segunda-feira, 30 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O declínio da democracia americana

Por Folha de S. Paulo

Relatório aponta retrocesso sob Trump, com ataques a instituições e a vozes dissidentes

Avanço do autoritarismo é fenômeno global; no Brasil, documento vê sociedade polarizada e poderia dar mais atenção a abusos do Supremo

O voto popular é o que há de mais essencial em uma democracia, mas não é o bastante para atestar o pleno funcionamento do regime. Para tanto é preciso também haver liberdades civis, igualdade de todos perante a lei, freios e contrapesos ao poder dos governantes. Nesse sentido, a democracia americana, uma das mais longevas do mundo, está fragilizada.

Esse fato, perceptível para a opinião pública global, é mensurado no mais recente relatório do respeitado instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. No levantamento dos diferentes graus de soberania popular e autoritarismo no mundo, o grande abalo no ano passado se deu com o início do novo mandato de Donald Trump.

Pela primeira vez em 50 anos, os Estados Unidos deixaram de ser considerados uma democracia liberal —o grau mais elevado de uma escala que inclui autocracia fechada, autocracia eleitoral e democracia eleitoral, além de uma "zona cinzenta" de países de classificação incerta.

Sob Trump, a nota atribuída aos EUA despencou de 0,75 para 0,57, o que coloca o país no rol das democracias eleitorais atrás do Brasil (0,7). Critérios serão sempre passíveis de questionamento em rankings do tipo, mas os motivos apontados para a queda são sólidos: afrontas aos freios institucionais, politização do serviço público e ataques à imprensa, à academia e a vozes dissidentes.

Ainda que o caso americano tenha merecido destaque desta vez, o avanço do autoritarismo é fenômeno mais amplo e antigo. Pela metodologia do V-Dem, quase três quartos da população mundial (74%, ou 6 bilhões de pessoas) vivem sob autocracias, ante 50% há 20 anos.

Não mais de 7% dos habitantes do planeta desfrutam atualmente da democracia liberal, o menos falho dos sistemas de organização social e política à disposição. Ela é praticada por um grupo restrito de 31 países, a maioria na Europa; na América do Sul, apenas Chile e Uruguai fazem jus à classificação.

Há explicações diversas para essa recessão democrática, da polarização ideológica exacerbada pelas redes sociais ao medo da imigração que impulsiona o extremismo de direita em nações desenvolvidas. Nenhuma delas dá conta de todos os casos.

No Brasil, o relatório considera ter havido melhora desde o fim do governo Jair Bolsonaro (PL), o que parece lógico, dadas as afrontas ao Judiciário e ao sistema eleitoral que culminaram na ofensiva golpista de 2022.

O documento ressalva, no entanto, que a sociedade brasileira permanece "profundamente polarizada" —e poderia também dar mais atenção aos abusos crescentes cometidos pelo Congresso Nacional e, sobretudo, pelo Supremo Tribunal Federal.

Aqui, a perda de credibilidade de instituições fundamentais e o descaso com a corrupção nas altas esferas de poder parecem fomentar discursos populistas e o flerte com soluções autoritárias.

Cuidados a serem tomados com as delações

Por Folha de S. Paulo

Colaborações do caso Master não podem repetir erros que prejudicaram resultados da Lava Jato

Atuação conjunta de PF e Ministério Público precisa impedir que Vorcaro poupe poderosos como ministros do Supremo

Há compreensível expectativa —ou pânico, a depender da pessoa— em torno de uma iminente delação premiada do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Cogitam-se ainda delações de seu cunhado, Fabiano Zettel, e de João Carlos Mansur, que geria fundos de investimento envolvidos com o banco e, suspeita-se, com o crime organizado.

Essa modalidade de colaboração de criminosos com a Justiça ganhou notoriedade com a Operação Lava Jato, iniciada 12 anos atrás. A experiência mostra que ela sempre produz notícias ruidosas —mas são necessários cuidados para que também propicie resultados juridicamente sólidos.

Um caso exemplar de fracasso foi o das denúncias do ex-ministro de governos petistas Antonio Palocci, que pareciam bombásticas de início e foram se desmoralizando ao longo do tempo. Já Joesley Batista, da JBS, obteve benefícios desproporcionais ao saldo de suas revelações.

Se a delação pretende ter utilidade real e resistir a qualquer tentativa futura de invalidação, precisa nascer cercada de transparência e rigor.

