quadro perturbador da relação entre a sociedade e a mais alta instância
judicial do País.
Ao serem perguntados se confiam nos ministros
do STF, nada menos que 60% dos entrevistados afirmaram que “não”, ante apenas
34% que disseram confiar. O dado, desastroso por si só, é ainda pior quando
visto à luz da série histórica. Desde janeiro de 2023, a confiança média no STF
oscilou na faixa de 45%, o que significa um declínio de 11 pontos porcentuais
em pouco mais de dois anos.
É lastimável, mas fácil entender esse quadro,
que deixou de refletir somente os ataques dos que pregam a deslegitimação da
Corte como instituição democrática e hoje é voz de estratos sociais mais
amplos. A erosão da confiança no STF é obra interna, o preço do mau
comportamento de ministros que não têm respeitado os limites que lhes são
impostos pela Constituição nem se portado com a dignidade inerente à
magistratura. Isso alimenta a percepção de distanciamento da sociedade,
sinalizando, em muitos casos, um absoluto desprezo pelos mais comezinhos
controles republicanos.
Um caso recente, longe de ser o único,
ilustra com nitidez a razão do descrédito do STF. Na quinta-feira passada, o
decano Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo bancário do fundo Arleen,
determinada pela CPI do Crime Organizado. A medida, aprovada regimentalmente
pela comissão na véspera, insere-se no rol de prerrogativas de uma CPI,
amplamente reconhecidas pela jurisprudência da própria Corte. Ao classificá-la
como “medida excepcional”, o decano não só inovou no plano jurídico, como ainda
limitou o poder democrático do Congresso de investigar – um dos pilares do
sistema de freios e contrapesos.
A decisão de Mendes ganha contornos de
blindagem corporativista quando considerada sua ligação direta com os
interesses do ministro Dias Toffoli. Desde a eclosão do caso Master e a
revelação das relações perigosas entre autoridades e o dono do banco, Daniel
Vorcaro, uma sucessão de decisões judiciais têm freado o avanço de
investigações que envolvem ministros da Corte, o que inevitavelmente suscita
dúvidas legítimas da sociedade sobre as intenções de Suas Excelências.
Naquele mesmo dia, em emocionada ode ao
ministro Alexandre de Moraes, que completava nove anos no STF, o decano alçou o
colega à condição de fiador da democracia brasileira, nada menos. Mendes
reforçou assim a crença de que se criou um escudo corporativo-personalista na
Corte que nem remotamente condiz com os ideais republicanos. Ora, é inegável
que Moraes desempenhou papel relevante na história recente do País,
especialmente na resposta institucional à intentona golpista, mas a higidez da
democracia brasileira não é obra de uma autoridade. A República não é
sustentada por heróis, mas por instituições sólidas e, principalmente, por uma
sociedade civil vigilante.
O mito do “salvador da Pátria” afronta a realidade
factual e serve ao baixo propósito de blindar autoridades do escrutínio
público. Ao afirmar que “as futuras gerações” julgarão o bem que Moraes teria
feito ao Brasil, Mendes tenta isentá-lo de responsabilidade por seus atos no
presente. E Moraes tem respostas a dar à sociedade brasileira, sobretudo a
respeito de suas relações com Vorcaro e o Banco Master. O “tribunal da
História”, aludido pelo decano, é um expediente retórico típico dos
autoritários que encaram a responsabilização de poderosos como incômodo, não
como esteio da vida democrática.
Não surpreende que, ainda de acordo com a
pesquisa AtlasIntel/Estadão,
57% dos brasileiros considerem “extremamente importante” a aprovação de um
código de conduta para os ministros do STF, como defende o presidente da Corte,
Edson Fachin. O legítimo anseio por regras claras de comportamento é corolário
da percepção de que os atuais mecanismos de controle do STF falharam.
Confiança pública é difícil de ser obtida e
fácil de ser perdida. No caso do STF, a corrosão de sua credibilidade não só
tisna a imagem do Poder Judiciário, como inviabiliza o funcionamento do Estado
Democrático de Direito. Sem um árbitro reconhecido por todos como legítimo e
confiável, não há democracia que pare de pé.
O custo do desmonte da reforma trabalhista
Por O Estado de S. Paulo
As empresas brasileiras gastaram mais de R$
50 bilhões com ações trabalhistas em 2025, como reflexo do alto volume da
judicialização; decisões do STF e TST ajudam a retomar alta litigância
As empresas brasileiras gastaram no ano
passado mais de R$ 50 bilhões em ações trabalhistas. A elevada cifra é reflexo
da alta no volume de ações ajuizadas na Justiça do Trabalho. Conforme aumenta o
número de processos trabalhistas nas varas do País afora, cresce também o
montante de recursos que escoam das companhias para o pagamento de acordos e
condenações judiciais. Como se pode ver, o desmonte da reforma trabalhista tem
custado muito caro ao País.
