Folha de S. Paulo
Num país em que a desigualdade social e
cultural sempre foi a regra, os próprios cidadãos passam a não se perceber mais
como parte de uma totalidade
Solidariedade demanda um novo imaginário nacional que reconheça o papel de grupos marginalizados na formação da sociedade
[RESUMO] Autor reflete sobre meios para
fortalecer a confiança entre cidadãos no Brasil, país que teve dificuldade em
forjar um horizonte comum de pertencimento ao longo da história. Em sua
avaliação, é preciso reexaminar o repertório simbólico da construção da
nacionalidade brasileira no século 20 e recompor um passado compartilhado que
reconheça a pluralidade de origens do país.
Nos últimos anos, se tornou recorrente falar
em crise de confiança nas democracias. O tema da confiança ocupa hoje um lugar
central na ciência política, porque as democracias dependem não apenas de
instituições formais, mas também de expectativas compartilhadas de legitimidade
e cooperação entre governantes e cidadãos. Convém, porém, fazer uma distinção.
Alguma dose de desconfiança em relação às instituições não é um problema da democracia, mas uma das suas condições. O povo soberano deve manter vigilância permanente sobre as instituições e aqueles que governam em seu nome.
Dessa desconfiança saudável nascem os
mecanismos de vigilância e controle, aquilo que o historiador
francês Pierre Rosanvallon chamou de contrademocracia. Esses
mecanismos —imprensa, protestos, tribunais constitucionais, organizações
voltadas para a transparência e instrumentos como o impeachment— fazem parte do
funcionamento normal das democracias.
Mas não é exatamente disso que se trata hoje.
Em muitas democracias, as próprias instituições que deveriam contribuir para
reduzir a desconfiança popular passaram a ser objeto de suspeita e contestação.
A crise, porém, é mais profunda. Não diz respeito apenas aos mecanismos de
vigilância e controle, mas sobretudo às divisões que se abriram dentro das
próprias sociedades democráticas.
O avanço do ideário igualitário produziu
transformações sociais rápidas que, para parte significativa da população,
foram percebidas como perda de posição, insegurança ou ameaça. Quando um grupo
passa a acreditar que continuará perdendo indefinidamente dentro das regras
existentes, a sua disposição de continuar jogando segundo essas regras diminui.
A crise de confiança na democracia se dirige
menos às suas instituições que à sua base social: os próprios cidadãos passam a
não se perceber mais como parte de uma totalidade a partir da qual possam
discordar dentro de um horizonte compartilhado de tolerância.
No Brasil, a situação apresenta, como em
qualquer país, dimensões próprias. Talvez nem se trate exatamente de uma
confiança que se perdeu, mas de uma confiança que provavelmente nunca chegou a
existir de forma generalizada.
Diversos estudos mostram que o país apresenta
alguns dos mais baixos níveis de confiança interpessoal do mundo. Em levantamentos sucessivos
do World Values Survey, apenas cerca de 7% dos brasileiros afirmam
que "a maioria das pessoas é confiável", enquanto a imensa maioria
declara que é preciso ter muito cuidado ao lidar com os outros. Em sociedades
do norte da Europa, por contraste, essa proporção frequentemente ultrapassa
60%.
O brasileiro é um povo muito sociável, mas
pouco social. Pode-se pular carnaval com centenas de pessoas, mas não deixar a
carteira no bolso; dar uma festa em casa, mas guardar os objetos de valor no
quarto. Ninguém espera realmente recuperar um celular perdido na rua. Quando
isso acontece, parece quase um pequeno milagre cotidiano. A convivência é
intensa, calorosa, efusiva; a confiança, entretanto, permanece escassa.
Falar de confiança é falar de segurança. Não
apenas segurança física, mas segurança moral: a sensação de que o outro
compartilha conosco um horizonte comum de valores e expectativas. A confiança
raramente é um sentimento abstrato dirigido à humanidade em geral. Ela nasce
quase sempre da percepção de proximidade: confiamos mais facilmente naqueles
que reconhecemos como semelhantes a nós.
Essa proximidade pode assumir muitas formas:
idioma, religião, origem, experiências históricas compartilhadas, posição
social, etnia ou aparência física. Onde essa sensação existe, a diferença tende
a ser percebida como diversidade legítima. Onde ela falta, o diferente passa a
ser interpretado como ameaça. Como observava Montesquieu, segurança e
insegurança pertencem antes de tudo ao domínio das sensações —e não há
República sem confiança.