Todas as tratativas devem ser registradas. Cada reunião, proposta, contraproposta, ajuste e compromisso precisa deixar rastro formal, claro e verificável. Não há espaço para improviso, informalidade ou arranjos paralelos —ou, mais à frente, haverá alegações de vício, excesso, falta de controle e quebra de confiança.

O teor da colaboração também precisa obedecer a um padrão técnico inegociável. Os fatos devem ser organizados por episódios concretos, com descrição objetiva de quem fez o quê. Cada afirmação precisa ser acompanhada dos elementos de corroboração confrontada com o contexto fático já revelado pela investigação.

Para que isso funcione, a atuação conjunta da Polícia Federal e do Ministério Público será decisiva. Esse alinhamento é essencial para evitar conflitos de versões, respostas desencontradas e disputas institucionais.

Também se deve estabelecer que qualquer omissão dolosa de fato relevante será tratada como violação grave. Essa cláusula é indispensável para impedir colaborações seletivas. Tal cuidado é particularmente relevante no caso de Vorcaro, que teve ligações reveladas com dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

Se o caso Master pode revelar o funcionamento de uma engrenagem de captura, ocultação e proteção, a resposta do Estado precisa ser ainda mais cuidadosa. A Lava Jato ensina que a corrupção nunca se dá por vencida e explora qualquer fragilidade da Justiça.

Promessa do novo PNE exige empenho maior do governo

Por O Globo

Plano de educação traz metas mais agressivas, avaliadas a cada dois anos. São viáveis, mas será preciso esforço

É auspicioso o novo Plano Nacional de Educação (PNE) aprovado pelo Senado na semana passada, com diretrizes mais abrangentes que as anteriores, traçadas para o período 2014-2024, mas prorrogadas até o fim do ano passado. O novo PNE traça 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias (antes eram 20 metas, 56 indicadores e 254 estratégias). O texto, que seguiu para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, norteará as políticas educacionais de governo federal, estados e municípios até 2035.

O novo PNE representa, na avaliação do movimento Todos Pela Educação, “um marco fundamental” que poderá “orientar avanços significativos”. Entre seus méritos, estão a ênfase na qualidade — principal deficiência educacional brasileira —, a preocupação com equidade e a criação de instrumentos para implementação e monitoramento. Há metas para qualidade da educação infantil, profissional e formação de professores, que não existiam no anterior. Também são novidades a projeção de metas para estados e municípios e a orientação de acompanhamento a cada dois anos (antes a análise ocorria apenas ao fim de dez anos).

Entre as metas listadas, estão a garantia de que 100% das crianças estejam alfabetizadas e alcancem o nível adequado de matemática ao fim do segundo ano do ensino fundamental (anteriormente, a previsão de alfabetização era o terceiro ano, e a matemática não era citada); a universalização da pré-escola (prevista no plano anterior, mas não cumprida); e a expansão do atendimento em creches a 60% das crianças até 3 anos (anteriormente eram 50%).

Embora alguns objetivos possam parecer descolados da realidade, eles poderão ser alcançados com mudanças de gestão. “Algumas metas de aprendizagem, especialmente as do 9º ano e do fim do ensino médio, são ambiciosas demais”, diz Gabriel Corrêa, diretor de políticas públicas do Todos Pela Educação. “Mas, de modo geral, se adotarmos um ritmo mais forte na gestão educacional, considerando governo federal, estados e municípios, elas são factíveis. O plano não é a salvação, é um norte muito relevante.”

O país não poderia ficar mais tempo sem um plano com metas para todas as etapas, da educação infantil ao ensino superior. A negligência com a educação já foi longe demais. Mas, apesar do acordo no Congresso e da boa receptividade no meio educacional, uma coisa é ter um bom plano, outra é cumpri-lo. O histórico até aqui não favorece os governos. Um estudo produzido pela Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados em 2025 mostrou que 61% das metas estabelecidas no plano anterior não foram atingidas (o levantamento considerou 42 dos 56 indicadores que permitiam verificação). Algumas até retrocederam, como percentual de alfabetizados no segundo ano.

Melhorar a qualidade da educação é tarefa que exige esforço dos três níveis de governo. Está claro que, no ritmo atual, as novas metas dificilmente serão cumpridas. De pouco adianta ter um plano ousado se os gestores não se empenharem para segui-lo. Ao menos, desta vez é previsto acompanhamento a cada dois anos. Isso lançará mais responsabilidade sobre os políticos. Espera-se que o monitoramento seja levado a sério e que os resultados sejam divulgados com transparência. Cabe aos organismos de controle e à sociedade civil seguir de perto. E, ao eleitor, punir ou premiar na urna os gestores segundo o cumprimento das metas.