Esse processo de desfiguração das mudanças da
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é progressivo. Quando a reforma
trabalhista do governo Michel Temer entrou em vigor, o primeiro grande feito
foi a redução do volume de ações. Para se ter uma ideia, a quantidade de
processos caiu de 2,6 milhões em 2017 para 1,7 milhão em 2018. O objetivo era
impor, acertadamente, alguma racionalidade ao contencioso trabalhista e conter
a litigância aventureira e de má-fé.
Para isso, a parte derrotada, mesmo que
beneficiária da chamada Justiça gratuita, teria de arcar com os custos dos
honorários periciais e sucumbenciais – que são devidos à defesa da parte
vencedora. Ou seja, o litigante deveria ser responsável ao fazer seus pedidos.
Mas não só: foram estabelecidas regras mais claras sobre quem tem direito ao
benefício da Justiça gratuita, ficando definido que o acesso seria assegurado
aos mais pobres, que são aqueles que ganham até 40% do teto da Previdência
Social (R$ 3.262,96).
As boas intenções da reforma trabalhista não
resistiram por muito tempo. Primeiro, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou
os beneficiários da Justiça gratuita de arcar com os honorários, o que endossou
a litigância descompromissada. Depois, o Tribunal Superior do Trabalho (TST)
subverteu o texto da lei e decidiu que basta declarar, e não provar, que é
pobre para ter acesso à Justiça gratuita, promovendo uma espécie de
distribuição de renda às avessas.
É legítima a decisão da sociedade, por meio
do legislador, de conceder o acesso gratuito à Justiça a uma parcela da
população. “Mas a escolha da sociedade”, como bem explicou ao Estadão o juiz do trabalho
e ex-auxiliar da vice-presidência do TST Rogério Neiva, foi socorrer apenas “os
mais pobres”. Não parece que altos executivos, envolvidos “em ações de R$ 1
milhão, R$ 2 milhões”, conforme relatou o advogado Aloizio Ribeiro Lima, sócio
do escritório Lefosse, sejam os merecedores do benefício.
O resultado não poderia ser outro: as
decisões do STF e do TST ajudaram a retomar o status anterior da reforma
trabalhista, que não era nada abonador para o desenvolvimento econômico do
País: um cenário de alta judicialização e de elevado custo das ações
trabalhistas. Só no ano passado, foram ajuizadas 2,3 milhões de ações em
primeira instância, confirmando a tendência paulatina de alta. Soma-se a isso o
montante vultoso de recursos financeiros desviados de investimentos na
atividade econômica das companhias, na melhoria da remuneração dos
colaboradores ou na amortização de dívidas.
O STF pode pôr um pouco de ordem na bagunça
que fez junto com o TST. Tramita na Corte constitucional uma ação que questiona
o acesso à Justiça gratuita por mera autodeclaração e até o perfil de quem pode
receber o benefício. O ministro Edson Fachin, relator do caso, seguiu o
entendimento do TST, mas o ministro Gilmar Mendes discordou, propondo o acesso
ao benefício a quem ganha até R$ 5 mil por mês. Não se pode negar que se trata
de um teto para impedir os reiterados abusos. Mas é sempre bom lembrar que
basta retomar a autoridade da lei: a regra prevista na CLT que tem como base o
teto do benefício da Previdência.
Uma boa decisão do Supremo pode reduzir o
volume de processos e o montante de gastos das empresas com ações. Por ora, o
Poder Judiciário só fez lambança na área trabalhista: criou regras, violando a
separação dos Poderes; subverteu a lei, sob a alegação de interpretá-la; e
disseminou a insegurança jurídica, dificultando a vida das empresas, aumentando
seus custos e tornando o Brasil um país ainda mais hostil aos negócios.
Cuba se adapta a Trump
Por O Estado de S. Paulo
Washington transaciona com Havana uma
abertura econômica em troca da manutenção do regime
Cuba entrou em uma fase nova. Não por
escolha, mas por exaustão. O estrangulamento energético, os apagões e a
deterioração dos serviços já eram evidentes. Agora, algo mais começa a
aparecer: sinais discretos, mas consistentes, de ajuste. O ditador Miguel
Díaz-Canel admitiu conversas com Washington. O Vaticano mediou a libertação de
cerca de 50 presos políticos. Medidas que ampliam o espaço para investimento
privado – inclusive da diáspora – começam a surgir. Não é uma virada consumada.
Mas tampouco é rotina.
A leitura mais tentadora é a de que o regime,
estabelecido por Fidel Castro em 1959 e que inspirou tantos outros na América
Latina desde então, se aproxima do fim. No entanto, mesmo debilitado, o poder
em Havana continua apoiado em estruturas coesas – com respaldo decisivo das
Forças Armadas – e na ausência de alternativas organizadas. A crise é profunda.
