quinta-feira, 26 de março de 2026

Derradeiro golpe, por Merval Pereira

O Globo

Castro demonstrou má-fé nesse derradeiro gesto de governo, para tentar, com uma votação indireta para o governo do estado, eleger um correligionário na Alerj que o ajudaria na campanha a senador.

A tentativa do ex-governador do Rio Cláudio Castro de escapar da punição renunciando um dia antes da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a cassação de seu mandato se parece em tudo, menos no resultado, com a do ex-presidente Collor, que, apesar de ter renunciado, foi cassado pelo Congresso Nacional. O então presidente, no entanto, tinha um vice-presidente que assumiu o posto e, no caso do Rio de Janeiro, houve tripla vacância, pois o vice-governador e o presidente da Alerj não estão em condições de assumir por questões legais.

Castro demonstrou má-fé nesse derradeiro gesto de governo, para tentar, com uma votação indireta para o governo do estado, eleger um correligionário na Alerj que o ajudaria na campanha a senador. Mas foi considerado inelegível pelo TSE e disputará a eleição sub judice. O deputado Douglas Ruas, candidato de Castro ao governo do estado, poderá se candidatar a um segundo mandato caso vença a eleição indireta para o mandato-tampão, enfrentando o ex-prefeito Eduardo Paes.

O estado do Rio de Janeiro, mais uma vez, vive uma situação esdrúxula e chega a mais um ciclo eleitoral sem ter resolvido seus dilemas mais profundos. Vive, há décadas, contínua deterioração fiscal, institucional e social que não pode ser explicada apenas por crises conjunturais, ciclos econômicos adversos ou mudanças de governo. O problema do Rio é estrutural e, como tal, exige decisões políticas de longo prazo que têm sido sistematicamente adiadas.

A sucessão de escândalos de corrupção, a fragilidade crônica das finanças públicas, o avanço do crime organizado sobre territórios e serviços, a baixa qualidade das políticas públicas e a dependência excessiva das rendas do petróleo formam um quadro de vulnerabilidade que, há muito, se retroalimenta. O estado parece funcionar sempre no limite da emergência, incapaz de planejar o futuro. Afinal, mal consegue administrar o presente.

Nesse contexto, o livro “Um renascer para o Estado do Rio de Janeiro” (Editora Lux) — organizado por Fabio Giambiagi, Marco Aurelio Cardoso e Guilherme Tinoco, com artigos analíticos de 27 especialistas — surge como contribuição relevante ao debate público. A obra, a ser lançada hoje, não traz atalhos fáceis, mas reúne diagnósticos rigorosos e propostas factíveis para romper o ciclo de improvisação que marca a história recente fluminense.

Violência e (in)segurança, finanças estaduais, fragilidades institucionais, concessões públicas, royalties, economia criativa, mobilidade urbana, saúde e educação. O diagnóstico é amplo e incômodo. Praticamente nenhuma política pública relevante escapa do radar dos autores. Os organizadores do livro ressaltam que a sequência de fracassos político-administrativos do estado do Rio não é recente. Desde a fusão do antigo Estado da Guanabara com o restante do território fluminense, em 1975, consolidou-se um sistema de governança marcado por concentração de poder, baixa coordenação federativa e uso recorrente do orçamento como instrumento de acomodação de interesses.

O resultado foi a expansão desordenada de gastos, incentivos fiscais pouco transparentes e uma estrutura estatal capturada, em diferentes momentos, por coalizões políticas de curto prazo. A dependência das receitas do petróleo é talvez o maior símbolo dessa armadilha. Royalties e participações especiais passaram a financiar despesas permanentes, em vez de investimentos estruturantes. Agora, diante da transição energética global e da economia de baixo carbono, o que antes era conforto tornou-se risco. O declínio do estado não é inexorável, mas o livro ressalta que a reversão depende de escolhas políticas claras e custosas. A obra se coloca como leitura estratégica num ano em que os brasileiros escolherão presidente, governador e parlamentares. Sem enfrentamento da corrupção, sem reequilíbrio fiscal permanente, sem diversificação econômica e sem recuperação da capacidade do estado de impor regras, qualquer promessa de retomada será apenas retórica eleitoral.

 

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