Fracasso de PDV demonstra limite de planos do governo para salvar Correios

Por O Globo

Sem privatização, estatal continuará a assombrar o Tesouro, já às voltas com crise fiscal crônica

As dificuldades na execução do plano de reestruturação traçado pelo governo para a Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) não tardaram a se materializar. Com prejuízo de R$ 6,1 bilhões nos três primeiros trimestres de 2025 (o dado consolidado para o ano ainda não foi publicado) e contando pouco mais de 80 mil funcionários, a empresa tem obtido resultados tímidos no Programa de Demissão Voluntária (PDV) estabelecido como crítico para reduzir seus custos fixos. Com meta de 10 mil desligamentos, o PDV está perto de encerrar o prazo e atraiu apenas 3 mil funcionários.

Trata-se de um dos itens de redução de custos no plano do governo. A estimativa era, até o fim de 2027, alcançar 15 mil adesões, com economia anual estimada em R$ 2,1 bilhões. Mesmo assim, seria pouco para resgatar a saúde financeira da ECT — só no primeiro semestre do ano passado, a estatal registrou perdas de R$ 4,4 bilhões. Por enquanto ela vai sobrevivendo graças à benevolência do consórcio de bancos estatais e privados que liberou em dezembro empréstimo de R$ 12 bilhões, com aval do Tesouro. Deu-se um pouco mais de oxigênio aos Correios, mas parece inevitável que, caso a empresa não seja privatizada, cedo ou tarde a conta caia no colo do contribuinte.

Impressiona que os problemas da ECT, que persistem há pelo menos 15 anos, não tenham sido contornados com um óbvio e necessário enxugamento de custos. No governo Jair Bolsonaro, a empresa chegou a entrar na relação de estatais a privatizar, mas foi retirada no retorno ao Planalto de Luiz Inácio Lula da Silva.

Os prognósticos para o plano de ajuste são desanimadores. Além do PDV, a diretoria tenta avançar com outros cortes de despesas. Um deles envolve otimizar a rede de atendimento. Foram fechadas mais de 120 agências, mas isso equivale a 12% da meta de mil. Há também leilões para venda de imóveis. Nos já realizados, arrecadaram-se míseros R$ 9 milhões, ou 20% do valor ofertado. Há terrenos bem avaliados em Salvador e Brasília, na casa de centenas de milhões. Tais cifras, porém, apenas atenuam os efeitos da crise estrutural que atinge a ECT.

O fim do mercado de cartas e correspondências serviu no mundo todo para que as empresas públicas de correios se reinventassem. O Royal Mail britânico foi privatizado. O Deutsche Post alemão virou empresa de economia mista. Na França, apesar de a empresa La Poste continuar estatal, tornou-se sociedade anônima e passou a ter uma administração empresarial com metas de eficiência. O Brasil ficou parado no mesmo lugar. Para sobreviver sem ajuda do Tesouro, os Correios teriam de competir no mercado de entregas criado e impulsionado pelo comércio eletrônico, hoje dominado por startups ágeis que atuam sobretudo na rentável fase final da entrega. Incapazes até de entregar cartas simples ou boletos antes do vencimento em bairros de elite no Rio, é inimaginável os Correios sobreviverem nesse ambiente de concorrência. Sem privatização, a ECT continuará a ser uma ameaça para o Tesouro, já às voltas com crise fiscal crônica.

Lula encurralado é um perigo

Por O Estado de S. Paulo

Pesquisas mostram um Lula com perda de apoio, rejeição alta, base encolhida e avanço de adversários. Se bater o desespero, o petista pode piorar um governo que já é muito ruim

A mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg espalhou brasas onde já havia muito fogo nas aflições do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua ambição pela reeleição. Se era nítida a preocupação com a queda na aprovação, o avanço da desaprovação e o pessimismo crescente dos brasileiros, o novo levantamento reafirma a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa e, mais do que isso, expõe um presidente de fôlego rarefeito. Dois dados são especialmente eloquentes: num eventual segundo turno, Flávio aparece com 47,6% contra 46,6% de Lula, um empate técnico, mas politicamente devastador pela curva ascendente do senador; além disso, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Michelle Bolsonaro (PL) e até o inelegível Jair Bolsonaro surgem numericamente à frente do presidente em cenários de segundo turno.