Não é difícil perceber por que esse tipo de
confiança sempre foi particularmente difícil de produzir no Brasil. Trata-se de
uma sociedade profundamente assimétrica, construída por um Estado que
organizou, sobre um vasto território, uma população heterogênea: povos
indígenas, africanos escravizados, colonizadores europeus e, posteriormente,
imigrantes livres de várias origens. A desigualdade social e cultural era a
regra, e a integração nunca foi completa.
Nesse contexto, a confiança dificilmente
poderia se estabelecer de forma horizontal entre indivíduos livres e iguais. O
que existia era antes uma sensação relativa de segurança proporcionada por um
sistema tradicional de dominação. Tratava-se de uma convivência oligárquica,
rural e assimétrica, baseada no equilíbrio instável entre grupos sociais
distintos e na hegemonia de um grupo culturalmente associado à matriz europeia,
patriarcal e branca.
A identidade nacional foi construída a partir
desse quadro. Frequentemente se descreveu o Brasil —Gilberto Freyre é aqui o
grande paradigma— como uma espécie de democracia étnica quando comparado ao
racismo institucionalizado que marcou, na primeira metade do século 20, partes
da Europa, os Estados Unidos ou a África do Sul, ainda que sob a hegemonia
cultural europeia. Os demais grupos integravam essa ordem sobretudo por hábito,
acomodação ou adaptação.
O antropólogo Roberto DaMatta atualizou essa
matriz a lendo por Tocqueville:
a lógica da casa e da rua como gestão cotidiana da desigualdade entre iguais
formais. Darcy Ribeiro a
releu por Marx: a formação do "povo novo" como processo construído
sobre violência e expropriação.
Nos três casos, a sociabilidade brasileira
aparece como mecanismo compensatório das assimetrias, tanto mais intensa quanto
menor a capacidade de produzir solidariedade efetiva. Sérgio Buarque de Holanda
já o havia demonstrado em "Raízes do
Brasil".
Por outro ângulo, o Estado procurou promover
políticas de integração nacional ainda em um contexto social profundamente
hierárquico. O diagnóstico da fragilidade da solidariedade nacional foi
formulado por Alberto Torres e desenvolvido por Oliveira Viana, para quem
caberia ao Estado dirigente e forte organizar politicamente a integração
territorial e cultural do país, o convertendo em uma verdadeira nacionalidade.
Essa concepção inspirou parte importante da obra institucional do país, do
Estado Novo até o fim da ditadura militar, cuja concepção de democracia remetia
ao conceito clássico de cidadania regulada, formulado por Wanderley
Guilherme dos Santos.
Nesse quadro, Oliveira Viana e Gilberto
Freyre acabaram por fornecer, cada qual à sua maneira, os principais
fundamentos intelectuais da identidade nacional brasileira no século 20, aos
quais se acrescentou, a partir da década de 1950, a dimensão prospectiva do
nacional-desenvolvimentismo teorizado por Celso Furtado.
Foi esse tripé —Estado forte, sociedade mestiça e horizonte desenvolvido— que,
bem ou mal, permitiu ao Brasil atravessar o século 20.
Esse equilíbrio entre um Estado integrador e
uma sociedade ainda hierárquica começou a se desfazer com o próprio avanço da
modernização durante o regime militar. À medida que o país se urbanizou e se
democratizou, grupos sociais antes relativamente separados passaram a conviver
com maior proximidade.
O nivelamento político produzido pelo
sufrágio universal trouxe para o centro da vida pública demandas por
reconhecimento e igualdade vindas de setores historicamente subordinados. A
República teve de se reinventar em chave mais igualitária, e foi o que procurou
fazer a democracia inaugurada pela Constituição de 1988.
Essa transformação ocorreu, porém, em um
contexto institucional precário. A urbanização acelerada durante a ditadura
militar não foi acompanhada de políticas públicas capazes de organizar o
crescimento das cidades. O ensino público, embora ampliado quantitativamente,
permaneceu de qualidade irregular e incapaz de produzir referências culturais
compartilhadas por toda a sociedade. O sistema de segurança pública atravessou
a transição democrática praticamente intacto: estadualizado, militarizado, desigual
e frequentemente capturado por milícias.
