O Estado de S. Paulo
Será que algum candidato vai colocar a
reforma política institucional no topo de sua agenda?
A campanha mal começou, mas recebo constantemente mensagens de amigos sobre o futuro imediato. Não sei se têm muitos votos, sei apenas que são exigentes e esperam muito do futuro presidente. Acham que sem uma reforma política e institucional, não vale a pena a vitória. Só o eleito, com a legitimidade dos votos, poderia liderar algo assim no Brasil. Pensam numa reforma dos Três Poderes. O Executivo precisa ser responsabilizado, o Legislativo precisa se livrar do fisiologismo medular e perder o controle do Orçamento, que usa como quer. O Judiciário está tão carente de reformas que as ideias estão surgindo do interior da instituição.
Será que algum candidato vai colocar a
reforma política-institucional no topo de sua agenda? É uma agenda que pode ser
confundida com uma crítica ao sistema, mas, na verdade, pode renová-lo como
esperam tantos, apesar de parecer antisistema.
Algumas pessoas que ouço acham que está na
hora de aproveitar a revolução digital e digitalizar o serviço público com o
objetivo de melhorar a vida do cidadão. Não se trata de modernização pela
tecnologia apenas, mas orientar o Estado para uma nova relação com a sociedade:
menos burocracia e maior entrega.
Há também os que pregam um equilíbrio fiscal
sem ambiguidades. Acham que isso não é um dogma liberal, mas a condição básica
para qualquer política de longo prazo. O problema aqui é mais delicado. O
fracasso da social-democracia é atribuído exatamente às tentativas drásticas de
ajuste fiscal que geram espaço para o populismo de direita.
Lula abordou esse tema com muita sinceridade
no discurso de Barcelona. Não tenho saída para isso, mas creio que é preciso,
pelo menos, qualificar os gastos. Desde minha passagem pela Câmara, era
evidente que a máquina estatal poderia economizar sem prejuízo da eficácia.
Um dos pontos mais defendidos numa visão
econômica é a necessidade de colocar a produtividade como prioridade nacional,
para fazer o Brasil crescer de forma sustentada. E solucionar mais facilmente
problemas como a árdua escala de trabalho.
Um consenso é o peso dos trabalhadores por
conta própria, que operam como empreendedores. Não podem ser enquadrados pelas
categorias do passado e precisam de políticas de proteção desvinculadas do
modelo clássico de emprego. Precisam de uma formalização progressiva e
flexível.
Outro consenso, pelo menos entre os que não
idolatram o petróleo, é sobre a necessidade da transição energética. Isso está
sendo encaminhado no governo atual. A continuidade dos esforços poderia
inspirar uma reindustrialização verde, assim como a exportação de energia
limpa.
Essas são demandas de pessoas mais
intelectualizadas. Suas aspirações se encontram num ponto com grande parte de
pessoas simples: segurança pública. Nunca o tema ocupou tanto destaque na
agenda nacional. Nunca foi o topo da lista de assuntos que um presidente do
Brasil discutiu com um presidente dos EUA.
O problema é como isso se desdobra em política
pública com eficácia. Alguns instrumentos legais, como a Lei Antifacção e a
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública foram pensados
para enfocar o problema.
A campanha já apresenta um grande problema
conceitual. Há quem queira definir as facções criminosas como grupos
terroristas. Isso entra em choque com a legislação brasileira, que vê
terrorismo em quem pratica a violência com objetivos políticos, e não apenas
para auferir lucros como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho
(CV).
A classificação de terrorismo poderia abrir
caminho para uma intervenção norte-americana. Aqui está também uma grande
diferença nas principais campanhas. Há uma visão de soberania nacional que não
tolera a ideia de uma intervenção estrangeira. Há uma visão deslumbrada com
Trump e os EUA que parece não se importar com isso.
Aí está uma questão interessante ressaltada
pelo tarifaço. As pessoas no Brasil têm noção de soberania nacional e apoiam
políticas que a defendam, sem bravatas, com maturidade. Isso são apenas algumas
impressões que recolhi nessa fase inicial da campanha, quando ainda não houve
debates ou mesmo entrevistas mais longas sobre a posição dos candidatos.
Por enquanto, o quadro está ocupado com
pesquisas e algumas escaramuças. Mas esses amigos que trocam ideias sobre a
campanha vão se sentir vitoriosos se a população se puser a pensar sobre o
País, quando um homem simples puder ter sua posição sobre o Supremo. Seus
ministros devem ter mandatos ou ficam até se aposentarem? Esse é um problema,
por exemplo, que ainda não chegou à população. O Congresso tem direito de usar
uma parte tão grande do Orçamento se não governa o País?
Quem conseguir disseminar todas as questões
já fez a campanha à sua maneira, sem necessariamente pedir votos na esquina.
O problema agora é recolher todas as dúvidas,
num País imenso e cheio de problemas e esperanças. Depois, veremos os
candidatos percorrendo a imensidão, respondendo às questões e possivelmente
trazendo novas.
A campanha será um curso intensivo para quem
quer conhecer o País.

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