Ainda que pesquisas retratem circunstâncias específicas, a sucessão de maus números abre a janela do desespero para Lula e o PT. Depois de um breve respiro no fim do ano passado, o presidente e os demais morubixabas do partido se veem diante do cenário mais adverso desde o início do terceiro mandato – agravado pelo avanço do calendário eleitoral. Há empate técnico, mas as curvas de desempenho são opostas. O presidente passa a correr risco real de derrota mesmo com a força da máquina e sem um adversário único à direita. Não raros especialistas avaliam que não se trata de um tropeço episódico, mas da consolidação de uma tendência: Lula deixou de ser quase imbatível.

Esse enfraquecimento dialoga com a deterioração da avaliação do governo. Levantamentos da Genial/Quaest e do Datafolha mostraram que a maioria dos brasileiros desaprova a gestão, enquanto a avaliação negativa já rivaliza com a positiva. O País está dividido, e mesmo entre apoiadores a malaise mostra sua cara, reforçando um quadro consolidado de desgaste que corrói o principal ativo de qualquer candidato à reeleição: convencer o eleitor de que vale a pena continuar.

Há razões objetivas para isso. A esta altura, Lula já não pode se escorar em heranças. O que se vê é uma administração errática, incapaz de produzir resultados consistentes e marcada por mediocridade. Na economia, a melhora não chega ao cotidiano. Na segurança pública, reina a ausência. Na saúde, faltam direção e entrega. O Palácio do Planalto nunca deixou de estar preso a anúncios, slogans e repetição de velhas fórmulas.

Convém acrescentar um elemento corrosivo: a sombra da corrupção. Escândalos como o do INSS reavivam memórias que o lulopetismo jamais apagou. Mesmo no caso do Banco Master, que democraticamente atinge nomes do bolsonarismo, da direita, do Centrão e até mesmo do STF, Lula e seu partido se veem claramente contaminados – sem ignorar que o PT da Bahia é citado continuamente na lista de relações mal explicadas. Ainda que episódios específicos não tenham, isoladamente, o poder de definir uma eleição, eles reforçam um ambiente de desconfiança que pesa, sobretudo, sobre um partido cuja história recente é indissociável de escândalos de grande magnitude.

Diante desse cenário, a reação do presidente tem sido preocupante para os petistas. Em vez de ampliar o diálogo, Lula se fechou ainda mais à esquerda, apostando numa retórica de confronto social e em pautas de forte apelo ideológico, mas baixa capacidade de expansão eleitoral. O resultado é um eleitorado fiel, porém limitado, e insuficiente para garantir vitória numa disputa que será decidida na margem. Como apontam analistas, algo entre 3% e 4% do eleitorado deve decidir a eleição de 2026. São eleitores voláteis e sensíveis ao desempenho do governo. É justamente nesse terreno que Lula encontra suas maiores dificuldades.

Se havia apreensão no entorno do presidente, os novos dados tendem a acionar outro estágio: o desespero. Não será surpresa se o governo intensificar medidas de apelo imediato, expandir gastos de forma temerária ou radicalizar o discurso para reverter a tendência adversa. O populismo de sempre, enfim. Há, contudo, limites para isso. Eleições exigem credibilidade, diálogo e resultados. Hoje, Lula tem dificuldade em oferecer os três. E é por isso que sua reeleição deixou de ser uma hipótese provável, e a campanha será uma disputa incerta e perigosamente inclinada contra ele.

Um país dividido pelo esgoto

Por O Estado de S. Paulo

Marco do Saneamento deu um salto institucional e desencadeou investimentos. Mas o ranking do Trata Brasil mostra que falta replicar a experiência das ilhas de excelência nos bolsões de atraso

O Brasil não sofre por falta de soluções em saneamento. Sofre por excesso de tolerância com o atraso. O novo ranking do Instituto Trata Brasil reafirma um paradoxo constrangedor: um país de renda média-alta convive com padrões de infraestrutura típicos de nações miseráveis. Mais de 30 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada, e cerca de 90 milhões – mais de 40% da população – vivem sem coleta de esgoto. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e o saneamento é a expressão mais abjeta desse abismo.

O novo marco legal, aprovado em 2020, redesenhou o setor ao impor metas – 99% de acesso à água e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033 –, exigir contratos com contrapartidas e prazos definidos e abrir espaço à participação privada. Os investimentos cresceram e novos projetos foram estruturados. O País rompeu com o estatismo que por décadas imobilizou o setor. Mas a distância entre o avanço institucional e a execução concreta continua grande.

