O Globo
Estado, um dos mais cruciais para definir a
eleição presidencial, assiste a indefinições à esquerda e à direita, que
dificultam traçar um prognóstico
Minas Gerais ocupa um lugar singular na
política brasileira porque reúne três características decisivas: é o segundo
maior colégio eleitoral do país, tem um eleitorado social e regionalmente muito
heterogêneo e, historicamente, costuma reproduzir o comportamento médio do
eleitor brasileiro.
Por isso, cientistas políticos frequentemente descrevem Minas como uma espécie de “microcosmo do Brasil”, ou nossa versão de “estado-pêndulo”. Reúne regiões com perfil econômico, cultural e ideológico muito diferentes e oscilou da esquerda à direita ao longo dos últimos ciclos presidenciais.
O norte do estado e o Vale do Jequitinhonha
têm características próximas ao Nordeste, o Triângulo Mineiro dialoga com o
agronegócio do Centro-Oeste, o sul sofre influência econômica, cultural e
política de São Paulo, e a Zona da Mata é historicamente ligada ao Rio.
Esse mosaico faz com que o estado funcione
como termômetro nacional. Não por acaso, desde a redemocratização, quem venceu
em Minas venceu também a eleição presidencial em todo o país. Desde 2014, a
coincidência entre o resultado mineiro e o nacional foi especialmente
impressionante.
Tal centralidade talvez explique, para além
da mítica “desconfiança” dos mineiros, a demora na definição de candidaturas
por lá neste ano, que tem aumentado a ansiedade na direita e na esquerda.
Lula precisa vencer em Minas para compensar
prováveis derrotas no resto do Sudeste. A última rodada da Quaest em dez
estados ainda lhe dá pequena vantagem, na margem de erro, mas acende uma luz
amarela pela alta desaprovação do estado a seu mandato.
Por enquanto, Lula e o PT vivem em compasso
de espera para saber se Rodrigo Pacheco assumirá a empreitada de ser o
candidato lulista em Minas. O senador quer usar o tempo ao limite. Aliados dele
lembram que apenas na última semana da inscrição de candidaturas em 2018 ele se
definiu pelo Senado, e agora não teria por que se apressar. Em relação à
aparente falta de vontade de Pacheco de se lançar à empreitada, um profundo
conhecedor de seu histórico lembra que a vontade nasce da oportunidade. E essa
depende de articulações que passam pelo próprio Lula para montar uma aliança
que vá além do PT.
O plano B que cresceu nos últimos dias é o
ex-presidente da Fiesp Josué Gomes da Silva, cuja única ligação com a política
vem de ser filho do vice de Lula nos dois primeiros mandatos, José Alencar. Na
mesma toada mineiríssima, Josué se filiou ao mesmo PSB de Pacheco, mas recorre
a uma citação do pai para não negar nem confirmar quando lhe perguntam se será
candidato:
— Em época de guerra, boato é como terra.
A indefinição não é exclusividade do campo
lulista. Apesar de liderar a corrida em todos os institutos, o senador
Cleitinho Azevedo (Republicanos) ainda não crava que será candidato. Seu maior
revés a administrar é uma disputa com o deputado Nikolas Ferreira (PL) para ver
quem é a principal liderança da direita no estado.
Romeu Zema (Novo), que deixou o governo num
momento de baixa avaliação, também enfrenta a contingência de estar no terceiro
lugar “em casa”. Sair consagrado de Minas era condição mínima para emplacar uma
candidatura que já padece da dificuldade de contar com um partido nanico e
muita pressão dos aliados por aderir a Flávio Bolsonaro.
Toda essa indefinição dificulta usar os dados
para traçar um prognóstico a respeito do que acontecerá em Minas em outubro. Em
2022, o segundo turno mostrou vantagem ainda mais apertada para Lula sobre Jair
Bolsonaro que no conjunto do Brasil. O presidente precisaria, no mínimo,
repetir esse “empate” para prevalecer sobre o filho do antigo adversário. E,
para isso, precisará colocar a mão na massa de forma mais dedicada do que vem
fazendo até agora.

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