O resultado foi explosivo. A criminalidade
urbana cresceu e passou a atingir todos os estratos sociais. As classes médias
e altas recorreram a mecanismos privados de proteção e associaram,
instintivamente, a insegurança à proximidade do diferente, frequentemente
identificado como pobre ou negro.
Ao mesmo tempo, a democratização ampliou
enormemente a participação política de grupos historicamente marginalizados.
Movimentos negros, indígenas, feministas e LGBTQIA+ organizaram as suas
reivindicações em torno de identidades coletivas e de uma crítica frontal à
narrativa tradicional da identidade nacional, interpretada como disfarce de uma
estrutura de dominação. Essas reivindicações produziram conquistas importantes:
criminalização de práticas discriminatórias, ações afirmativas, cotas no ensino
superior e no serviço público.
Ocorre que o processo se desenvolveu
simultaneamente à erosão do antigo imaginário de unidade nacional. À medida que
a identidade brasileira passou a ser denunciada como ideologia de dominação,
setores atingidos reagiram empregando a própria gramática identitária: branca
ou mestiça, cristã, masculina. Reivindicaram o monopólio do patriotismo e
passaram a questionar as instituições democráticas quando essas deixavam de
favorecer os seus interesses.
Nesse contexto, instituições encarregadas de
interpretar a Constituição, particularmente o STF, se tornaram um alvo
privilegiado de contestação política. Quanto mais ameaçados esses grupos se
percebem, menor parece ser a sua disposição para aceitar as regras do jogo
democrático. Poucos aceitam jogar indefinidamente um jogo no qual acreditam
estar destinados a perder. Em parte, é isso que ajuda a explicar o retorno de
tentações autoritárias.
O resultado é paradoxal. Em uma sociedade em
que a confiança nunca foi plenamente generalizada e em que a ordem se apoiava
mais na hierarquia que na igualdade, o processo de modernização não produziu a
expansão da confiança, mas a dissolução do frágil equilíbrio que a sustentava.
A democratização politizou conflitos que antes permaneciam latentes. A
solidariedade passou a se organizar em campos antagonistas.
Existe, é verdade, um amplo setor da
sociedade que não se reconhece em nenhum desses polos. Não deseja ditadura
garantidora das hierarquias ameaçadas, tampouco acredita em utopias igualitárias
radicais. Trata-se de uma maioria moderada. O problema é que, na política
contemporânea —no Brasil e em muitos outros países— não são os moderados que
definem o tom do debate público. Vivemos um momento marcado pela reação, e toda
reação tende a provocar, em resposta, uma reação de intensidade comparável.
Já foi dito: não há República sem confiança.
Como, então, reconstruí-la —ou começar a construí-la— em um contexto
democrático? Isso exige, em primeiro lugar, um sistema de segurança pública
simultaneamente eficiente e igualitário. Supõe também uma educação pública
capaz de formar cidadãos que compartilhem referências culturais comuns. Para
enfrentar esses dois desafios, reformas constitucionais terão de fortalecer o
Estado nacional, identificado com a União.
Mas, paralelamente, a reconstrução requer a
recomposição de um imaginário nacional capaz de integrar as diversas
parcialidades que compõem a sociedade brasileira. Esse imaginário não pode
repousar no restabelecimento da antiga hegemonia cultural de matriz europeia,
tampouco na pretensão de erradicá-la.
O que se impõe é reconhecer explicitamente a
pluralidade de origens que formaram o país, sem que tal reconhecimento se volte
contra a própria ideia de nacionalidade. Será preciso, por um exercício de
imaginação histórica, rever o que poderia ser reaproveitado do repertório
institucional e simbólico do século 20. Não há identidade sem algum passado
compartilhado, ainda que não precise ser exatamente o mesmo passado que
estruturou a ordem anterior.
Sem algum horizonte comum de pertencimento, a
democracia tende a se transformar em uma mera arena de antagonismos
permanentes. Uma sociedade em que todos desconfiam de todos dificilmente
consegue sustentar por muito tempo a própria liberdade, porque a liberdade
política pressupõe, em última instância, um mínimo de confiança recíproca entre
aqueles que compartilham o mesmo destino coletivo.
Afinal, a nação continua sendo o fundamento
efetivo da cidadania, e é nela que a Constituição encontra a sua base última de
legitimidade.
*Professor do Iesp-Uerj (Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), editor da
revista Insight Inteligência, membro do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa

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