O quadro já não é de morosidade generalizada, mas de ritmos divergentes e heterogeneidade extrema. Há dois Brasis: um que acelera rumo à universalização e outro que permanece atolado em condições sanitárias ultrajantes. Nos 20 municípios do topo (concentrados no Sul e Sudeste), a coleta de esgoto, por exemplo, serve a 98% da população; nos 20 da base (a maioria no Norte e Nordeste), apenas a 28%.

Os investimentos são a variável decisiva. Os 20 melhores municípios investem em média R$ 176 por habitante (há quem chegue a R$ 572); os 20 piores, R$ 77 (há quem não chegue a R$ 10). O necessário para atingir a meta de universalização, em tese, seria uma média de R$ 225. Mas, na prática, entre os cem maiores municípios do Brasil, a média é de R$ 135, e metade investe menos de R$ 100. Nesse ritmo, a universalização pode ser adiada para 2070 ou mais.

Atrair capital nessa escala exige previsibilidade regulatória, segurança jurídica e capacidade de execução. Em um setor intensivo em investimentos de longo prazo, decisões erráticas afastam investidores, encarecem projetos e retardam obras. Some-se a isso a fragmentação regulatória e a fragilidade técnica de muitos municípios, e o resultado é um sistema que avança, mas de modo desigual e longe da escala necessária.

Onde houve modelagem adequada, regulação estável e metas claras, os resultados apareceram. Concessões e parcerias público-privadas têm ampliado a cobertura e acelerado investimentos. Desde a aprovação do marco, o número de municípios com participação privada passou de menos de 300 para quase 1.800. Segundo a consultoria Inter.B, enquanto os investimentos públicos oscilaram entre R$ 22 bilhões e R$ 14,8 bilhões ao ano, os privados cresceram continuamente, de R$ 7,4 bilhões em 2022 para R$ 31,2 bilhões em 2025. O saneamento avança quando há alinhamento entre incentivos, capital e governança. O Trata Brasil identifica várias ilhas de excelência e cidades em condições e regiões diversas – como Teresina (PI), Guarulhos (SP) ou Juiz de Fora (MG) – que reverteram a estagnação e deram grandes saltos.

O caminho é replicar essas experiências. O risco é perder esse impulso. Flexibilizações indevidas, brechas regulatórias ou tentativas de reverter os pilares do marco legal podem comprometer um processo que, embora ainda incompleto, finalmente começou a produzir resultados.

Se não há soluções mágicas, tampouco há mistério: universalizar o saneamento exige blindar o sistema regulatório dos vícios patrimonialistas e clientelistas que entorpeceram o setor por décadas, fortalecer a capacidade técnica dos entes locais e assegurar estabilidade institucional através de políticas projetadas para durar não pelo período dos ciclos eleitorais, mas por décadas. Exige, sobretudo, que a cultura política trate o saneamento como uma necessidade estruturante, com impactos diretos sobre saúde, produtividade, educação e meio ambiente.

As soluções existem. Falta transformar avanço em escala e intenção em execução. O ganho é duplo. A universalização do saneamento básico é, antes de tudo, uma urgência civilizacional. Mas, além disso, é um ótimo negócio.

Tarde demais para o Rio

Por O Estado de S. Paulo

Punição de Castro expõe a decomposição política do Estado e atesta a lentidão da Justiça Eleitoral

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condenou Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio, à inelegibilidade por oito anos. A decisão não só foi justa, como esperada. Dito isso, é só mais uma, entre tantas outras, que expõe o avançado estado de decomposição política que há anos constrange os fluminenses mais preocupados com a qualidade de sua democracia.

No que concerne ao caso julgado, não há muito o que dizer. Castro pediu para ser condenado. Pululam as provas de que o ex-governador violou a lei eleitoral para ser reeleito em 2022. Como chefe do Executivo estadual, ele criou uma folha de pagamento paralela para remunerar servidores da Fundação Ceperj e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro que atuaram como seus cabos eleitorais, caso clássico de abuso de poder político e econômico.

E não se tratou, como é notório, de um episódio isolado. A sucessão de ex-governadores do Rio alcançados pelas garras da Justiça revela um padrão de delinquência. A máquina pública, em vez de ser um instrumento de governança em prol do bem-estar da população fluminense, converteu-se em instrumento de favorecimento eleitoral, quando não de enriquecimento ilícito.