A queda, incerta. Cuba lembra menos a implosão soviética dos anos 1980 do que
uma transição gradual. Comparando-se com o processo que levou ao fim da URSS, e
tomando emprestados os termos históricos daquele momento – perestroika (abertura
econômica) e glasnost (abertura
política) –, pode-se dizer que Cuba caminha para a perestroika sem passar pela
glasnost.
A pressão externa não produziu ruptura, mas
movimentação. Ao restringir o acesso a energia e receitas, o presidente dos
EUA, Donald Trump, estreitou o espaço de manobra do regime. Isso bastou para
levá-lo à mesa. Negociar, porém, não é capitular. É ganhar tempo, redistribuir
custos e testar concessões. O precedente venezuelano sugere que Washington já
aceita transações imperfeitas quando a alternativa é a estagnação, em uma
abordagem mais pragmática e gradualista, menos orientada por objetivos
ideológicos e mais voltada a resultados estratégicos na região.
O cenário mais plausível é menos dramático –
e mais desconfortável. Um acordo limitado, com abertura econômica parcial –
expansão do setor privado, entrada de capital externo e maior integração
financeira –, concessões pontuais e algum rearranjo no topo, preservando o
núcleo do poder. Seria o resultado de um equilíbrio delicado entre o mínimo
aceitável para Washington e o máximo tolerável para Havana. Nada disso satisfaz
quem espera uma transição limpa. Mas corresponde à forma como regimes
resilientes mudam: por adaptação, não por implosão.
Há quem veja no momento atual a melhor
oportunidade em décadas para forçar a ruptura. O argumento tem apelo, mas
ignora o essencial: o que viria depois? Nem o alívio sem contrapartidas nem o
colapso sob pressão oferecem saídas claras. Quando um Estado desmorona antes
que novas estruturas surjam, o resultado costuma ser caos, não liberdade. A
alternativa a um acordo “sujo” pode não ser uma democracia, mas um vazio.
O fato de um acordo ser pragmaticamente justificável não elimina o custo moral de negociar com uma ditadura. Ainda assim, a política externa raramente oferece escolhas limpas entre o ideal e o execrável. Mais frequentemente, impõe escolhas entre o possível e o ilusório. O risco maior, neste momento, não está em aceitar acordos imperfeitos, mas em fantasiar que a pressão, por si só, produzirá algo melhor.
O exemplo que deve vir de cima
Por Correio Braziliense
Embora frequentemente justificados como
direitos adquiridos ou compensações legais, esses benefícios são percebidos
pela sociedade como privilégios incompatíveis com a realidade fiscal do país e
com o princípio republicano da igualdade perante a lei
A atuação recente do ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, ao enfrentar a chamada "farra dos
penduricalhos" e defender a perda de cargo de magistrados com conduta
incompatível com a toga, repõe no centro do debate público os limites éticos e
materiais do Poder Judiciário. Suas decisões sinalizam que realmente há, no
interior da mais alta Corte do país, uma preocupação com os excessos
corporativos que corroem a legitimidade institucional.
A expressão "penduricalhos" é
sinônimo de distorções salariais no setor público, inclusive no Judiciário:
auxílios, gratificações e indenizações que extrapolam o teto constitucional.
Embora frequentemente justificados como direitos adquiridos ou compensações
legais, esses benefícios são percebidos pela sociedade como privilégios
incompatíveis com a realidade fiscal do país e com o princípio republicano da
igualdade perante a lei. Ao agir contra esses abusos, Dino defende a moralidade
administrativa, prevista no artigo 37 da Constituição, e reafirma o papel do
STF como guardião da legalidade e da legitimidade das instituições.
Da mesma forma, a defesa de punições mais
severas para magistrados que violam os deveres funcionais enfrenta uma questão
historicamente negligenciada: a baixa efetividade dos mecanismos disciplinares
internos. O sistema de responsabilização da magistratura, em grande medida
conduzido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) avançou nos últimos anos, mas
ainda enfrenta resistências corporativas e limitações normativas. A aposentadoria
compulsória como sanção máxima — muitas vezes vista como um prêmio disfarçado —
tornou-se símbolo dessa insuficiência. Ao defender a perda do cargo em casos
graves, Dino leva em conta uma demanda social por maior rigor e transparência.
Essas iniciativas representam um avanço e
expõem uma lacuna que o próprio STF precisa enfrentar: a ausência de um Código
de Ética efetivamente implementado e aplicado aos seus próprios ministros.
Trata-se de uma contradição institucional. A Corte exige padrões elevados de
conduta dos demais magistrados, mas ainda carece de um instrumento normativo
claro, público e vinculante que discipline o comportamento de seus integrantes.
O exemplo deve vir de cima.
