Folha de S. Paulo
Juízes pagam preço por recorrer a
subterfúgios para reajustar seus próprios salários
Dano não é apenas reputacional, mas afeta a
própria credibilidade do sistema judicial
Ser visto fazendo coisas tidas como erradas
sempre causa dano reputacional ao autor da ação. O tamanho do prejuízo, porém,
varia, dependendo não só da gravidade do malfeito mas também de sua relação com
a história da pessoa ou instituição envolvidas.
Imagine dois políticos, ambos flagrados num caso extraconjugal. Um deles é um libertário meio hippie, que sempre defendeu o amor livre. O outro é um ultraconservador, que só falava na sacralidade da família.
É perfeitamente justo que o segundo pague,
pela mesma transgressão, um preço reputacional maior que o primeiro. Quando a
infração contradiz uma característica percebida como essencial de quem a
cometeu, o pedágio fica mais caro.
Faço essas considerações para comentar
a fantástica
proliferação dos penduricalhos salariais em carreiras jurídicas. Não
sou insensível ao fim de mês de magistrados. O último reajuste da categoria, de
18%, foi determinado pelo Congresso em 2022. Dependendo do período e do índice
escolhidos, daria para argumentar que o salário-base
dos magistrados perde para a inflação acumulada. Mas, em vez de negociar
anualmente com a fonte pagadora, o Congresso,
aumentos que recomponham seu poder aquisitivo, como precisam fazer quase todas
as categorias de trabalhadores, os juízes escolheram o mais fácil caminho dos
penduricalhos.
Isso os poupa de discutir publicamente os
valores que recebem e lhes permitiu empilhar ganhos que superam a inflação em
qualquer conta razoável. Pior, no acumulado, a maioria recebe subsídios bem
acima do teto constitucional, de R$ 46.366,19. Ou seja, magistrados, cuja
missão é zelar pelo cumprimento das leis, recorreram a criativos subterfúgios
que esvaziam a lei e violam a letra da norma máxima, a Constituição.
Os juízes estão contrariando a essência de
sua função, e é correto que sejam duramente cobrados por isso. Infelizmente, o
dano não é só reputacional mas também institucional. Está cada vez mais difícil
divergir do cidadão que diz que o Judiciário brasileiro não é sério.
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