Mais perturbador ainda foi o cenário dantesco que, por pouco, não se consumou. Por meio de uma manobra urdida por Castro e seus aliados, o governo do Estado quase foi parar nas mãos do ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa que foi preso novamente por suspeita de ligação com o Comando Vermelho, uma das mais perigosas facções criminosas do País. A trama não deu certo e, por ora, ninguém sabe quem governará o Estado.

Mas, se as desventuras do sr. Castro e sua grei dizem respeito aos eleitores do Rio, para o Brasil, muito mais escandalosa é a lentidão da Justiça Eleitoral. O processo contra o ex-governador teve início em 2022, mas só agora foi encerrado no TSE. É inadmissível que a Justiça Eleitoral, que tem de ser necessariamente célere dadas as suas razões de existir, seja tão lenta a ponto de permitir que alguém como Castro exerça quase todo o mandato até que se reconheça que ele o obteve por meios ilícitos.

Aqui não se está imputando a magistrados ou procuradores qualquer intenção de protelar o término do julgamento. O problema é estrutural e precisa ser tratado pelo Congresso com coragem e espírito republicano. O atual ordenamento jurídico, com sua miríade de ritos e recursos, favorece a lentidão e, na prática, permite que mandatários eleitos sob suspeita governem por quase todo o mandato, quando não em sua integralidade.

A função da Justiça Eleitoral não é apenas punir candidatos ou mandatários que descumprem a lei, mas também prevenir danos à representação democrática. Se a decisão chega tarde demais, torna-se meramente simbólica. O mandato já foi exercido no todo ou em grande parte, seus efeitos políticos já foram produzidos e, principalmente, eventuais prejuízos à administração pública já podem ter sido consumados.

Em suma, a decisão do TSE foi correta, mas veio tarde. Para que não se repitam casos semelhantes – e, em se tratando de Rio, isso é mais do que provável –, é preciso que a Justiça Eleitoral chegue rápido em socorro dos eleitores.

Inovação patina no Brasil com juro alto e baixo crescimento

Por Valor Econômico

O governo tem de indicar sua estratégia de desenvolvimento, algo diferente de tornar disponíveis os recursos e ignorar a eficácia seu destino

O Brasil continua patinando em inovação e pesquisa e desenvolvimento (P&D), como revela a mais recente Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), do IBGE. Em 2024, a taxa de inovação das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas no Brasil foi de 64,4%, terceira queda consecutiva e a menor taxa desde 2021, quando estava em 70,5%. Essa queda coincide com um período de forte elevação da taxa Selic, que saiu de 2% em dezembro de 2020 no auge da pandemia de covid-19, para 7,75% no fim de 2021 e 13,75% no fim de 2022, o que desestimulou o investimento das empresas.

A perspectiva para este ano não é das melhores diante da instabilidade global provocada pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Apesar do peso do fator externo, o fraco desempenho do país em inovação é resultado principalmente de problemas crônicos domésticos que desestimulam as empresas a investirem na criação de produtos e processos originais. Entre os entraves há ineficiência na elaboração de políticas públicas que fomentem o ambiente de inovação no país, resultando em um mercado com pouca exposição à concorrência externa, excesso de burocracia para as empresas acessarem instrumentos públicos de apoio e para registro de patentes, oferta limitada de profissionais de ciências e engenharia e, principalmente, instabilidade econômica.

A pesquisa do IBGE, que investiga a dimensão e o perfil dos recursos voltados para a inovação no Brasil, corrobora os dados de outra pesquisa, o Índice Global de Inovação (IGI), da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), de setembro de 2025. Em ambas, o país aparece praticamente estagnado há um bom tempo nas posições intermediárias do ranking, com pequenas alterações entre um ano e outro. Em um momento que a incorporação da inteligência artificial em todas as áreas promete gerar transformações profundas na atividade econômica, com ganhos significativos na produtividade e rentabilidade das empresas, o Brasil arrisca perder novamente o bonde do desenvolvimento. O investimento em P&D é essencial para que uma empresa incorpore uma nova tecnologia em seu sistema produtivo ou para renovar seus produtos - tanto pela inovação pioneira quanto pela imitação seguidora.

Um dos fatores que desestimula a inovação e P&D no Brasil é o excesso de proteção do mercado interno. Enquanto as empresas não sentirem necessidade de inovar, por pressão competitiva, pouco será mudado. Também é preciso sair do viés de oferta que caracterizou as iniciativas das políticas públicas das últimas décadas, como isenção de impostos e crédito subsidiado. A inovação precisa ser um imperativo para a estratégia de uma empresa. Mas ela precisa ver potencial de lucratividade no mercado para se arriscar e, para isso, é preciso haver crescimento econômico sustentável.