A adoção de um Código de Ética para o STF não
é apenas uma questão formal. Nas democracias, cortes constitucionais e supremas
cortes operam sob regras explícitas de conduta, que abrangem desde conflitos de
interesse até manifestações públicas e relações institucionais. Esses códigos
funcionam como balizas para a autocontenção — um valor essencial em tribunais
com grande poder político, como é o caso brasileiro.
O STF ocupa posição central no sistema
político, decide sobre temas que vão da regulação das redes sociais a disputas
eleitorais e investigações criminais envolvendo altas autoridades. A ausência
de parâmetros éticos claros na Corte amplia o espaço para críticas à
instituição. A percepção de ativismo judicial, somada a episódios de exposição
pública excessiva de ministros, contribui ainda mais para desgastar a imagem da
Corte junto à opinião pública.
Não se trata de restringir a atuação do STF,
mas de fortalecê-la. A legitimidade de uma corte constitucional não decorre
apenas de suas competências formais, mas da confiança que inspira na sociedade.
E essa confiança está diretamente ligada à percepção de imparcialidade,
sobriedade e respeito às regras por parte da sociedade.
Um Código de Ética bem estruturado
estabelecerá diretrizes objetivas sobre impedimentos, participação em eventos,
relações com partes interessadas e uso da função para projeção pessoal. Mais do
que isso, serviria como instrumento pedagógico e simbólico, sinalizando que os
ministros estão submetidos aos mesmos princípios que exigem dos demais agentes
públicos.
A história mostra que instituições fortes não são aquelas imunes a críticas, mas aquelas capazes de se reformar. As decisões de Flávio Dino apontam para um caminho de maior rigor e responsabilidade no Judiciário. Falta, agora, que o próprio STF dê o passo seguinte: institucionalizar a ética no mais alto nível.
A "guerra" que nos cabe travar
Por O Povo (CE)
Assim é que os últimos dias registraram
reajustes nos preços de gasolina, óleo diesel e etanol que ainda não se
justificam pelo quadro crítico mundial originário da guerra, inclusive porque
houve um primeiro movimento das autoridades no sentido de mitigar a resultante
do ambiente bélico que assusta o mundo
Era inevitável que a situação criada pelo
ambiente de guerra estabelecido no Oriente Médio, a partir dos confrontos
entre forças militares de Israel, Estados Unidos e do Irã,
tivesse repercussão na economia de praticamente todos os países devido,
basicamente, aos seus efeitos diretos e imediatos sobre o mercado de petróleo.
A região na qual se travam os combates, afinal, responde por grande parte da
produção mundial.
O consumidor brasileiro tem sentido essas
consequências, também porque existem os oportunistas. Assim é que os últimos
dias registraram reajustes nos preços de gasolina, óleo diesel e etanol
que ainda não se justificam pelo quadro crítico mundial originário da guerra,
inclusive porque houve um primeiro movimento das autoridades no sentido de
mitigar a resultante do ambiente bélico que assusta o mundo.
É papel do governo, neste momento,
identificar os comportamentos e combater a parte relacionada à ação de
inescrupulosos que buscam tirar proveito para auferir benefícios próprios pela
exploração criminosa de uma crise. A prioridade zero deste momento, numa escala
de respostas que se deve cobrar daqueles que estão obrigados a agir em defesa
da sociedade, é garantir que sejam mínimas as consequências sobre o já sofrido
bolso do cidadão brasileiro. Claro que será impossível evitar isso na
totalidade e algum efeito nos chegará, cedo ou tarde.
O ambiente político torna as coisas piores,
porque os antagonismos eleitorais programados para 2026 tornam mais difíceis,
até impossíveis em alguns casos, uma articulação mais ampla para enfrentar o
quadro desafiador, colocando-se o interesse público (do público) à frente de
qualquer outro. Por isso, inclusive, um apelo do Governo Federal às gestões
estaduais para que aceitem abrir mão, temporariamente, de uma parcela de
impostos para permitir um controle nos preços está sendo ignorado por grande
parte dos governadores. Quando não, rejeitado por alguns deles em termos duros
e firmes.
O governo Lula deve, porém, insistir no
diálogo para encontrar um caminho que leve ao melhor caminho, da mesma forma
que precisa agir desprovido de qualquer viés ideológico ou partidário.
Aconteceu, por exemplo, quanto à ameaça de greve dos caminhoneiros, justificadamente
incomodados pelo fato de o preço do diesel ter sofrido um salto repentino nas
bombas, impondo dificuldades extras à já sacrificante atividade que exercem e
que é fundamental para a economia, em praticamente todos os setores.
Os líderes foram chamados à conversa,
atenderam ao aceno e haverá, a partir de agora, um esforço conjunto de buscar
saídas para o problema que está criado. Espera-se o mesmo das forças políticas,
de situação e de oposição, dando um tempo nas acusações mútuas e oferecendo uma
chance para a busca de soluções de consenso.

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