Correio Braziliense
A hospitalização com broncopneumonia
bilateral, ocorrida enquanto cumpre pena, humaniza o ex-presidente e produz um
efeito emocional e mobilizador entre seus apoiadores
O projeto de reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, às vésperas da campanha eleitoral, vive um cenário de
incertezas provocadas por fatores externos e inesperados, que influenciam o
ambiente político. Em eleições competitivas, o desempenho do governo não
depende apenas de suas políticas públicas ou da conjuntura econômica doméstica.
Eventos internacionais, crises institucionais ou episódios envolvendo
adversários podem alterar a percepção do eleitorado e obrigar à redefinição de
estratégias eleitorais.
No momento, três fatos novos alteram o cenário político: a guerra entre Estados Unidos e Irã e seu impacto no preço do petróleo; a internação do ex-presidente Jair Bolsonaro com pneumonia bilateral; e as tensões diplomáticas entre o governo brasileiro e a administração Donald Trump.
A guerra no Oriente Médio é o primeiro fator.
Provocou uma forte elevação do preço do petróleo no mercado internacional. O
barril chegou a atingir US$ 120 e permanece em níveis elevados. Para o Brasil,
país que ainda depende intensamente de combustíveis fósseis para transporte e
produção, essa alta se traduz em pressão inflacionária imediata. Combustíveis
são um dos preços mais sensíveis politicamente, pois afetam diretamente o custo
de vida e os preços de alimentos, transporte e logística.
Choques no preço da energia podem comprometer
políticas econômicas internas estáveis. O risco político para Lula é claro: uma
nova rodada inflacionária pode deteriorar a percepção de bem-estar econômico
justamente quando o eleitor avalia a continuidade do governo. A reação do
Planalto — com desoneração do diesel e subsídios temporários — indica que o
governo reconhece o potencial eleitoral desse problema. Entretanto, trata-se de
uma resposta de curto prazo a uma crise internacional cuja duração ainda é
incerta.
O segundo fator é político e simbólico: a
internação do ex-presidente Jair Bolsonaro em estado grave. Mesmo condenado e
preso por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro continua sendo a principal
referência política da direita brasileira. Sua hospitalização com
broncopneumonia bilateral, ocorrida enquanto cumpre pena, produz um efeito
emocional e mobilizador entre seus apoiadores e humaniza o ex-presidente
perante a opinião pública que não lhe é politicamente favorável.
A situação cria um ambiente de solidariedade
política que pode fortalecer a narrativa de perseguição adotada pelo bolsonarismo
desde a condenação do ex-presidente. Ao mesmo tempo, recoloca Bolsonaro no
centro do debate público e reforça o papel de seu filho, o senador Flávio
Bolsonaro, como herdeiro político do movimento. Em um cenário eleitoral já
polarizado, a saúde do ex-presidente tende a intensificar a mobilização do
eleitorado conservador e aumentar a coesão da oposição.
O imponderável
Para Lula, esse fenômeno representa um
desafio. A polarização entre lulismo e bolsonarismo tem sido um elemento
central da política brasileira desde 2018. Quanto maior a mobilização emocional
do campo adversário, maior a probabilidade de que a disputa eleitoral se torne
plebiscitária, reduzindo o espaço para agendas programáticas e ampliando o peso
das identidades políticas.
Em 2018, durante a campanha eleitoral, a
facada que recebeu em Juiz de Fora praticamente definiu a eleição de Bolsonaro
com ele no leito do hospital; é imprevisível o impacto que pode advir da
eventualidade do ex-presidente falecer estando preso em regime fechado. Seus
recorrentes problemas de saúde já são uma evidência de que já passou da hora de
Bolsonaro ter atendido o pedido de prisão domiciliar humanitária.
O terceiro fator é diplomático: as recentes
tensões entre o governo brasileiro e a administração de Donald Trump. Episódios
como a investigação comercial contra o Brasil, a controvérsia sobre a possível
classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e o
incidente envolvendo o conselheiro norte-americano Darren Beattie, que pretendia
visitar Bolsonaro na prisão e teve seu visto cassado pelo Itamaraty, ampliaram
as fricções entre os dois países.
Embora analistas considerem que não exista
uma crise aberta entre Brasília e Washington, o ambiente tornou-se mais
sensível. O problema para Lula é que a política externa passou a ter
repercussão direta na disputa eleitoral interna. A possibilidade de que Trump
manifeste apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro transformou a relação
bilateral em variável política doméstica. Pesquisa recente mostra que esse
eventual é polarizador: 28% dos eleitores afirmam que aumentariam a chance de
votar em Flávio Bolsonaro, enquanto 32% dizem que isso aumentaria sua
disposição de votar em Lula.
Cresce no Brasil uma percepção crítica em
relação aos Estados Unidos, cuja imagem desfavorável atingiu níveis elevados
nas pesquisas recentes. Isso pode beneficiar Lula entre setores nacionalistas
ou entre eleitores sensíveis a discursos de soberania. Por outro lado, o apoio
explícito de Trump pode consolidar a identificação ideológica entre o
bolsonarismo brasileiro e a direita global. O risco é essa questão escalar e
passar a ser tratada como um divisor de águas eleitoral pelo Palácio do
Planalto, de consequências econômicas e geopolíticas imponderáveis. A presença
de Trump como ator direto na disputa, ao lado da oposição, não pode ser
descartada.

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