Com uma das taxas de juro reais mais altas do mundo, de mais de 9%, inferior apenas à da Turquia, e que tende a permanecer elevada diante da deterioração do cenário externo, já se antecipa que o Brasil crescerá menos que os 2,3% de 2025. Por serem mais ativas na busca de novos mercados e mais expostas à competição externa, as grandes empresas são as que mais realizam investimentos em P&D no Brasil. Em 2024, as companhias com 500 ou mais pessoas ocupadas concentraram 87,4% das aplicações nessa área, com aumento de 84,6% em relação a 2023, segundo a Pintec. Logo, elas registraram a maior taxa de inovação, chegando a 75,4% no grupo.

Vale lembrar que P&D não é sinônimo de inovação, mas uma atividade desenvolvida pelas empresas para chegarem a aprimoramento de produtos e/ou de processos de negócio, e que nem sempre vai levar à um novo produto ou processo. Porém, o retorno da inovação compensa o risco do investimento. Pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (25 de março), mostra que entre as empresas que realizaram atividade de inovação nos últimos três anos, 38% relatavam que obtiveram aumento na produtividade como principal resultado, seguido por acesso a novos mercados (21%) e redução de custos (19%).

No IGI, o Brasil caiu de uma modesta 47ª posição em 2011 para o 52º lugar em 2025, e ainda perdeu a liderança regional para o Chile - uma economia muito menor que a brasileira e com uma base industrial mais estreita. Segundo os dados do IGI, o gasto com educação no Chile e no Brasil são equivalentes, de 5% e 5,5% do PIB, respectivamente, em 2021. Porém, enquanto no Chile 21,38% do total de graduados em 2022 eram das áreas de ciências e engenharia, no Brasil esse percentual foi de 16,27%.

Com oferta maior de capital humano de qualidade, em 2024, o emprego intensivo em conhecimento - que pagam salários melhores - correspondia a 33,9% da força de trabalho no Chile, ante 25,13% no Brasil. Há algo errado quando o governo gasta R$ 310 bilhões em renúncias fiscais e subvenções em duas décadas e não sai do lugar em produtividade, apontam Victor Prodonoff Jr e Hugo Resende (Valor, 18/3). A alta direção das empresas têm de dar prioridade, comandar e guiar o processo. O governo tem de indicar sua estratégia de desenvolvimento, algo diferente de tornar disponíveis os recursos e ignorar a eficácia seu destino.

O Brasil precisa prevenir mais do que reagir na saúde

Por Correio Braziliense

Dinâmica de reagir quando a doença se instalou gera custos elevados, pressiona hospitais e reduz as chances de tratamentos eficazes para milhões de pessoas

A saúde pública brasileira convive com uma realidade preocupante: a prevenção ainda ocupa um espaço menor do que deveria nas políticas de governos e nos lares espalhados pelo país. Embora especialistas insistam na importância de antecipar problemas, a lógica predominante continua sendo a de reagir quando a doença se instalou. Essa dinâmica gera custos elevados, pressiona hospitais e reduz as chances de tratamentos eficazes para milhões de pessoas.

Na última sexta-feira, o ministro Alexandre Padilha convocou para o Dia D de imunização contra a gripe, realizado no sábado, alertando para a importância da proteção como forma de evitar a proliferação dos vírus da enfermidade. Nessa mesma linha, a chegada de abril traz uma série de datas que vão destacar a necessidade do cuidado com o corpo. O mês já começa com a Semana da Saúde no Brasil, celebrada entre 2 e 7, com o objetivo de promover hábitos saudáveis. Depois, será a vez de conscientizar a população sobre doença de Chagas, hemofilia, meningite, malária e hipertensão arterial, além da Semana de Vacinação nas Américas.

O país possui um dos maiores programas públicos para esse tipo de atenção do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS), que em sua base valoriza a atenção básica e a prevenção com ações como acompanhamento familiar e aplicação de vacinas. Esse conjunto de iniciativas já comprovou que é possível reduzir, significativamente, a incidência de doenças quando se atua de forma antecipada. Ainda assim, a prática cotidiana revela que esses instrumentos nem sempre recebem os recursos e a prioridade necessários.

