quarta-feira, 6 de maio de 2026

Erosão institucional, por Zeina Latif

O Globo

Rejeição ao indicado ao STF vai além da polarização de extremos, algo mais grave corrói as instituições

A histórica rejeição do Senado ao indicado ao STF pelo presidente é mais um sinal de alerta para o mau funcionamento das nossas instituições.

São várias as versões, de motivação política, para esse episódio, enquanto não se discutiu a norma constitucional, que condiciona a investidura no cargo ao notável saber jurídico e à reputação ilibada — o que não surpreende considerando o padrão nas últimas décadas.

Levantam-se elementos pouco convincentes para explicar a derrota do governo, como a falha nas negociações entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, apesar da liberação de emendas parlamentares; o incômodo com a identificação partidária de Jorge Messias, o que não é algo inédito em candidatos; e a ambição de reeleição de Alcolumbre em 2027, em meio à fraqueza política do presidente e ao esperado crescimento da bancada bolsonarista nas próximas eleições.

Uma outra versão, mais verossímil, seria a existência de conluios entre figuras da República que buscam blindagens no caso das fraudes do Banco Master. Isso por conta do alinhamento de Messias com o ministro André Mendonça, que assumiu a relatoria do inquérito.

Mendonça tem tomado decisões que ampliam a autonomia da Polícia Federal e revisam procedimentos controversos estabelecidos pelo antigo relator, o ministro Dias Toffoli. O esforço para conter os danos políticos teria amalgamado um acordão.

O livro “Como as Democracias Morrem”, de Daniel Ziblatt e Steven Levitsky, ajuda a refletir sobre a importância desse episódio. O ponto de partida dos autores é que o fim de democracias não é necessariamente fruto de golpes de Estado, mas sim de um processo lento de corrosão das instituições.

Os freios e contrapesos da democracia vão se enfraquecendo devido à utilização indevida de prerrogativas institucionais por mandatários e funcionários dos três Poderes.

O poder precisa ser exercido com comedimento, respeitando as normas informais ou os usos e costumes. Seria inadequado, por exemplo, o presidente propor uma emenda à Constituição para alterar o número de membros da Corte, transformando o Judiciário em uma ferramenta de apoio ao governo, como teria desejado o presidente Bolsonaro.

O Congresso, por sua vez, precisa evitar obstrução dos trabalhos legislativos.

Nos EUA, Franklin Roosevelt tentou aparelhar a corte em 1937 para obter aprovação do New Deal, o que gerou críticas duras generalizadas entre democratas e republicanos. A proposta morreu no Senado, com ampla maioria, mesmo sendo extremamente popular.

Em relação ao direito de barrar indicações para a Suprema Corte e outras posições, historicamente, o Senado dos EUA tem sido parcimonioso no seu uso, havendo um consentimento de que cabe ao presidente fazer as indicações.

O governo de Bill Clinton é citado como o momento em que as grades de proteção da democracia americana começaram a sofrer pressões inéditas, com um “jogo duro” institucional — o uso de manobras legalmente permitidas, mas que violam o espírito da lei e as normas não escritas de convivência democrática, enfraquecendo o presidente.

O adversário passa a ser visto como um inimigo que precisa ser neutralizado. A cortesia e a reciprocidade, ingredientes necessários inclusive para não inviabilizar acordos futuros, foram deixados de lado.

Desde então, assistiu-se a uma escalada de hostilidades de lado a lado. Nos anos George W. Bush, foram várias as obstruções promovidas pelos democratas. Com Obama, houve ainda mais obstruções, e a reação do próprio presidente e dos democratas implicou maior rompimento de normas informais, como no maior uso de ordens executivas.

Em 2016, último ano de governo, os republicanos negaram a autoridade de Obama para indicar um juiz para a Corte. O quadro de rompimento de tradições se aprofundou ainda mais com Donald Trump, enfraquecendo a democracia.

No Brasil, com bases mais frágeis, o problema vai além da polarização de extremos, que não teria sido exatamente a responsável pela rejeição de Messias para o STF. Algo mais grave corrói as instituições: o STF cada vez mais contaminado pela política; os sinais de maior aparelhamento estatal, com corrupção e infiltração do crime organizado; e a crise do presidencialismo de coalizão refletida no grande descolamento do Legislativo em relação a agendas republicanas do Executivo.

A erosão institucional assusta mais do que a polarização.

 

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