Parte do problema está na própria estrutura do sistema, que não consegue se desvencilhar de um círculo vicioso estabelecido há décadas e acaba absorvido pelo atendimento de urgência. Filas nos prontos-socorros e nos postos, superlotação nos leitos, escassez de profissionais e falta de medicamentos tornam o tratamento imediato um desafio constante. Com isso, a prevenção - que exige planejamento, continuidade e investimento de longo prazo - vai perdendo espaço.

Outro fator relevante é a cultura de buscar atendimento apenas quando surgem sintomas — a ausência de exames periódicos e de consultas regulares contribui para que as doenças avancem. Esse comportamento reflete as dificuldades de acesso, as desigualdades sociais profundas, as falhas de informação e a ineficiência das campanhas de conscientização.

Do ponto de vista econômico, investir em prevenção é comprovadamente mais eficiente. Um dos impactos aparece com os gastos menores em procedimentos de alta complexidade, complicações e internações. Além disso, levantamento mostra que cada R$ 1 adicional investido em saúde pública gera retorno de R$ 1,61 no Produto Interno Bruto (PIB). Alinhado a isso, a diminuição das despesas diretas e a recuperação da capacidade produtiva fazem com que cada R$ 1 aplicado no setor resulte em R$ 1,23 em renda a mais para as famílias.

O quadro que se coloca é técnico, político e cultural, impondo esforços amplos e complexos. O Brasil demonstrou, em diferentes momentos, que valorizar a saúde pública transforma indicadores sociais. Nesse contexto, reforçar a prevenção não é apenas uma questão médica, mas uma decisão estratégica para o desenvolvimento. A qualidade de vida de todo cidadão, garantida a partir do fortalecimento do cuidado primário e permanente, é um direito que o país não pode mais negligenciar.

Vema e a urgência de punir crimes contra o meio ambiente no Ceará

Por O Povo (CE)

Passada a fase de comemorações merecidas, é momento de acompanhar os resultados da nova unidade e vê-los refletir em um Ceará capaz de punir corretamente e em justa gravidade os crimes ambientais que assolam o Estado

A recém-criada Vara Estadual do Meio Ambiente (Vema), do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), já inicia as atividades com 2.229 processos a serem julgados. Eles envolvem violações contra o meio ambiente no Estado, tanto na área cível quanto na criminal. O número destaca a urgência do Ceará em contar com uma unidade especializada no assunto, assim como escancara as ameaças enfrentadas pela região, reforçadas por dados e causos cada vez mais frequentes.

Um relatório inédito da Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Eco Nordeste, por exemplo, identificou que o Ceará lidera há seis anos o desmatamento de restinga no Brasil. A restinga é a vegetação que cobre dunas e praias e está associada à Mata Atlântica, portanto protegida pela Lei da Mata Atlântica. Os principais vetores de desmatamento, indica o relatório, são a expansão imobiliária e a agricultura.

Enquanto isso, a Operação Caatinga Resiste, articulada pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), apontou o Ceará como o segundo estado com maior desmatamento ilegal do bioma Caatinga, totalizando 2.062,54 hectares desmatados entre 9 e 19 de março de 2026. O Estado fica atrás apenas de Pernambuco.

Chapada do Araripe, região que sintetiza a ampla biodiversidade cearense, é outro ponto de tensão: tem sido tão pressionada pelo desmatamento que mobilizou o Ministério Público Federal (MPF) a entrar com ação civil pública determinando que qualquer autorização de supressão de vegetação ou licença para empreendimentos dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe, emitida por órgãos estaduais ou municipais, deve ser validada somente após manifestação técnica prévia e vinculante do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A Justiça Federal no Ceará (JFCE) indeferiu o pedido de liminar do MPF, marcando reunião para ouvir os órgãos envolvidos devido à "complexidade técnica do tema".

Soma-se a isso a ameaça à fauna silvestre cearense, com pelo menos 20 espécies ameaçadas de extinção como alvos do tráfico. O dado é de levantamento exclusivo do O POVO , que considerou os animais recebidos pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ceará (Cetas-CE), do Ibama, entre 2018 e 2024. Nesse período, o Cetas-CE recebeu 7.108 animais silvestres, a maioria apreendida do tráfico de animais.

Dos dois mil processos assumidos pela Vema, os casos mais frequentes envolvem justamente estabelecimentos, obras ou serviços potencialmente poluidores, maus-tratos aos animais e dano ambiental. Passada a fase de comemorações merecidas, é momento de acompanhar os resultados da nova unidade e vê-los refletir em um Ceará capaz de punir corretamente e em justa gravidade os crimes ambientais que assolam o Estado.

Nenhum comentário: